No cenário vibrante do empreendedorismo inovador, o surgimento da Enter como o primeiro unicórnio brasileiro de Inteligência Artificial (IA) é um marco significativo. A trajetória da empresa, focada na aplicação de IA para o complexo sistema jurídico nacional, oferece lições cruciais sobre como construir uma startup de sucesso. Analisando seus ativos estratégicos iniciais, a relevância do problema que se propõe a resolver e seu modelo de negócio, é possível extrair insights valiosos para o ecossistema de inovação.
Ativos Estratégicos Iniciais: A Força do Time Multidisciplinar
Um dos pilares do sucesso da Enter reside na configuração de seu time fundador. A empresa foi concebida por um advogado e dois ex-executivos da Wildlife, uma gigante dos jogos para dispositivos móveis. Essa combinação de conhecimentos em direito e tecnologia é um ativo estratégico fundamental, espelhando o modelo de outras startups inovadoras no setor, como a Harvey, fundada por um advogado e um ex-pesquisador do DeepMind (laboratório de IA do Google).
Destaque-se a impressionante trajetória acadêmica de Mateus Costa-Ribeiro, cofundador advogado da Enter. Ele ingressou na Faculdade de Direito aos 14 anos, obteve o título da OAB aos 18 e, aos 19, foi reconhecido como o mais jovem do mundo a ser aceito no programa de mestrado em Direito da Universidade de Harvard. Essa bagagem acadêmica e profissional dos fundadores, onde advogados trazem o profundo conhecimento do problema jurídico e os demais cofundadores aportam a expertise tecnológica, é um diferencial competitivo claro.
Foco em um Problema Relevante: A Complexidade do Judiciário Brasileiro
A Enter direcionou sua inovação para um dos sistemas jurídicos mais complexos e custosos do mundo: o brasileiro. Caracterizado pela necessidade de interpretar um vasto volume de leis (sistema de civil law) com uma crescente influência de precedentes (common law), o Judiciário do Brasil consome cerca de 1,6% do Produto Interno Bruto (PIB). Este valor é significativamente superior à média de países emergentes (0,5% do PIB) e desenvolvidos (0,3% do PIB), evidenciando a grandiosidade e o custo do desafio.
Os processos jurídicos podem ser de natureza consultiva, transacional ou contenciosa. A Enter, estrategicamente, optou por desenvolver soluções de IA focadas nos processos contenciosos, que envolvem disputas e litígios judiciais ou administrativos. A escolha não é aleatória: o Brasil é notório por ser um dos países mais litigiosos do mundo. Assim, o escopo de atuação da Enter abrange um problema de escala massiva e de alta relevância, com um potencial imenso para otimização e redução de custos.
Modelo de Negócio Inovador: IA Vertical e Remuneração por Desempenho
O modelo de negócio da Enter é um exemplo claro de “IA segmentada por indústria” (industry AI) ou “IA vertical”. Isso significa que a empresa aplica a inteligência artificial para resolver problemas específicos de um setor ou função – neste caso, o sistema jurídico brasileiro. Essa especialização permite um desenvolvimento mais profundo e soluções mais eficazes.
Adicionalmente, a Enter implementou um modelo de geração de receita que combina um pagamento antecipado pela utilização da tecnologia com uma parcela variável atrelada ao desempenho. Este formato promove um alinhamento de incentivos crucial: a empresa é remunerada não apenas pelo acesso à sua tecnologia, mas também pelos resultados efetivos que entrega na resolução de litígios. Ao criar valor por meio da IA para problemas contenciosos e capturar valor através do acesso à tecnologia e entregas baseadas em resultados, a Enter estabelece uma lógica de negócio robusta e promissora.
Fonte: jornal.usp.br
