Ensino de Inglês Afrocentrado Desafia Modelo Padrão e Colonialidade na Educação do Idioma, Revela Pesquisa Inovadora da USP

Ensino de Inglês Afrocentrado Desafia Modelo Padrão e Colonialidade na Educação do Idioma, Revela Pesquisa Inovadora da USP

Dissertação de mestrado da USP explora a interseção entre raça, linguagem e colonialidade para propor uma pedagogia mais inclusiva e relevante, questionando narrativas eurocêntricas.

Em um cenário educacional onde o ensino de inglês frequentemente privilegia narrativas brancas e eurocêntricas, a pesquisadora Beatriz Rodrigues Lima, em sua dissertação de mestrado na Faculdade de Educação (FE) da USP, propõe uma abordagem transformadora: o ensino do idioma a partir de uma perspectiva racial. Intitulada ‘Pode a subalterna speak English? Escrevivências com professoras de inglês negras’, a pesquisa utiliza conceitos como o ensino afrorreferenciado e a ‘escrevivência’ da autora Conceição Evaristo para desafiar o modelo padrão e suas implicações de desigualdade.

Beatriz Lima aponta que a língua inglesa se tornou um marcador de desigualdade no Brasil, funcionando como um capital simbólico. O acesso à fluência está intrinsecamente ligado a condições socioeconômicas, favorecendo classes médias e altas, majoritariamente brancas, que podem investir em cursos privados e intercâmbios. Em contrapartida, estudantes negros e periféricos frequentemente enfrentam um ensino precário nas escolas públicas.

“O meu desejo com a pesquisa, com o ensino afrorreferenciado, era que tivesse pessoas que fossem fazer letras, não por causa de Harry Potter, mas porque aprenderam inglês de uma forma afrocentrada, de uma forma que elas se sentiram à vontade e entenderam que o inglês era para elas também, mesmo sendo pessoas periféricas, sendo uma pessoa negra”, afirma a pesquisadora.

A jornada de Beatriz, formada em Letras-Inglês pela FFLCH-USP e com experiência em intercâmbio na Nova Zelândia, levou-a a questionar o propósito do ensino tradicional. Um ano de reflexões, marcado por eventos como o assassinato de Marielle Franco e a perda de sua mãe em 2018, impulsionou-a a buscar um sentido maior na educação. “Dar aula de inglês para pessoas com muito dinheiro, que precisam ter o inglês para elas continuarem mandando nas outras que têm menos dinheiro?”, indagou, revelando sua angústia com a “engrenagenzinha do capitalismo”.

A Descoberta do Ensino Afrorreferenciado

Esse questionamento a motivou a buscar projetos voluntários, onde se deparou com a dissonância entre o material didático, “totalmente branco e europeu”, e a realidade de seus alunos. Um exemplo claro era o vocabulário sobre o inverno do Norte Global ensinado a estudantes que, em uma sala de aula na periferia, “estavam morrendo de calor”.

A virada veio em 2018, quando Beatriz conheceu a Odara English School, fundada por Ryane Leão, que propunha o ensino de inglês com foco em conteúdos afrorreferenciados. Essa abordagem, que se tornaria o cerne de sua pesquisa de mestrado, busca dialogar com a realidade dos alunos, fugindo dos materiais didáticos que criam um estereótipo do “sonho americano”.

Para Beatriz, o ensino afrorreferenciado vai além de simplesmente trocar ilustrações em livros didáticos. “Isso acaba tendo só uma representatividade vazia”, diz ela. A prática consiste em conectar-se com os alunos e trazer elementos da história africana e afro-brasileira. “Eu posso fazer uma aula sobre a história do samba, eu posso falar sobre as mulheres negras do samba, em inglês”, exemplifica, destacando o trabalho adicional necessário para criar esses materiais.

Escrevivência como Metodologia Decolonial

Um desafio adicional na pesquisa foi encontrar metodologias decoloniais. A oportunidade surgiu em 2023, quando Beatriz cursou uma disciplina ministrada por Conceição Evaristo na Cátedra Olavo Setubal do IEA-USP. A partir daí, a pesquisadora adotou a ‘escrevivência’ como metodologia para sua dissertação.

O conceito de escrevivência, em sua aplicação, significa “olhar para aquela pessoa que está ali compartilhando a história de vida dela comigo. Então, eu trago o relato da pessoa, um trecho ali da entrevista, e eu entrelaço isso com a minha própria história”. A escolha de Conceição Evaristo como referência é vista por Beatriz como um “ato político”, por ser uma voz que foge do perfil comum da academia.

Ressignificando o Ensino e a Insegurança Linguística

Beatriz entrevistou 11 professoras de inglês, selecionando quatro para a versão final da pesquisa, abordando suas vidas pessoal, acadêmica e profissional, e suas experiências com o aprendizado e ensino do idioma. Um padrão notável foi a “insegurança linguística”, um termo da linguista Lourdes Ortega, que descreve a sensação de inadequação ao falar ou escrever em inglês, comum entre as entrevistadas.

Apesar disso, as professoras entrevistadas ressignificam o ensino de inglês em seus contextos, seja oferecendo turmas com valor social ou integrando elementos da cultura afro-brasileira, como as letras dos Racionais MC’s, em debates em inglês na sala de aula. Essa pesquisa demonstra o potencial de uma educação linguística que se conecta com a identidade e a realidade dos estudantes, promovendo um aprendizado mais significativo e equitativo.

Fonte: jornal.usp.br

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