Vivemos um momento de intensa mobilização social, onde o ativismo e o posicionamento por causas parecem atingir picos históricos. Contudo, por trás dessa efervescência, esconde-se um paradoxo preocupante: a fragilização crescente das instituições que deveriam operacionalizar e sustentar essas transformações. Segundo Fábio Frezatti, professor da Faculdade de Economia, Administração, Contabilidade e Atuária (FEA) da USP, há um descompasso entre o engajamento com as causas e o compromisso com as organizações responsáveis por convertê-las em resultados.
Engajamento Real vs. a Mera Participação
É fundamental distinguir “engajamento” de “participação”. Estar presente em um evento ou manifestar apoio pontual é participar. Engajar-se, por outro lado, é um compromisso de longo prazo que envolve intensidade, continuidade e vínculo com a causa e, crucialmente, com a organização que a representa. Implica em responsabilidade compartilhada, indo além da adesão momentânea e buscando a perenidade e o desempenho da iniciativa. No entanto, o debate público frequentemente foca apenas na adesão a causas ou marcas, negligenciando o suporte essencial às instituições.
A Migração do Foco: Das Instituições para as Causas
O cenário atual revela uma clara migração do engajamento das instituições para causas específicas. As causas são intrinsecamente mais atraentes: são mais simples de comunicar, mobilizam rapidamente e oferecem visibilidade social. O custo do compromisso é menor para o indivíduo, que pode ajustar ou abandonar sua adesão sem grandes cobranças, desfrutando de uma sensação de liberdade. Já as instituições, com suas restrições legais, políticas e operacionais, respondem de forma mais lenta e complexa, o que contraria o imediatismo tão valorizado hoje. Este deslocamento, embora amplifique a mobilização, paradoxalmente enfraquece o vínculo institucional, transformando as organizações em meros instrumentos temporários, e não em estruturas a serem preservadas e fortalecidas para o futuro.
O Declínio Silencioso: A Fragilização Institucional
Essa dinâmica gera um fenômeno perigoso: o declínio silencioso das organizações. Frezatti utiliza uma metáfora impactante: após uma tempestade, árvores caem, parecendo um evento súbito. Mas, ao olhar mais de perto, percebe-se que muitas já estavam comprometidas internamente, sem que ninguém agisse. Com as instituições, o processo é semelhante. Crises externas frequentemente apenas expõem fragilidades preexistentes, aprofundadas pela ausência de engajamento consistente. Sem esse suporte vital, a organização pode continuar existindo formalmente, mas perde sua vitalidade, legitimidade e, mais importante, sua capacidade de reação e adaptação, tornando-se incapaz de efetivar as mudanças que a sociedade tanto anseia.
O Engajamento Consciente: O Caminho para a Transformação Real
Para reverter esse quadro, é urgente promover o que Frezatti denomina “engajamento consciente”. Isso significa reconhecer as instituições não apenas como arenas de disputa, mas como instrumentos legítimos e indispensáveis para a transformação social. O engajamento consciente exige clareza sobre o valor público que as organizações geram, uma conexão tangível entre a participação individual e os efeitos reais produzidos, e uma coerência inabalável entre o discurso e a prática, o que se traduz em uma accountability substantiva. Transparência sem engajamento vira mera burocracia; engajamento sem prestação de contas efetiva se torna ativismo sem direção.
Em suma, causas inspiram e mobilizam, mas são as instituições que as executam e as concretizam. Sem um engajamento institucional robusto, as causas correm o risco de permanecerem apenas no discurso, enquanto as organizações responsáveis por implementá-las se fragilizam até a “morte, lenta e não anunciada”, como as árvores da rua do professor. A questão central que se impõe, portanto, é: nosso engajamento se limita às causas, ou se estende às organizações que as tornam realidade e transformam verdadeiramente a sociedade?
Fonte: jornal.usp.br
