Ameaça à Liberdade de Imprensa: Pesquisa da USP Explica Por Que Jornalistas Enfrentam o Pior Cenário em 25 Anos e o Impacto na Saúde Mental no Brasil e América do Sul

Ameaça à Liberdade de Imprensa: Pesquisa da USP Explica Por Que Jornalistas Enfrentam o Pior Cenário em 25 Anos e o Impacto na Saúde Mental no Brasil e América do Sul

Estudo aponta que a violência contra jornalistas é um ‘método’ sistemático, com picos em governos de Bolsonaro e Milei, e ressalta a negligência com a segurança psicológica dos profissionais da comunicação.

O cenário da liberdade de imprensa atingiu seu ponto mais crítico em 25 anos, conforme revelado por rankings globais. Para pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP), essa deterioração não é uma coincidência, mas sim um ‘método’ sistemático de violência contra jornalistas, que se manifesta de diversas formas e impacta profundamente a profissão.

A Metodologia da Violência Contra Jornalistas

Um estudo recente, ‘Violência contra jornalistas na América do Sul: Argentina e Brasil (2008 a 2024)’, conduzido pelas professoras Daniela Osvald Ramos (ECA-USP), Liziane Guazina (UnB) e Érica Batista (IDP e INCT-DSI), investigou a evolução da violência contra profissionais da imprensa. A pesquisa identificou picos alarmantes durante a pré-campanha de Javier Milei à presidência da Argentina e no ano de eleição de Jair Bolsonaro no Brasil, além dos anos subsequentes de seu mandato, quando estatísticas de agressões atingiram níveis inéditos.

De acordo com a professora Daniela Osvald Ramos, a melhora do Brasil no ranking da Repórteres Sem Fronteiras (RSF) neste ano deve-se, em parte, à ausência da maior autoridade política do país emitindo discursos estigmatizantes contra a imprensa. Essa prática, embora sistematizada no primeiro mandato de Donald Trump e replicada por seus entusiastas, não está restrita a um único espectro político. Governos de esquerda, como os de Néstor e Cristina Kirchner na Argentina, também foram marcados por ameaças a jornalistas. A diferença, no entanto, é que Milei direciona suas agressões a todos que praticam o jornalismo profissional, independentemente da linha editorial ou política dos veículos e profissionais.

Precarização e a Nova Dimensão da Segurança Ocupacional

Além da violência política, o jornalismo enfrenta uma tendência mundial de precarização. Pesquisas do Centro de Pesquisa Comunicação & Trabalho (CPTC), liderado pela professora Roseli Fígaro da ECA-USP, apontam para a fragilização dos vínculos formais de trabalho e das condições para o exercício da profissão. Nesse contexto, a agenda acadêmica sobre a segurança de jornalistas precisa avançar, compreendendo-a como ‘segurança ocupacional’. Essa nova abordagem abrange dimensões física, psicológica, digital e financeira, conforme a literatura recente.

A Urgência da Segurança Psicológica

A dimensão da segurança psicológica é particularmente negligenciada no Brasil. Não há disciplinas nos cursos de graduação em Jornalismo que preparem os futuros profissionais para lidar com a carga de estresse e o risco de adoecimento mental inerentes à profissão. Diante dessa lacuna, Daniela Osvald Ramos e Vitória Baldin, doutoranda do PPGCOM/ECA, iniciaram um mapeamento das pesquisas brasileiras sobre essa dimensão crucial.

Os resultados preliminares serão apresentados no artigo ‘Segurança de Jornalistas: saúde mental e trauma no contexto brasileiro’, no 35º encontro anual da Associação Nacional dos Programas de Pós-Graduação em Comunicação (Compós), em junho. Um relatório prévio, ‘Liberdade de expressão em risco: como a saúde mental de jornalistas e comunicadores entra na equação?’, já foi publicado, destacando a importância de se abordar a saúde mental no debate sobre a liberdade de expressão.

Iniciativas e o Futuro da Segurança Jornalística

Esses trabalhos são frutos de um projeto financiado pela Noruega, país que há uma década ocupa o primeiro lugar no ranking de liberdade de imprensa. Em continuidade a essa agenda, será oferecido um curso de pós-graduação, ‘Novos Paradigmas para Dimensões de Violência no Campo da Comunicação: Assédios e Ameaças aos Jornalistas e Comunicadores’, em formato condensado, no segundo semestre deste ano, ministrado pelas professoras Daniela Ramos e Elizabeth Saad. Com a melhora nos índices brasileiros nos últimos cinco anos, a questão que se impõe é: qual será o cenário para a liberdade de imprensa e a segurança dos jornalistas nos próximos cinco anos?

Fonte: jornal.usp.br

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