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"title": "Estados Unidos: O Assassinato da Memória Histórica Sob Trump e a Reescrita da Narrativa Nacional",
"subtitle": "Professor da USP alerta para escalada de censura e revisionismo em sites oficiais, universidades e museus, transformando a história crítica em motivo de orgulho nacional.",
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<p>A famosa pintura de 1871, <i>American Progress</i>, de John Gast, que por décadas serviu como ferramenta para discutir criticamente a doutrina do Destino Manifesto e o genocídio indígena nos Estados Unidos, agora é utilizada pelo Departamento de Segurança Interna (DHS) como símbolo de “um patrimônio para se orgulhar, uma pátria que vale a pena defender”. A mudança, ocorrida em 23 de julho de 2025, conforme relata Sean Purdy, professor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, é um sintoma da “guerra contra a historiografia crítica” que se intensificou sob a administração do presidente Trump.</p>
<h3>A Inversão do Significado Histórico</h3>
<p>Para Purdy, que aborda a obra em sua disciplina de História da América Contemporânea, a utilização da pintura pelo DHS representa uma inversão perigosa. O que antes era uma oportunidade para explorar a economia política e a ideologia de um país em expansão, com suas implicações de exploração e opressão, transformou-se em mera marca de orgulho nacional. Essa reinterpretação reflete um movimento maior de apagamento e reescrita da história, visando desconstruir narrativas que questionam o passado glorioso dos EUA.</p>
<h3>Ataques à Historiografia Crítica e Censura Acadêmica</h3>
<p>A ofensiva contra estudos críticos não é recente, mas ganhou força com o novo governo. A Teoria Crítica da Raça, desenvolvida para analisar o racismo estrutural, já vinha sofrendo ataques em governos estaduais, resultando em alterações curriculares e censura de materiais. Sob Trump, essa guerra se acelerou, atingindo todas as áreas do conhecimento humano. Universidades públicas e privadas sofreram cortes orçamentários massivos por ensinarem história crítica, e dezenas de professores foram demitidos por expressarem opiniões contrárias a políticas governamentais, como o genocídio na Palestina. Departamentos inteiros dedicados a estudos críticos em história, sociologia e relações raciais estão sendo abolidos em todo o país.</p>
<h3>O Apagamento de Narrativas Minoritárias</h3>
<p>A administração Trump tem sistematicamente apagado a história negra, latina e indígena de sites oficiais do governo federal, museus e parques nacionais. Matérias que exaltavam a contribuição de soldados dessas etnias foram excluídas dos sites das Forças Armadas. Estátuas de proeminentes escravistas, que haviam sido removidas, foram reinstaladas, e pelo menos nove bases militares que tiveram seus nomes alterados para remover referências a “heróis” da Confederação pró-escravista na Guerra Civil, tiveram seus nomes originais restaurados.</p>
<h3>O Perigo da Autocensura e a Defesa da Liberdade</h3>
<p>Mesmo instituições com certo grau de autonomia, como o Museu Memorial do Holocausto dos Estados Unidos, têm praticado a autocensura, removendo exibições que ligavam o racismo que levou ao Holocausto ao sistema histórico de discriminação racial nos EUA. Essas ações, que vão além do simbólico, configuram o que o historiador francês Pierre Vidal-Naquet chamou de “assassinato da memória”, em referência ao negacionismo do Holocausto. Diante desse cenário, Sean Purdy enfatiza a importância de resistir a esses ataques e defender a expressão livre e democrática nas universidades e na sociedade como um todo.</p>
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Fonte: jornal.usp.br
