Ao longo de sete décadas, o historiador Fernando Antônio Novais (1933-2026) dedicou sua vida ao ensino e à formação de sucessivas gerações de historiadores e pesquisadores universitários. Sua trajetória, iniciada na combativa Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP, estendeu-se por diversos departamentos da Universidade de São Paulo e, posteriormente, marcou a criação e o desenvolvimento da Unicamp, onde lecionou por mais duas décadas após sua aposentadoria na USP.
Novais não foi apenas um professor; ele foi um guardião do “métier” do historiador, um intelectual que se interrogava sobre as especificidades do ofício e a relevância da história para a compreensão da sociedade. Sua atuação foi decisiva na estruturação dos programas de pós-graduação tanto na USP quanto no Instituto de Economia da Unicamp, impactando profundamente o panorama acadêmico brasileiro.
O Guardião do “Métier” Historiográfico
Fernando Novais trilhou um itinerário acadêmico raro, ministrando cursos em departamentos de História, Geografia, Ciências Sociais, Filosofia e Arquitetura e Urbanismo. Desde 1974, seus cursos de pós-graduação abordavam temas como a história da colonização do Brasil e a sociedade escravista em perspectiva comparada com os Estados Unidos. A partir dos anos 1990, passou a oferecer a disciplina de História da Historiografia na Unicamp, convicto da importância dos estudos históricos para a formação de jovens economistas.
Para Novais, o grande desafio do historiador era reconstituir o passado sem incorrer em anacronismo, exigindo um conhecimento exaustivo da historiografia, um ponto de vista situado do objeto de estudo e, ao mesmo tempo, um distanciamento crítico em diálogo com as categorias analíticas das demais ciências sociais. Essas reflexões foram compiladas na coletânea “Nova História em Perspectiva”, coorganizada com Rogério F. da Silva.
Mais do que obras acadêmicas, o historiador defendia que o discurso historiográfico deveria abarcar uma plêiade de artefatos socioculturais, desde fontes arquivísticas até livros didáticos e reconstituições cinematográficas. A história da transmissão da memória histórica era um de seus temas prediletos, pois esses materiais serviam como “sinais indiciários de outras transformações econômicas e políticas em curso no tempo presente”, como observou em uma resenha de 1972.
A Crítica ao Antigo Sistema Colonial e o Brasil Independente
Um dos mais argutos intérpretes da formação histórica do Brasil, Fernando Novais aprofundou e rediscutiu as proposições de seus mestres sem servilismo intelectual. Sua obra seminal, “Portugal e Brasil na crise do Antigo Sistema Colonial 1777-1808”, originalmente uma tese defendida em 1973 e publicada em livro em 1979, é um marco na historiografia.
A pesquisa de Novais foi gestada em um contexto de repressão política, tanto no salazarismo português quanto na ditadura militar brasileira. Ele investigou nos arquivos portugueses em Lisboa e Coimbra em 1965, e o prefácio de 1978 reflete as transformações vividas, incluindo a Revolução dos Cravos em Portugal. Sua tese dialogou com historiadores portugueses críticos do autoritarismo, como Vitorino Magalhães Godinho e Joel Serrão.
No Brasil, Novais acompanhava as preocupações com o atraso econômico e a desigualdade. Já em 1957, em seu primeiro artigo acadêmico, “Colonização e desenvolvimento econômico”, ele sublinhava: “É no estudo da colonização europeia nas várias regiões da América que se devem procurar as razões básicas dos acentuados desníveis de desenvolvimento nos países latino-americanos”. Sua análise da independência do Brasil, publicada na coletânea “1822: Dimensões”, demonstrou que o processo, embora emancipatório, foi uma “revolução conservadora” que acomodou os interesses dos senhores de escravos e aprofundou as estruturas de dominação interna.
Diálogos Críticos e Influências Internacionais
Fernando Novais foi um intelectual profundamente engajado com o pensamento crítico. Membro do célebre grupo de leitura de “O Capital” de Karl Marx, ele explorou as relações de dominação e interdependência entre metrópole e colônia em artigos lapidares, como “A proibição das manufaturas no Brasil e a política econômica portuguesa do fim do século 18”.
Sua visão internacionalista o levou a ser um dos primeiros leitores brasileiros de obras de historiadores como Eric Williams (“Capitalismo e Escravidão”) e Pierre Verger (“Fluxo e Refluxo do Tráfico de Escravos”), acompanhando de perto os debates do movimento anticolonialista. Participou de seminários internacionais e foi professor visitante em universidades nos Estados Unidos, Cuba, Peru, Colômbia, México, França, Holanda e Bélgica.
Entre 1995 e 1998, Novais dirigiu o projeto editorial da “História da Vida Privada no Brasil”, uma obra coletiva em quatro volumes que teve forte impacto ao oferecer um novo repertório de fontes e análises sobre a violência cotidiana e as expressões do racismo estrutural na sociedade brasileira. O ensaio que abre a coleção, “Condições de privacidade na colônia”, demonstra as contradições e dilemas de uma sociedade atravessada pelo escravismo.
Legado Atemporal: Rigor e Transformação Social
Avesso à hiperespecialização, ao dogmatismo e aos modismos intelectuais, Fernando Novais foi um dos mais tenazes defensores da profissionalização dos historiadores na docência, na pesquisa e na extensão. Ele refletia sobre o “métier” como vocação e método, no espírito crítico de Marc Bloch.
Suas arguições em bancas de defesa eram célebres por sugerir articulações impensadas e por desferir críticas mordazes aos descuidos formais com o texto acadêmico, insistindo no rigor das citações como algo inerente ao ofício do historiador. Em tempos de desinformação e realidades pré-fabricadas, essas “dicas valem ouro”, como destaca Iris Kantor, professora da USP.
Casado com Horieta Novais (falecida em 2024), pai de Luís Fernando e Ana Lúcia, Fernando Novais deixou netas, netos, bisnetos, e uma multidão de amigos e discípulos que sentirão sua falta. Seu legado permanece vivo na forma como compreendemos a história do Brasil e na defesa intransigente de um pensamento crítico e rigoroso.
Fonte: jornal.usp.br
