Em 2023, dietas inadequadas foram responsáveis por mais de 4 milhões de mortes por cardiopatia isquêmica, uma condição grave que afeta o coração. Essa revelação alarmante vem de uma análise de 30 anos realizada em 204 países, que aponta a má alimentação como um dos fatores mais significativos e evitáveis para reverter esse quadro.
A cardiopatia isquêmica é caracterizada pelo estreitamento das artérias que fornecem sangue ao músculo cardíaco. Segundo projeções do estudo Carga Global de Doenças (GBD), esta doença continuará sendo a principal causa de morte cardiovascular no mundo, com cerca de 20 milhões de óbitos previstos até 2050. A má alimentação agrava esse cenário, contribuindo para a redução do fluxo sanguíneo nas artérias coronárias.
O trabalho, publicado na revista Nature Medicine, é parte do GBD, uma vasta colaboração internacional liderada pela Universidade de Washington. Reunindo milhares de pesquisadores, o estudo utiliza dados da literatura médica e estatísticas oficiais para criar um modelo computacional que desvenda a relação entre fatores de risco e a mortalidade por doenças cardiovasculares. Além das 4 milhões de mortes em 2023, dietas inadequadas também foram associadas à perda de quase 97 milhões de Anos de Vida Ajustados por Incapacidade (DALYs), uma medida que quantifica anos de vida “perdidos” devido a incapacitações e redução da qualidade de vida.
Os Vilões da Dieta: O Que Está Matando o Coração?
A pesquisa identificou componentes dietéticos específicos que elevam o risco de cardiopatia isquêmica. Dietas com alto teor de sódio e o baixo consumo de nozes, sementes, grãos integrais e frutas foram fortemente associados a uma maior carga de mortes. A baixa presença de ácidos graxos poli-insaturados ômega-6 – essenciais para a saúde celular, produção de energia e resposta imune – também foi um fator relevante.
Itamar de Souza Santos, professor do Departamento de Clínica Médica da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP) e um dos autores do artigo, explica que os fatores de risco para doenças cardiovasculares geralmente incluem “dietas pobres em frutas, vegetais, em nozes, sementes e com muito sal e açúcar adicionado”. Ele ressalta que um “perfil comum a todas essas dietas é o alto consumo de ultraprocessados”, alimentos que o estudo da Carga Global de Doenças também tem associado à incidência de câncer em outras publicações.
Disparidades Globais: Quem Mais Sofre com a Má Alimentação?
A análise regionalizada da pesquisa revelou um aumento no número absoluto de casos da doença relacionados à dieta, embora as taxas por idade tenham diminuído 44% a cada 100 mil habitantes, sugerindo melhorias gerais na saúde e crescimento populacional. Contudo, as diferenças entre regiões e grupos populacionais são marcantes, com a carga da doença sendo particularmente acentuada em países com índices sociodemográficos baixos e médios.
Regiões como a Australásia, Europa Ocidental e América do Norte apresentaram as maiores reduções nas mortes por cardiopatia isquêmica atribuíveis à dieta desde 1990. Em contraste, a África Subsaariana Central registrou um aumento de 21% no mesmo período. “A maior parte dessas variações segue a lógica econômica, e a maioria relacionada à renda”, afirma Itamar Santos, destacando como o poder aquisitivo influencia desde o acesso a alimentos saudáveis até o tratamento e a mortalidade.
Homens e idosos com mais de 65 anos foram os grupos com as maiores taxas de mortalidade. O impacto das bebidas açucaradas na mortalidade disparou na Ásia Oriental (361%) e na África Subsaariana Ocidental (332%), enquanto a carga de mortes ligadas às carnes processadas aumentou na Ásia Oriental (84%) e no Sudeste Asiático (48%). Em geral, países em desenvolvimento enfrentam o fardo da desnutrição e do acesso limitado a alimentos protetores (como grãos integrais, frutas e vegetais), enquanto nações desenvolvidas são mais afetadas pelo consumo excessivo de ultraprocessados, carnes processadas e bebidas açucaradas.
O Cenário Brasileiro e o Caminho para a Mudança
O Brasil, com sua robusta quantidade de dados, como os coletados pelo Estudo Longitudinal de Saúde do Adulto (Elsa-Brasil), possui um cenário favorável para análises científicas. Contudo, para combater a má alimentação, ainda é crucial investir no letramento em saúde da população.
Para o professor Itamar Santos, “essa é uma questão sensível a medidas de políticas públicas, que obriguem uma redução de alguns componentes, ou avise muito claramente o consumidor sobre o que existe dentro daquele alimento”. Ele observa que, embora o Brasil tenha avançado nas últimas décadas, ainda é fundamental capacitar as pessoas para fazerem escolhas alimentares mais conscientes e informadas.
A pesquisa completa, intitulada “Global, regional and national burden of ischemic heart disease attributable to suboptimal diet, 1990–2023: a Global Burden of Disease study”, está disponível online, oferecendo um panorama detalhado e fundamental para a formulação de estratégias de saúde pública em todo o mundo.
Fonte: jornal.usp.br
