Guerra no Oriente Médio Eleva Preços de Fertilizantes no Brasil: Entenda Por Que Importações Não Foram Afetadas Imediatamente e Quais os Riscos Futuros

A escalada de um novo conflito no Oriente Médio, envolvendo Estados Unidos e Israel contra o Irã, soma-se à guerra na Ucrânia e Rússia, gerando instabilidade geopolítica global e levantando preocupações sobre o abastecimento mundial de alimentos. A Rússia, um dos maiores produtores de fertilizantes, já anunciou a suspensão de vendas por um mês para priorizar seus agricultores, enquanto o Estreito de Ormuz, controlado pelos iranianos, crucial para um terço do comércio global de fertilizantes e 20% do petróleo, vê-se em risco.

Para o Brasil, no entanto, o cenário ainda é de relativa estabilidade no que tange ao fluxo de importações. Segundo o professor Paulo Sérgio Pavinato, da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq) da USP, a chegada de fertilizantes provenientes do Oriente Médio não foi afetada até o momento. Contudo, o impacto já se faz sentir nos preços, com a ureia, por exemplo, registrando um aumento de quase US$ 300 por tonelada.

Impacto Imediato nos Custos, Não no Abastecimento

A elevação nos preços dos fertilizantes é uma preocupação imediata para a agricultura brasileira. Pavinato alerta que esses custos mais altos certamente afetarão o uso de insumos, em um país que importa mais de 80% dos fertilizantes consumidos. A dependência é ainda maior para o nitrogênio (95%), potássio e fosfato (cerca de 70%). Essa situação pode ameaçar o suprimento para demandas futuras.

Apesar do cenário global tenso, o Brasil conta com uma vantagem temporária: a agricultura está em período de entressafra, o que significa uma demanda por fertilizantes não tão grande. No entanto, a situação pode se agravar a partir do segundo semestre, com o início da nova safra. O professor ressalta que, além do efeito direto dos fertilizantes na economia, o preço dos combustíveis tem um impacto indireto, elevando o custo do transporte de produtos agrícolas e, consequentemente, dos alimentos.

Ameaça à Segurança Alimentar e Dependência Externa

A longo prazo, o Brasil busca reduzir sua vulnerabilidade com o Plano Nacional de Fertilizantes, que visa desenvolver a produção nacional. A expectativa é que, até 2050, o país possa produzir 50% de sua demanda. Contudo, a autossuficiência completa é um desafio, devido à escassez de reservas de fosfato e potássio, e aos altos custos de energia para a produção de hidrogenados. A importação, portanto, continuará sendo essencial.

A importância dos fosfatados vai além da agricultura, sendo cruciais na produção de baterias elétricas para veículos e na conservação de alimentos processados. Esse uso diversificado pode, no futuro, intensificar a dependência nacional em relação a outros países produtores.

Exportações Brasileiras Mantêm Resiliência

Uma boa notícia em meio a esse panorama é que as exportações brasileiras de alimentos não devem sofrer grandes prejuízos em decorrência do conflito no Oriente Médio. A região representa apenas uma parcela das vendas externas do Brasil, o que confere certa resiliência ao setor de agronegócio do país nesse aspecto.

Fonte: jornal.usp.br

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