Cuidar da alimentação é um pilar essencial para a qualidade de vida, especialmente para mulheres em tratamento contra o câncer de mama. Pensando nisso, a Universidade de São Paulo (USP), através de sua Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP), lançou um projeto inovador que oferece orientação nutricional e apoio emocional, transformando a jornada de pacientes oncológicas.
Alterações no paladar, perda de apetite e dificuldades para se alimentar são sintomas frequentes que afetam profundamente o estado nutricional e o bem-estar emocional de pacientes com câncer de mama. Para enfrentar esse cenário, alunos da Liga Acadêmica do Comportamento Alimentar, em conjunto com professoras do Departamento de Nutrição e Metabolismo da FMRP/USP, criaram o projeto extensionista ‘Ressignificando a alimentação durante o tratamento do câncer de mama’.
A iniciativa tem como objetivo principal promover cuidado nutricional e acolhimento para pacientes do Projeto Amigos Contra o Câncer (PACC), uma associação não governamental de Ribeirão Preto que, desde 2015, oferece atendimento multidisciplinar gratuito a pacientes oncológicos em situação de vulnerabilidade social. O PACC se mantém por meio de doações e voluntariado, fornecendo suporte assistencial, medicamentos, cestas básicas e suplementos, o que gerou a conexão natural com a proposta da FMRP.
Acolhimento e Formação Integral
Coordenado pelas professoras Camila Cremonezi Japur e Maria Fernanda Laus, da FMRP, o projeto nasceu da necessidade de compreender os desafios e as vivências que o câncer de mama impõe às pacientes. ‘O projeto não apenas partiu do desejo dos alunos de levarem uma alimentação adequada, mas também de entender suas vivências e angústias relacionadas ao câncer de mama’, explica Camila Japur.
A proposta de levar conhecimento para além do ambiente acadêmico mobilizou os estudantes a construírem um espaço de diálogo e escuta ativa. A parceria com o PACC foi crucial, permitindo um cuidado ampliado que engloba aspectos sociais, emocionais e nutricionais, garantindo uma abordagem mais completa e humanizada.
Oficinas Culinárias e Educação Transformadora
Além da atenção às fragilidades humanas, o projeto promoveu atividades interativas valiosas com as pacientes. Foram realizadas rodas de conversa que abordaram a complexa relação entre autoimagem e comportamento alimentar, oferecendo um espaço seguro para o esclarecimento de dúvidas e a desmistificação de mitos comuns sobre a alimentação durante o tratamento. Complementando o aprendizado, foram distribuídos materiais informativos e, como um dos pontos altos, uma oficina culinária no laboratório de técnica e dietética da USP. Ali, as participantes aprenderam a preparar pratos nutritivos, acessíveis, práticos e saborosos, pensados para o seu bem-estar.
A educação foi um dos eixos centrais da iniciativa, culminando na criação do e-book educativo gratuito ‘Suplementos alimentares para pessoas em tratamento de câncer: estratégias para comer e sentir-se bem’. Pensado para a vivência das pacientes, o material reúne receitas caseiras acessíveis e foi utilizado nas oficinas, com o objetivo de fortalecer a autonomia culinária por meio de um ensino prático e de fácil acesso. As participantes aprenderam técnicas básicas de higienização dos alimentos e preparações simples, como escondidinho de carne moída com mandioca, flan de banana, bolinho de mandioca com frango e legumes, e sorvete de manga e maracujá, todas adaptadas às suas condições clínicas.
Mais do que apenas receitas, a experiência na cozinha teve um impacto emocional profundo. ‘Cozinhar com as participantes despertou memórias afetivas e contribuiu para reconstruir uma relação mais segura e acolhedora com a comida’, relata a professora Maria Fernanda Laus, destacando o valor terapêutico da culinária.
Impacto nas Vidas e Desafios Superados
Ao todo, cerca de 11 mulheres foram atendidas pela iniciativa, respondendo com entusiasmo à proposta. Maria do Carmo Coelho de Paula, uma das pacientes, descreveu sua participação como marcante. ‘Durante a minha vivência no projeto, recebi muitas orientações sobre alimentação saudável. Eles também esclareceram minhas dúvidas e acalmaram meu coração em relação à alimentação no tratamento’, afirma, expressando gratidão pelas oficinas culinárias e a cartilha de receitas recebida.
Apesar da boa aceitação, o projeto enfrentou desafios, principalmente com informações contraditórias sobre alimentação. ‘Muitas pacientes perguntavam se o açúcar alimenta o câncer ou se deveriam cortar massas e carnes. Sempre buscamos trazer respostas baseadas na ciência’, pontua Camila Japur, destacando o esforço em desmistificar crenças enraizadas e promover uma abordagem baseada em evidências.
Perspectivas Futuras e Solidariedade
Os resultados positivos impulsionam a continuidade da iniciativa. As professoras já articulam uma nova oferta para o segundo semestre de 2026, com foco maior em atividades práticas, ampliando o número de oficinas culinárias e aprofundando as discussões sobre crenças alimentares.
Além do ensino, o projeto promoveu uma campanha de arrecadação de alimentos para o PACC, integrando a formação acadêmica à responsabilidade social. A ação, realizada durante uma oficina de prevenção em distúrbios de imagem corporal e transtornos alimentares, será repetida em 2026. Interessados podem participar das oficinas durante o período da campanha ou entrar em contato com o Projeto Amigos Contra o Câncer para conhecer outras formas de doação e apoio a essa causa vital.
Fonte: jornal.usp.br
