Oyèrónkẹ́ Oyěwùmí na USP: Socióloga Nigeriana Desafia Gênero Ocidental e Políticas de Trump em Debate Sobre Decolonialidade e Cultura Yorùbá
Autora de ‘A Invenção das Mulheres’ discute como a linguagem molda a liberdade ou a opressão e encontra no Brasil um campo fértil para a compreensão de sua obra.
A Universidade de São Paulo (USP) recebeu na última sexta-feira, 13, a renomada professora e socióloga nigeriana Oyèrónkẹ́ Oyěwùmí, autora do influente livro ‘A Invenção das Mulheres’. Convidada pelo professor Tiganá Santana, Oyèrónkẹ́ visitou o Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) para uma profunda reflexão sobre a decolonialidade, o gênero e o impacto das políticas contemporâneas, como as promovidas por Donald Trump.
De origem iorubá, a socióloga dedica-se há décadas ao estudo dos sistemas de gênero africanos, criticando veementemente a forma como o Ocidente interpretou essas estruturas sociais, sempre enfatizando o papel crucial da linguagem. Durante sua visita, Oyèrónkẹ́ expressou um sentimento de ‘estranhamento e reconhecimento’ em relação ao Brasil, revelando que seu trabalho é mais lido e compreendido aqui do que em sua própria Nigéria. ‘O professor Tiganá quis me trazer aqui para conhecer pessoas que estão lendo meu trabalho, é uma honra estar em um lugar onde as pessoas o apreciam’, afirmou.
A Crítica de Oyèrónkẹ́ ao Gênero Ocidental e a Força da Linguagem
‘A Invenção das Mulheres’, que completará três décadas no próximo ano, é mais do que um livro para Oyèrónkẹ́; é uma entidade que a transformou. ‘O livro me escreveu. Era uma ‘eu’ diferente que redigiu aquelas páginas’, recorda. A obra desafia o cânone ocidental, exemplificado pelo historiador Samuel Johnson e sua ‘History of the Yorubas’, considerada a ‘bíblia’ do povo Iorubá. Oyèrónkẹ́ desmonta a visão de Johnson, apontando como ele, ‘profundamente ocidentalizado’, traduziu erroneamente a história monárquica do Império Oyo ao atribuir gênero masculino a nomes que, em iorubá, são semanticamente neutros. Essa análise ressalta como a linguagem pode ser uma ferramenta de opressão ou um caminho para a liberdade.
Yorùbá e a Rejeição ao Binarismo Ocidental
A discussão ganha urgência ao ser contrastada com o cenário político atual nos Estados Unidos. Enquanto figuras como Donald Trump promovem políticas estritas de ‘homem e mulher’, baseadas em um determinismo biológico rígido, Oyèrónkẹ́ apresenta a cultura iorubá como ‘alérgica’ a essa categorização. A pesquisadora enfatiza que a centralidade do corpo nas categorias sociais ocidentais é uma obsessão que não encontra eco na cosmologia iorubá original. Ela citou o exemplo da Bíblia Iorubá: onde o inglês e o português leem ‘Filho de Deus’ ou ‘Filho do Homem’, o Iorubá original traduz como ‘Criança’ (‘Ọmọ’), um termo sem marcação de gênero que preserva a essência da divindade acima das divisões sexuais. Para Oyèrónkẹ́, as políticas de Trump ‘são a face contemporânea de um projeto colonial que insiste em visualizar o mundo através da genitália, ignorando epistemologias onde a senioridade e o parentesco precedem o sexo’.
Conexões Decoloniais e o Brasil como Campo de Pesquisa
A visita de Oyèrónkẹ́ ao Brasil, assim como seu retorno a Lagos, faz parte de um mesmo movimento de descolonização. Ela expressou grande admiração pelo acervo de Mário de Andrade no IEB, destacando o esforço de preservação e a familiaridade com figuras associadas a Xangô. A socióloga manifestou o desejo de realizar pesquisas no Brasil, conectando-as ao seu trabalho sobre a África, dada a forte presença da cultura espiritual iorubá no país. ‘Na cultura espiritual iorubá que vejo aqui, eu vejo muito da minha cultura, e acho que é importante fazer essas conexões’, declarou.
Diálogo com Pesquisas Brasileiras e o Futuro dos Estudos decoloniais
A programação da visita incluiu um encontro com o Grupo de Estudos de História Econômica e Social da Mulher no Brasil (GEHESMB), coordenado pela professora Luciana Suarez Galvão. O grupo, que reúne mais de 50 participantes, foca na intersecção entre raça, classe e gênero, temas centrais nos estudos decoloniais feministas. Maria Eduarda Martins Mendes Cordeiro, mestranda e integrante do grupo, ressaltou a relevância desses estudos para a academia brasileira. Em um mundo que insiste em fechar as fronteiras do que significa ser humano através de binarismos políticos e biológicos, ‘A Invenção das Mulheres’ continua sendo um convite urgente à desaprendizagem.
Fonte: jornal.usp.br
