USP Alerta: Urbanização em Ribeirão Preto Ameaça Coruja-Buraqueira, Essencial no Controle de Pragas; População é Convocada para Proteger Ninhos

O avanço desordenado da urbanização sobre áreas rurais e periurbanas no Brasil tem gerado sérios desafios para a conservação da fauna, especialmente em regiões de transição entre Cerrado e Mata Atlântica. Em Ribeirão Preto, a coruja-buraqueira (Athene cunicularia), frequentemente vista como adaptada ao ambiente urbano, está sob ameaça, o que levou pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) a lançarem um apelo à participação social para sua proteção.

A iniciativa, liderada pelo Laboratório de Etologia e Bioacústica (Ebac) da FFCLRP, monitora ninhos em Ribeirão Preto e Bonfim Paulista, com foco especial no Parque Olhos d’Água, onde a expansão urbana é acelerada. O objetivo é sensibilizar a população sobre a importância da espécie e os riscos que ela enfrenta, apesar de sua aparente resiliência.

O Alerta da Urbanização e o Declínio Silencioso

A percepção de que a coruja-buraqueira é bem-adaptada ao ambiente urbano pode ser enganosa. Historicamente, a espécie já apresentou declínio e até extinção em áreas urbanas consolidadas da América do Norte, um cenário que resultou em políticas de recuperação no Canadá. Esse histórico serve como um aviso crucial, pois a visibilidade da coruja não garante a estabilidade de sua população, podendo mascarar impactos negativos da expansão urbana.

A professora Patrícia Ferreira Monticelli, coordenadora do Ebac, explica que, embora a coruja-buraqueira possua plasticidade fenotípica – a capacidade de ajustar comportamento, fisiologia ou morfologia em resposta ao ambiente – existem limites. “Não há plasticidade que vença a frequência com a qual tocas são soterradas pela construção e não se conhece a possibilidade de criar resistência à contaminação por pesticidas”, alerta. O doutorando Mauro Monteiro Cazentine complementa que a espécie altera horários de atividade e dieta em ambientes urbanos, mas essas adaptações não impedem o declínio quando a mortalidade supera a capacidade reprodutiva.

Ameaças Invisíveis e o Papel Essencial da Coruja

Uma das maiores ameaças, e muitas vezes invisível, é o soterramento de ninhos durante obras civis. Terrenos licenciados podem ficar desocupados por anos, sendo então colonizados pelas corujas. Quando as construções começam, sem uma nova triagem ambiental, as tocas são interpretadas como abandonadas. “Chega o trator, mexe em toda aquela terra, os filhotes vão ser soterrados vivos e ninguém fica sabendo que animais foram mortos ali por causa dessa falta de informação”, ressalta Patrícia Monticelli.

Além do soterramento, a espécie enfrenta atropelamentos, perda de áreas de forrageamento, aumento da predação por animais domésticos (cães e gatos) e silvestres (gambás e teiús), e até mortes associadas a crenças culturais. Contudo, a coruja-buraqueira presta um serviço ecossistêmico vital: o controle de pragas urbanas, alimentando-se de baratas, escorpiões, ratos e camundongos. Sua presença em áreas urbanas representa um benefício para o controle biológico natural, destacam os pesquisadores.

Como a População Pode Ajudar na Proteção

Diante desse cenário, a participação social é um pilar central do projeto. Cazentine explica que a população pode colaborar ativamente indicando a localização de tocas por meio de um formulário on-line divulgado nas redes sociais do grupo de pesquisa. A professora Monticelli enfatiza a importância de retomar placas informativas em áreas de ocorrência e a necessidade de uma colaboração entre a população e o poder público para monitorar e comunicar perturbações às autoridades ambientais.

Os pesquisadores lembram que perturbar, capturar ou causar danos à fauna silvestre é crime ambiental, sujeito a punição. A proteção das tocas da coruja-buraqueira, que pode ser equiparada à proteção já existente para árvores ameaçadas, é fundamental para a coexistência entre sociedade e fauna silvestre em paisagens urbanizadas.

Ciência a Serviço da Conservação

Para embasar as ações de sensibilização, o Ebac utiliza uma abordagem científica robusta. Com a colaboração da ornitóloga Ana Carla Aquino, a análise de isótopos estáveis de carbono e nitrogênio permite identificar a dieta das corujas, distinguindo presas urbanas, agrícolas e naturais, e avaliando as mudanças tróficas causadas pela urbanização. O monitoramento bioacústico, por sua vez, analisa as vocalizações da espécie, que indicam defesa territorial, contato entre parceiros, alerta sobre predadores e a presença de filhotes, fornecendo dados sobre reprodução ativa e níveis de estresse populacional. A produtividade reprodutiva e a diversidade genética são parâmetros centrais do estudo, alertando que a fragmentação urbana pode levar à consanguinidade e tornar a espécie mais vulnerável a doenças e mudanças climáticas.

Fonte: jornal.usp.br

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