terça-feira, março 10, 2026
teste
Google search engine
HomeUltimas NotíciasDa Tragédia de Gaza à Islamofobia no Brasil: Por Que o Feminismo...

Da Tragédia de Gaza à Islamofobia no Brasil: Por Que o Feminismo Precisa Ouvir as Mulheres Muçulmanas e Suas Lutas Decoloniais

Da Tragédia de Gaza à Islamofobia no Brasil: Por Que o Feminismo Precisa Ouvir as Mulheres Muçulmanas e Suas Lutas Decoloniais

A análise da professora Francirosy Campos Barbosa, da USP, expõe como a violência de conflitos, a narrativa ocidental de ‘salvação’ e o preconceito racializado silenciam a complexidade e a agência feminina, exigindo uma redefinição urgente da solidariedade global.

A recente exibição do documentário “A Voz de Hind Rajab” (2024) trouxe à tona a cruel realidade da guerra em Gaza através dos últimos momentos de uma menina palestina de cinco anos. Presa em meio aos bombardeios, Hind ligou pedindo socorro, cercada pelos corpos de sua família. Sua voz infantil, carregada de uma lucidez devastadora ao afirmar que seus parentes estavam “mortos”, ecoa como um grito silencioso que se recusa a ser esquecido. A experiência de assistir ao filme, conforme relatado pela professora Francirosy Campos Barbosa da USP, é um lembrete doloroso de quantas histórias semelhantes permanecem invisíveis e desumanizadas.

O Peso da Guerra e a Seletividade da Compaixão

A escalada da violência no Oriente Médio, ou Ásia Ocidental, intensificou uma catástrofe humanitária que atinge diretamente a população civil. Episódios como o ataque a uma escola de meninas em Minab, no Irã, que deixou mais de 165 vítimas, demonstram como crianças e mulheres são as maiores pagadoras das disputas geopolíticas. As ações de Estados como Estados Unidos e Israel, frequentemente criticadas por intensificarem a violência, contribuem para um cenário onde o sofrimento de palestinos e outras populações da região raramente mobiliza a mesma comoção internacional.

Essa “comoção seletiva” resulta na desumanização, onde vidas são reduzidas a números ou “danos colaterais”. A proteção de civis, mulheres e crianças deveria ser prioritária nas agendas internacionais de direitos humanos, mas o que se vê são deslocamentos forçados, fome, destruição de lares, colapso de sistemas de saúde – incluindo a saúde materna – violência sexual e a perda de redes comunitárias essenciais para a sobrevivência.

O Feminismo Ocidental e o Mito da Mulher Muçulmana a Ser ‘Salva’

Dentro do feminismo global, um debate crucial emerge: por que a situação das mulheres muçulmanas aparece tão raramente nas agendas de solidariedade internacional? E, quando aparece, por que é frequentemente enquadrada na narrativa de que essas mulheres precisam ser “salvas”? Intelectuais como Lila Abu-Lughod e Saba Mahmood já criticaram duramente essa lógica. A ideia de que mulheres muçulmanas precisam ser resgatadas pelo Ocidente revela mais sobre as ansiedades políticas e culturais ocidentais do que sobre a realidade dessas mulheres.

No imaginário de parte do feminismo branco ocidental, mulheres muçulmanas são frequentemente representadas como vítimas passivas, incapazes de agir ou decidir por si mesmas. Essa narrativa, porém, não representa solidariedade; ela reproduz uma missão civilizatória contemporânea, profundamente marcada por heranças coloniais. Essa lógica de “salvamento” reduz experiências complexas a uma imagem única, geralmente associada ao uso do véu islâmico, ignorando a diversidade de contextos que atravessam a vida dessas mulheres: diferenças de classe, raça, país, regimes políticos, guerra, migração e ocupação militar.

A comoção seletiva se manifesta quando certas violências provocam indignação por se assemelharem a experiências ocidentais, enquanto outras são ignoradas ou consideradas “complexas demais”, especialmente quando exigem questionar políticas internacionais ou alianças militares. A necessidade de verificar fontes é fundamental; ao analisar, por exemplo, supostos novos códigos do Talibã, a busca por documentos primários é um princípio básico de rigor acadêmico e responsabilidade no debate público, evitando a disseminação de interpretações sem base direta.

Islamofobia como Racialização e a Realidade no Brasil

A islamofobia não pode ser vista apenas como intolerância religiosa; na prática, ela funciona como um processo de racialização. Pessoas são identificadas como muçulmanas por marcadores como aparência, nome, origem ou vestimenta, e sobre seus corpos são projetados estereótipos que associam o Islã ao atraso, à violência ou à misoginia. Essa lógica cria uma imagem homogênea e desumanizante.

No caso das mulheres, essa dinâmica é ainda mais evidente através da hijabfobia, a hostilidade direcionada especificamente a mulheres que usam o véu. O hijab torna-se um marcador visível que atrai discursos racistas, xenofóbicos e islamofóbicos. No Brasil, dois episódios de violência contra mulheres muçulmanas ganharam repercussão em 2026: uma agressão verbal em um supermercado em São Paulo e um ataque físico em um shopping em Foz do Iguaçu, onde o lenço de uma das vítimas foi arrancado. Casos como esses estão sendo registrados no 3º Relatório de Islamofobia no Brasil, produzido pelo Gracias – Grupo de Antropologia em Contextos Islâmicos e Árabes.

Reconhecer essa realidade é crucial também para o movimento feminista. Não basta defender abstratamente a liberdade religiosa; é preciso enfrentar estruturas concretas de exclusão, como discriminação no mercado de trabalho, exclusão educacional, vigilância estatal e políticas que restringem o direito de mulheres escolherem como se vestir. Muitas mulheres muçulmanas com diploma universitário, por exemplo, optam por serem autônomas ou trabalhar em negócios familiares devido à dificuldade de conseguir emprego em suas áreas de formação.

O Hijab: Imposição ou Escolha? A Luta pela Liberdade Feminina

O debate sobre o uso do hijab é recorrente. A luta pelos direitos das mulheres não significa retirar o véu de suas cabeças. Um feminismo coerente deve combater qualquer forma de imposição — tanto obrigar uma mulher a usar o véu quanto obrigá-la a retirá-lo. O véu pode ter múltiplos significados: fé, identidade, pertencimento, estética ou resistência política. Em alguns contextos, pode ser imposto por estruturas familiares ou estatais, mas o papel do feminismo deveria ser ampliar a liberdade de escolha, não restringi-la.

Em países onde o véu é proibido, ele se torna um marcador racializado que produz exclusão social, dificultando o acesso de mulheres muçulmanas a escolas, empregos e serviços públicos. Já em contextos onde o uso do véu é obrigatório, ele pode se transformar em instrumento de controle sobre o corpo feminino. É fundamental estar atento aos diversos contornos de opressão, mas sobretudo ouvir as mulheres muçulmanas sobre suas escolhas, sejam adeptas ou não do lenço. Em ambos os casos, o problema não está na vestimenta religiosa em si, mas nas estruturas de poder que tentam decidir sobre o corpo das mulheres.

A Agência das Mulheres Muçulmanas e o Feminismo Decolonial

Ao longo da história, mulheres muçulmanas têm produzido suas próprias formas de resistência e reflexão política. No início do século 20, a egípcia Huda Shaarawi fundou a União Feminista Egípcia, lutando pela educação, participação política e reformas legais para mulheres. Hoje, o que muitos chamam de feminismo islâmico retoma essas questões centrais: quem interpreta as leis e costumes que governam a vida das mulheres?

Esses debates ocorrem em um cenário global marcado pela islamofobia, por guerras e intensos fluxos migratórios. O feminismo islâmico dialoga com outras correntes feministas, especialmente com os feminismos decoloniais, ao questionar estruturas de poder herdadas do colonialismo e ao denunciar como militarização, racismo e desigualdades globais atravessam a vida das mulheres. Pode-se compreender o feminismo islâmico como uma forma de ação decolonial, que não necessariamente compartilha as mesmas agendas do feminismo liberal e tampouco constitui um bloco homogêneo. Há grande diversidade nas formas de luta e organização entre mulheres muçulmanas, muitas das quais participam ativamente desses debates e mobilizações por direitos, ainda que nem sempre se identifiquem ou se autodenominem feministas.

No fundo, a questão central é simples: mulheres muçulmanas não são sujeitos passivos aguardando salvação. Elas são protagonistas de suas próprias lutas. Ouvi-las, reconhecer suas experiências e respeitar a pluralidade de caminhos para a emancipação feminina é um passo fundamental para construir um feminismo verdadeiramente global, um feminismo capaz de enfrentar não apenas o patriarcado, mas também o racismo, a guerra e as heranças coloniais que continuam moldando o mundo em que vivemos.

Fonte: jornal.usp.br

RELATED ARTICLES

LEAVE A REPLY

Please enter your comment!
Please enter your name here

- Advertisment -
Google search engine

Most Popular

Recent Comments