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Laurence Hallewell (1929-2025): O Historiador Britânico que Desvendou a Alma Literária do Brasil e Deixou um Legado Incontestável

O mundo acadêmico e editorial brasileiro lamenta a perda de Laurence Hallewell (1929-2025), o historiador britânico cujo trabalho monumental, ‘O livro no Brasil: Sua história’, publicado em português em 1985, se tornou a principal referência para a compreensão da trajetória do livro no país. Sua obra, originalmente uma tese de doutoramento defendida na Universidade de Essex entre 1970 e 1975, é um marco incontornável para bibliófilos, pesquisadores e todos interessados na cultura e no mercado editorial brasileiro.

A curiosidade de Hallewell sobre a história do livro no Brasil nasceu de uma lacuna que ele mesmo identificou. Como bibliotecário responsável pelo acervo latino-americano na Universidade de Essex, notou a ausência de obras sobre a edição de livros no Brasil, contrastando com a vasta literatura sobre outros países da América Latina. Essa constatação o impulsionou a atravessar o Atlântico, com o apoio do Itamaraty, British Council e sua universidade, para preencher essa lacuna pessoalmente. Durante sua pesquisa de doutorado, atuou como bibliotecário na Universidade Federal da Paraíba, o que aprofundou seu conhecimento sobre a literatura brasileira e latino-americana.

A lacuna na historiografia brasileira

Antes da chegada de Hallewell, a historiografia brasileira carecia de uma síntese abrangente sobre a história do livro. Obras como ‘O livro, o jornal e a tipografia no Brasil’ (1946), de Carlos Rizzini, abordavam o livro apenas marginalmente, focando na imprensa. Eduardo Frieiro, em ‘O diabo na Livraria do Cônego’ (1945), oferecia uma análise monográfica de uma biblioteca específica, alinhada a estudos europeus sobre o conteúdo de acervos religiosos e aristocráticos. Nelson Werneck Sodré, com ‘A história da imprensa no Brasil’ (1966), também priorizava as engrenagens da imprensa na sociedade, e não o papel do livro na formação social e no mercado editorial.

Embora existissem dezenas de estudos bibliográficos e ensaios históricos de figuras como Ramiz Galvão, Félix Pacheco e o monumental Rubens Borba de Moraes, com sua ‘Bibliographia Brasiliana’, faltava uma obra de síntese que conectasse todos esses pontos. Foi essa a proposta de Hallewell, que conseguiu reunir e sistematizar dados e bibliografia para construir o painel mais rico e completo da história do livro no Brasil, desde o período colonial até a contemporaneidade.

A pesquisa que transcendeu fronteiras

Um dos aspectos mais notáveis da pesquisa de Hallewell foi sua capacidade de se relacionar com intelectuais brasileiros de todos os quadrantes geográficos e políticos, em anos desafiadores da década de 1970. Ele não se limitou ao eixo Rio-São Paulo, estendendo seu diálogo a representantes de instituições como o INL, MEC, CBL e SNEL. Sua objetividade era marcante; ao ser questionado sobre a escassez de mulheres no mercado editorial em seu livro, ele prontamente citou Vera Pacheco Jordão, esposa de José Olympio, como sua ‘fonte principal’, ao lado de uma extensa lista de editores e livreiros brasileiros que contribuíram para sua obra.

Hallewell também demonstrou uma profunda compreensão das contradições brasileiras. Em 2012, no Simpósio Livros e Universidades da Edusp, ele observou: ‘Apesar da perseguição a Paulo Freire, os governantes militares realmente entraram na luta contra o analfabetismo, principalmente com o Mobral, que se apropriou de muitos dos métodos do mesmo Freire. Coisa que notei, mostrada pelas estatísticas decenais de cada geração, foi a importância de um contato contínuo com o mundo da escrita e dos livros. Para a maioria de nós, saber ler é uma necessidade para ganhar o nosso pão, e não um meio de nos divertirmos.’

Imperfeições que fortalecem o legado

É importante ressaltar que essa pesquisa monumental foi realizada antes da era dos computadores pessoais e da internet, um feito que realça ainda mais sua envergadura. Contudo, como todo trabalho de síntese, ‘O livro no Brasil’ não está isento de lacunas e equívocos. Especialistas podem apontar erros, como a localização do primeiro impresso de Sergipe, ou termos polêmicos, como a caracterização da ‘revolução’ de 1964. No entanto, essas imperfeições, longe de desabonar o esforço hercúleo de Hallewell, servem como um estímulo contínuo para novas investigações. As lacunas se submergem à medida que as pesquisas sobre o livro no Brasil se avolumam, ganham corpo, qualidade e identidade.

A obra de Laurence Hallewell continua a se apresentar como um farol, um ponto de partida essencial para qualquer estudo na área. Os principais marcos, nomes, títulos e instituições foram gravados nas páginas de seu grande livro. Uma nova geração hiperconectada, sem dúvida, trará novas contribuições e interpretações, expandindo os capítulos que Hallewell tão brilhantemente demarcou. ‘O livro no Brasil’ é uma obra incontornável, um clássico absoluto, a história de um bibliotecário britânico que desbravou o oceano para conhecer o país distante que tanto ressoava em sua imaginação. Sua dedicação ao pai, Herbert Joseph Hallewell, que ele comparava a Monteiro Lobato, demonstra a profunda conexão pessoal que estabeleceu com o Brasil, um país que ele não apenas estudou, mas ajudou a entender a si mesmo através da história de seus livros.

Fonte: jornal.usp.br

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