Dois estudantes da Escola Politécnica (Poli) da Universidade de São Paulo (USP) desenvolveram uma solução inovadora que promete revolucionar o restabelecimento do fornecimento de energia elétrica no Brasil. Luiz Camargo Guedes e Miguel Lima, do Departamento de Engenharia Naval, são os criadores do “Módulo de Poste Móvel”, uma tecnologia capaz de reduzir drasticamente o tempo de religação de energia, passando de dias para meros 40 minutos em casos de interrupção por acidentes. Em situações de grandes catástrofes, como tornados, o sistema consegue restabelecer a energia em um dia.
Como funciona o “estepe” da energia?
A inspiração para o projeto veio da necessidade de agilizar um processo atualmente lento e custoso. Miguel Lima explica que o grande desafio hoje não é a remoção de um obstáculo, como uma árvore caída, mas a demorada reconstrução de postes de concreto, que pode levar de seis a dez horas. O Módulo de Poste Móvel atua como um desvio inteligente: “Quando a equipe chega no local, o poste móvel se eleva e cria um caminho alternativo para a energia passar por cima dos escombros”, detalha Lima. Ele compara a invenção ao estepe de um carro: “É como o estepe de um carro, se o pneu furar na estrada à noite você não fica lá consertando a borracha no escuro, mas coloca o estepe e volta a andar imediatamente para posteriormente realizar o conserto definitivo”. A tecnologia, segundo ele, transforma o “caos da obra civil em uma simples emenda de cabos”, devolvendo a luz à população rapidamente enquanto a concessionária realiza o reparo definitivo com segurança e sem pressa.
Vantagens que vão além da rapidez
Luiz Camargo Guedes ressalta que os benefícios do Módulo de Poste Móvel se estendem para além da velocidade no religamento. A solução também é pensada para as operadoras de telecomunicações, garantindo que a internet e outros serviços voltem rapidamente. Sua concepção permite o transporte por veículos comuns, eliminando a necessidade de carretas especiais e capacitando toda a frota das concessionárias. Além disso, a tecnologia otimiza a logística de atendimento: “Esse módulo ainda tem o poder de fazer com que o socorro chegue mais rápido nos pontos de ocorrência, pois o poste móvel permite que os relatos de falta de energia nos diversos pontos distribuídos ao longo de São Paulo, por exemplo, sejam atendidos ao mesmo tempo, caracterizando uma logística distribuída e simultânea”, explica Guedes.
Investimento que supera o custo do apagão
Guedes enfatiza que a tecnologia não deve ser vista como um custo, mas como um investimento. Ele argumenta que o verdadeiro “custo” está nos prejuízos causados por apagões prolongados – alimentos perdidos, hospitais paralisados e a insegurança de cidades no escuro. “Nós vemos investimentos, e o investimento é uma fração muito pequena, se comparado a um caminhão de manutenção da concessionária de energia, por exemplo. É um valor simbólico dentro do prejuízo de uma cidade parada, a conta fecha muito rápido”, afirma. Ele ainda compara a solução a alternativas mais caras, como o soterramento de cabos, que exigiria bilhões e décadas de trabalho, enquanto o Módulo de Poste Móvel oferece uma solução viável com um valor “ínfimo” em comparação.
Próximos passos para iluminar o país
A próxima etapa crucial para o projeto é a construção da patente, garantindo que a tecnologia possa ser implementada pelas concessionárias de energia. Guedes revela que a equipe já teve uma reunião com a diretoria da Enel, que elogiou a ideia e validou a necessidade de uma solução que simplifique a complexidade da religação. “Eles validaram publicamente a dor da religação da energia, mostrando que precisam de uma solução que transforme a queda de árvores, postes e fios em uma simples emenda de cabo, que é justamente o que o poste móvel faz”, conta. A visão final dos estudantes é ambiciosa: “A próxima etapa é tirar o País do escuro, apagões prolongados só existirão no futuro por outras faltas, não mais por falta de tecnologia”, conclui Guedes.
Fonte: jornal.usp.br


