O cenário energético global passa por uma transformação acelerada, e o início de 2026 exige um olhar atento às tendências que moldam o mercado. Segundo o professor Fernando de Lima Caneppele, da Faculdade de Zootecnia e Engenharia de Alimentos (FZEA) da USP em Pirassununga (SP), o relatório World Energy Outlook 2025 da Agência Internacional de Energia (IEA) é um ponto de partida crucial para essa reflexão. “O documento apresenta um contexto complexo, mas aponta cinco direções que desnudam a distância entre o imenso potencial brasileiro e a nossa capacidade real de execução”, afirma.
As Cinco Direções Globais e a Oportunidade Perdida do Brasil
O Deslocamento do Centro de Gravidade e a Chance da América Latina
A primeira grande mudança é o deslocamento do foco global do mercado de energia, que sai da China e migra para economias emergentes, incluindo a América Latina. O Brasil se encontra diante de uma oportunidade histórica, mas a questão provocativa que se impõe é: estamos verdadeiramente prontos para liderar ou seremos apenas exportadores de matéria-prima bruta?
Novas Ameaças à Segurança Energética e o Paradoxo Hídrico Brasileiro
O segundo ponto levantado pela IEA trata dos novos riscos de segurança energética. A preocupação não se restringe mais apenas aos combustíveis, mas se estende à resiliência da infraestrutura frente a eventos climáticos extremos. Caneppele analisa: “No Brasil, vivemos um paradoxo perigoso: dependemos da água para gerar energia hidrelétrica e, quando ela falta, recorremos a termelétricas que também precisam de volumes colossais de água para resfriamento.”
A Era da Eletricidade, Expansão Solar e o Desafio da “Curva do Pato”
O mundo também adentra a era da eletricidade, cuja demanda crescerá muito mais rápido que qualquer outra fonte. Este crescimento será impulsionado pela abertura total do mercado e pela portabilidade para o consumidor residencial em 2027. O desafio central não é a falta de fontes, mas a inércia. Além disso, somos uma potência solar, mas enfrentamos a chamada “curva do pato”: descartamos energia limpa e barata durante o dia para pagar caro por energia fóssil à noite.
Descarbonização: Um Mosaico Tecnológico Essencial para o Futuro
Por fim, o relatório indica que o sucesso climático depende diretamente de escolhas e trade-offs. Para o Brasil, isso significa admitir que a descarbonização não terá uma “bala de prata”. “Precisamos de um mosaico tecnológico que inclua desde a eletrificação de ônibus urbanos até o uso estratégico de biocombustíveis avançados e hidrogênio verde para as longas distâncias”, conclui o professor Caneppele.
A “Série Energia”, que aborda esses temas cruciais, tem apresentação do professor Fernando de Lima Caneppele e coprodução com o jornalista Ferraz Junior, da Rádio USP de Ribeirão Preto. Você pode sintonizar a emissora em FM 107,9, pela internet em www.jornal.usp.br ou pelo aplicativo no celular para Android e iOS.
Fonte: jornal.usp.br


