A saúde, em sua concepção tradicional, frequentemente se restringe ao aparato hospitalar e à gestão individualizada de riscos, negligenciando as dimensões coletivas e políticas que moldam a vida. Essa visão hegemônica, que a define como mera ausência de patologia ou responsabilidade comportamental, deixa em segundo plano o papel da sociedade na produção de bem-estar, conforme apontam Monique Oliveira, Derick Carneiro, Carlos Botazzo e Marco Akerman, da Faculdade de Saúde Pública (FSP) da USP.
Contrária a essa leitura reducionista, a disciplina de Promoção da Saúde, Comunicação e Educação em Saúde da FSP-USP propõe um movimento de ‘disputa do imaginário social da saúde’. A iniciativa busca formar profissionais engajados na ‘práxis’ – ação informada pela reflexão crítica – e levar a Universidade para além de seus muros, promovendo um diálogo guiado por fortes recursos teóricos e ações no território e na vida social.
Repensando a Saúde na Metrópole: A Andança Semiótica em São Paulo
Para ampliar os conceitos e práticas sobre saúde, os alunos da FSP-USP foram convidados a realizar ‘andanças semióticas’ pela cidade de São Paulo. Essa imersão transformou o espaço urbano em objeto de estudo, permitindo uma leitura concreta das iniquidades e potencialidades que a metrópole revela. A partir da observação de arquiteturas, vivências e trajetos – desde as regiões centrais até Heliópolis –, os estudantes analisaram como o concreto da cidade comunica (ou silencia) sobre a saúde de seus habitantes.
O objetivo era responder a uma pergunta fundamental que emerge do chão da cidade: como São Paulo pode ser um espaço produtor de vida para todos, sob a ótica da promoção da saúde? A saúde, nessa perspectiva, é entendida como um bem público socialmente produzido, forjado na disputa entre redes sociais e interesses, conforme preconiza a Política Nacional de Promoção da Saúde (PNPS).
A Crítica Epistemológica: Desvendando a Determinação Social da Saúde
O desafio de transformar o imaginário social da saúde exige uma profunda revisão conceitual. A disciplina da FSP-USP adota uma crítica à leitura da saúde apenas pela lente dos Determinantes Sociais da Saúde (DSS), que muitas vezes os reduz a fatores isolados a serem corrigidos, tornando-se insuficiente para uma compreensão abrangente.
Inspirada na Medicina Social Latino-Americana (MSAL) e em autores como Jaime Breilh, Asa Cristina Laurell e Ricardo Navarro, a abordagem da USP foca na ‘Determinação Social do Processo Saúde-Doença’. Essa perspectiva exige uma análise aprofundada das relações de poder, das estruturas de dominação (como classe, gênero e etnia) e dos padrões de acumulação de riqueza, compreendendo-os como elementos cruciais para o pleno exercício da vida e da cidadania.
Inovação Comunicacional: Da Teoria à Ação Engajadora
A comunicação é vista não como um acessório, mas como a ferramenta central para disputar o imaginário da saúde. Os estudantes da FSP-USP desenvolveram diversos dispositivos comunicacionais, traduzindo a teoria para uma linguagem acessível e engajadora, ilustrando a capacidade de transformar a teoria em ação concreta.
Entre os trabalhos, destacam-se perfis em redes sociais como Instagram e TikTok, usados com tom documental e de denúncia para gerar reflexão crítica sobre a fragmentação urbana e o comércio de alimentos. Zines políticos, confeccionados manualmente, abordaram temas como saúde mental, enquanto jogos online, como um focado em Heliópolis, promoveram engajamento territorial. Aplicativos dialógicos também foram criados para combater o sedentarismo e estimular a reflexão coletiva sobre práticas saudáveis, demonstrando como a tecnologia pode ser um vetor de empoderamento e conscientização, corroborando a análise de Lúcia Santaella sobre a cibercultura.
Práxis Insubordinada e o ‘Esperançar’: Um Convite à Ação Coletiva
A jornada dos alunos da FSP-USP transcende o domínio acadêmico, configurando-se como um convite concreto à ação. A ‘práxis insubordinada’ reivindicada exige que, a partir de uma crítica rigorosa à inércia institucional (aquela que se restringe ao consultório), todo o corpo da USP – alunos, professores e pesquisadores – rompa a simetria distante e lance sua capacidade técnica e ética sobre as zonas de exclusão da metrópole.
A transformação da saúde e da sociedade é vista como um movimento coletivo que demanda persistência e construção diária. Citando o Mestre Paulo Freire, os autores reforçam a importância de ‘esperançar’, que não é esperar passivamente, mas sim ‘se levantar, esperançar é ir atrás, esperançar é construir, esperançar é não desistir! Esperançar é levar adiante, esperançar é juntar-se com outros para fazer de outro modo…’
Fonte: jornal.usp.br


