O Prêmio Nobel, com seu inegável prestígio e a substancial recompensa financeira, é frequentemente visto como o ápice do reconhecimento científico e literário global. Contudo, a história por trás de suas atribuições revela uma complexidade muito maior, onde o mérito pessoal nem sempre é o único critério. Segundo Gildo Magalhães, professor sênior do Instituto de Estudos Avançados (IEA) da USP, o processo de escolha, sendo uma atividade humana, está sujeito a falhas, intervenções de fatores internos e externos, e, ocasionalmente, a predominância de elementos de cunho político sobre o mérito.
A Complexidade por Trás do Prestígio
A interferência de fatores não científicos é particularmente visível no Nobel de Literatura. A coleção “Biblioteca dos Prêmios Nobel de Literatura” expõe como pressões de academias, jornais e até governos, além de nacionalidade, amizades, inimizades, idade e tendências do momento, podem influenciar a escolha do laureado. Essa dinâmica explica a premiação de escritores menos expressivos e a notável ausência de figuras como Tolstói na lista de agraciados. Tais circunstâncias não são exclusivas do Nobel, ecoando em outras eleições acadêmicas e concursos públicos.
Como uma possível reação ao caráter arbitrário de algumas premiações, surgiu em 1991 o irreverente Prêmio IgNobel. Concedido a pesquisas consideradas inusitadas ou irrelevantes à primeira vista, ele celebra o engajamento com a ciência, lembrando que descobertas triviais podem, por vezes, levar a avanços inesperados na História da Ciência.
Injustiças Silenciosas nas Ciências
Nas categorias de ciências naturais (física, química, fisiologia ou medicina), a falta de transparência nos arquivos suecos impede uma exposição histórica detalhada dos dilemas de escolha. Injustiças e omissões muitas vezes só vêm à tona décadas depois. Casos como o do casal Noddack, repetidamente indicado pela descoberta do elemento rênio, Lise Meitner pela fissão nuclear, e Rosalind Franklin pela estrutura do DNA, que sequer foram consideradas, são exemplos eloquentes de como o reconhecimento pode falhar.
Controvérsias também rondam premiações aparentemente corretas. O Nobel de Física de 1907, concedido a Albert Michelson por seus instrumentos de precisão óptica, é frequentemente associado erroneamente à comprovação da constância da velocidade da luz, crucial para a teoria da relatividade de Einstein. No entanto, Michelson e seu colega Edward Morley nunca se convenceram dessa constância, admitindo a existência do éter mesmo após o prêmio. Similarmente, a justificativa do Nobel de Física de 1938 para Enrico Fermi, pela “descoberta de novos elementos radioativos”, é controversa. A química Ida Noddack já havia identificado que a equipe de Fermi realizou a fissão de núcleos pesados em elementos mais leves não radioativos, uma correção negada por Fermi e seus colegas.
César Lattes: Um Pioneiro Negligenciado
Para o Brasil, a história de César Lattes (1924-2005) é um doloroso lembrete dessas injustiças. Pioneiro na descoberta e investigação dos mésons pi, Lattes foi notoriamente negligenciado em 1950, quando o Nobel foi para Cecil Powell. A honraria foi atribuída “pelo desenvolvimento do método fotográfico de estudo dos processos nucleares e suas descobertas sobre os mésons com este método”, façanhas que, em grande parte, foram realizadas pelo físico brasileiro. A falta de transparência nas premiações impede saber os motivos exatos para a omissão de Lattes, mas conjecturas incluem sua posição política de esquerda durante a Guerra Fria ou seu repúdio às teorias da relatividade de Einstein e à cosmologia do Big Bang.
O Drama de Carlos Chagas: Ciência, Inveja e o Nobel Perdido
Ainda mais clamoroso é o caso do médico brasileiro Carlos Chagas (1878-1934). Sua trajetória começou com um notável trabalho sanitarista, como na debelação de um surto de malária na construção da represa de Itatinga em São Paulo, permitindo a inauguração da usina em 1910, um marco da engenharia nacional.
Essa experiência levou Chagas a se dedicar ao sanitarismo, tornando-se auxiliar de Oswaldo Cruz no Instituto Soroterápico em Manguinhos. Enviado para combater a malária em Minas Gerais, sua curiosidade o levou à descoberta da doença tropical parasitária que hoje leva seu nome. Chagas identificou o principal vetor, o inseto “barbeiro”, e o protozoário Trypanosoma cruzi, descrevendo o ciclo completo da doença em 1909, que causa cardiopatias debilitantes ou fatais.
Apesar de sua competência, Chagas foi alvo de campanhas difamatórias em 1916 e 1922-23, lideradas pelo médico e político Afrânio Peixoto. As acusações visavam desacreditá-lo completamente, afirmando que a doença era inventada, restrita a uma pequena região ou que Oswaldo Cruz seria o verdadeiro descobridor do parasita. Chagas conseguiu refutar as acusações, mas não convenceu as autoridades da gravidade e dimensão da doença. Essas difamações certamente influenciaram suas indicações ao Prêmio Nobel de Fisiologia e Medicina em 1913 e 1921. Há indícios de que em 1921, o Instituto Karolinska da Suécia solicitou informações sobre Chagas ao Brasil, mas recebeu objeções que, possivelmente, partiram de seus detratores – e o prêmio daquele ano não foi concedido a ninguém. Uma terceira indicação foi interrompida por sua morte em 1934.
As tentativas de acessar os arquivos do Comitê Nobel sobre a nomeação de Chagas foram infrutíferas. Permanece a convicção de que, como na vida universitária, grandes obstáculos à inovação podem vir dos próprios colegas, e a política mesquinha de certos grupos, avessa a discussões, pode buscar reservar para si a glória do renome.
A doença de Chagas afeta hoje milhões de pessoas nas Américas, Europa e Ásia. Sua invisibilidade por tanto tempo, talvez por atingir populações mais pobres, tem sido superada pelas migrações, tornando-a uma preocupação global. Graças a Carlos Chagas, a doença pode ser estudada, embora ainda careça de pesquisa suficiente para uma vacina eficaz.
A produção científica brasileira, tanto em ciências naturais quanto humanas, tem se destacado cada vez mais internacionalmente. Talvez um dia, o Brasil possa celebrar um Prêmio Nobel com mérito inquestionável, como teria sido nos casos de Lattes e Chagas. Até lá, a reflexão de Shakespeare em Henrique VIII ressoa: “As maldades humanas ficam inscritas em bronze, Mas suas virtudes escrevemos com água.”
Fonte: jornal.usp.br
