A Universidade no Divã: Como a Complexidade de Morin e a Criatividade de Deleuze Redesenham o Futuro do Conhecimento e a Inovação Global

A universidade, uma das instituições mais longevas e resilientes da história humana, atravessou milênios, testemunhando a ascensão e queda de impérios, mantendo sua essência e missão quase intactas. Contudo, essa longevidade não é um sinal de infalibilidade, mas sim de uma notável capacidade de reinvenção contínua. Desde a implementação do modelo humboldtiano na Universidade de Berlim em 1810, que pioneiramente integrou ensino e pesquisa como atividades indissociáveis e consolidou a universidade como o principal palco da construção e transmissão do conhecimento, a instituição tem se transformado. Clark Kerr, posteriormente, reformulou esse modelo ao estabelecer o conceito de multiversidade, uma estrutura mais complexa e multidimensional, articulada com diversos setores da sociedade e atuando como força impulsionadora da economia. Nos anos 1990, Loet Leydesdorff e Henry Etzkowitz formalizaram o modelo da Hélice Tríplice, onde universidade, setor produtivo e governo cooperam para promover a inovação e converter conhecimento científico em desenvolvimento econômico. Apesar desse protagonismo legitimado na sociedade moderna, o processo de consolidação da multiversidade tem gerado grandes tensões internas e externas, forçando a universidade a abordar novas questões associadas à sua identidade, legitimidade, governança e financiamento, bem como a uma crescente compartimentalização do saber.

A Fragmentação do Conhecimento e o “Paradigma da Simplificação” de Morin

Gradualmente, as universidades passaram a se organizar em institutos e departamentos, impulsionando um processo de hiperespecialização que, paradoxalmente, compartimentalizou o conhecimento. Embora essa estrutura tenha possibilitado avanços extraordinários em áreas específicas, ela também ergueu barreiras, com cada campo desenvolvendo suas próprias linguagens, métodos e referenciais, dificultando o diálogo e a colaboração. O resultado é uma redução na capacidade de compreender e enfrentar os grandes desafios contemporâneos, cuja natureza transcende fronteiras disciplinares, como sustentabilidade global, energia e inteligência artificial. Edgar Morin, um dos pensadores mais influentes do último século, apresentou uma crítica contundente a essa forma de construção do conhecimento dentro das estruturas departamentalizadas. Celebrado como o filósofo da complexidade, Morin criticava a crescente fragmentação do conhecimento que dificultava a abordagem de problemas complexos. Para ele, o principal desafio da universidade contemporânea não deveria ser apenas produzir novos conhecimentos, mas sim reconectar os saberes que foram excessivamente fragmentados ao longo do tempo.

A Necessidade da Complexidade: A Visão Epistemológica de Morin

A crítica de Morin estava profundamente alinhada à sua filosofia de que fenômenos naturais e desafios contemporâneos são muito mais complexos do que os modelos e métodos simplificados atualmente em uso. Ele identificou o que chamava de “paradigma da simplificação”, associado à metodologia clássica da exploração científica que compreende separar, reduzir e isolar antes de modelar. Embora eficiente para o desenvolvimento das ciências modernas, essa metodologia falha ao abordar problemas e fenômenos transdisciplinares. Morin não propunha rejeitar o método científico tradicional, mas sim sofisticá-lo, propondo processos de reflexão e ação que pudessem “distinguir sem separar, integrar sem reduzir, conectar sem isolar e modelar sem singularizar”. Para ele, incorporar a complexidade não significava complicar, mas perceber que a natureza abrange eventos não lineares, padrões multidimensionais, sistemas auto-organizados, mecanismos retroalimentados e correlações em diferentes escalas. Morin defendia uma transformação epistemológica profunda da universidade, não apenas administrativa, que fosse além da criação de novos cursos ou conhecimentos, focando na integração dos saberes. Isso exigiria valorizar o diálogo interdisciplinar, criar espaços de intermediação e oferecer uma formação humanística que promovesse a imersão contínua nos grandes desafios da humanidade, estimulando intensivamente a inovação e a criatividade.

Gilles Deleuze e a Liberdade Criativa para Romper Metodologias Rígidas

Para complementar essa visão e impulsionar a inovação, Gilles Deleuze, outro filósofo seminal do século 20, apresentou uma alternativa metodológica focada na liberdade radical do pensamento e na quebra de estruturas rígidas. Deleuze defendia uma proximidade maior entre a ciência, a filosofia e a arte, conceituando a inovação, a criatividade e a inventividade como processos cognitivos universais que transcendem as áreas e suas compartimentalizações. Para ele, há tanto potencial criativo em uma pintura ou composição musical quanto em um projeto de engenharia ou equação matemática. O filósofo argumentava por um processo cognitivo em constante mutação, impossível dentro de estruturas metodológicas rígidas. Sua originalidade residia na experimentação de novas formas de formular questões, conceber problemas e criar conceitos para compreender o mundo, rompendo com as metodologias tradicionais. Como um dos principais representantes do pós-estruturalismo, Deleuze defendia a desconstrução das estruturas de pensamento estabelecidas por milênios para abrir espaço a novos modos de pensar, conceituar e produzir conhecimento, pois as estruturas clássicas restringiam a criatividade e a inovação.

A Síntese Inovadora: Reconectando Saberes e Métodos com Morin e Deleuze

Embora o método científico tradicional seja um conjunto de procedimentos racionais decisivo para os avanços da ciência, a inovação não decorre automaticamente de sua aplicação rigorosa. Ela frequentemente resulta de associações inesperadas, experimentações improvisadas e conexões improváveis, que escapam às estruturas lineares e hierarquizadas da metodologia clássica. Torna-se indispensável, portanto, ultrapassar, ainda que momentaneamente, os limites impostos pela sequência rígida do método, tornando-o mais flexível e capaz de incorporar novas rotas de produção do conhecimento. A complementaridade entre Morin e Deleuze oferece uma poderosa ferramenta para esse redesenho. Morin buscou uma integração das diversas dimensões do mundo real em uma teoria da complexidade, enquanto Deleuze era mais cético quanto a sínteses totalizantes, focando nas multiplicidades do pensamento não hierarquizado. A chave para uma nova forma de construção do conhecimento reside em combinar a busca de Morin pela rearticulação de conhecimentos fragmentados, através de uma linguagem unificadora, com a proposta de Deleuze de se desconectar das linguagens isoladas, buscando construir o saber em um ambiente sem amarras repressoras. A inovação, em qualquer área, é a síntese ordenada proveniente do caos, onde a ordem racional pode emergir de eventos caóticos, em total aderência às ideias de complexidade de Morin. Ambos os pensadores, partindo de tradições distintas, criticavam a fragmentação do conhecimento, a burocratização da pesquisa e a hipervalorização das métricas produtivistas. Morin ofereceu a reconexão dos vínculos entre os saberes; Deleuze, novos modos de pensar para estabelecer conexões não hierarquizadas. Juntas, suas perspectivas permitem vislumbrar uma universidade mais inventiva, capaz de gerar novos campos do conhecimento, enfrentar os desafios globais e reafirmar seu papel civilizacional ao longo dos séculos.

Fonte: jornal.usp.br

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