Um olhar detalhado sobre a vida acadêmica do século 19 em São Paulo, especificamente na Faculdade de Direito do Largo São Francisco, hoje parte da USP, é o que oferece o recém-lançado livro Romantismo Paulista em Contos Acadêmicos. Organizado por Natália Gonçalves de Souza Santos e publicado pela Editora da USP (Edusp), a obra compila 13 narrativas curtas que capturam a essência dos primeiros tempos da literatura romântica no Brasil, sob a perspectiva de seus jovens protagonistas.
Os textos, a maioria anônimos, mas alguns assinados por futuros nomes célebres como José Vieira Couto de Magalhães e Fagundes Varela, são acompanhados por ilustrações da época, enriquecendo a imersão no período. Diferente dos estudantes europeus com suas comodidades, os alunos paulistanos viviam em repúblicas, moradias coletivas onde a conversação e a convivência supriam o tédio na diminuta e provinciana São Paulo imperial.
O Surgimento do Conto Acadêmico
Foi nesse cenário de ócio juvenil e efervescência intelectual que nasceu o “conto acadêmico”, um estilo literário breve, muitas vezes satírico, publicado em jornais estudantis entre 1840 e 1860. Essas narrativas retratavam o dia a dia dos universitários, oferecendo um vislumbre de suas preocupações e divertimentos.
Para Natália Santos, o aparecimento do tipo literário “estudante” e, em especial, “bacharel em Direito” reflete um país que almejava a civilização, mas em bases contraditórias. “Os contos, para além de demarcarem essa identidade discente, buscam pensar o lugar desse jovem que tem contato com leituras progressistas dentro de um cenário conservador e de que forma ele exercerá sua função diante disso”, explica a organizadora em entrevista ao Jornal da USP.
Da Chegada à Formatura: Uma Jornada Narrativa
A estrutura do livro segue a trajetória do estudante da época, começando com narrativas que descrevem a chegada à faculdade e culminando em histórias de alunos prestes a se formar. O conto de abertura anônimo, Páginas de Um Caderno, narra a jornada de um jovem a cavalo de Santos a São Paulo, enfrentando intempéries e ironizando os escritores de sua época que idealizavam viagens.
O tom crítico é uma marca do romantismo presente nos textos, embora com uma “autoaversão” ao movimento. Natália Santos destaca que os escritores investiam “numa espécie de denúncia dos fins estéticos disfarçados no objeto artístico” através do humor. Isso é evidente em Traços da Minha Vida de Estudante, onde o protagonista critica o ideal romântico, ou em Um Passeio à Tarde: a Uma Jovem Resendense, que mergulha nas divagações melancólicas de um aluno com saudades de casa.
Os contos finais da coletânea abordam a transição da vida de estudante para a vida adulta. Em Nininha, Júlio, no último ano do curso, expressa seu cansaço da rotina acadêmica e a prontidão para o próximo passo, encontrando no amor uma nova perspectiva.
As Raízes do Conto Brasileiro Antes de Machado de Assis
Natália Santos ressalta que a leitura desses contos pode causar estranhamento inicial, pois diferem dos contos modernos, que, com sua concisão e cortes “rigorosos”, surgiram após a popularização da obra de Machado de Assis. “Os contos acadêmicos permitem pensar nas primeiras tentativas da escrita curta no Brasil”, afirma a organizadora.
Ela argumenta que, embora os estudos literários frequentemente foquem em Machado de Assis, concebendo o que veio antes como mero esboço, é nesse período que diversas experimentações importantes para a originalidade do Romantismo podem ser observadas. Romantismo Paulista em Contos Acadêmicos, de Natália Gonçalves de Souza Santos, Edusp, tem 208 páginas e custa R$ 50,00.
Fonte: jornal.usp.br
