Um estudo inovador realizado na Escola de Educação Física e Esporte (EEFE) da USP revela que as flutuações hormonais naturais do ciclo menstrual não são o fator determinante para o desempenho físico máximo de mulheres ativas. Em vez disso, sintomas como cólicas menstruais intensas e o desconforto emocional têm um impacto significativamente maior na performance durante o exercício.
A pesquisa, uma tese de doutorado que preenche uma lacuna histórica na fisiologia do exercício, também observou que, embora as mulheres tendam a se sentir menos dispostas a se exercitar durante a menstruação devido ao desconforto físico e emocional, essa percepção diminui consideravelmente uma vez que a atividade física é iniciada.
Mitos e a Lacuna na Pesquisa Feminina
Por décadas, a maioria das pesquisas em fisiologia do exercício foi conduzida predominantemente com homens, excluindo as mulheres devido à complexidade das flutuações hormonais associadas ao ciclo menstrual. Raul Cosme Ramos do Prado, autor da tese, destaca que essa exclusão gerou uma lacuna no conhecimento sobre a fisiologia feminina no esporte.
Sob a supervisão da professora Monica Yuri Takito e coorientação do professor Anthony Hackney, da Universidade da Flórida, o estudo avaliou mulheres saudáveis, fisicamente ativas e com ciclos menstruais regulares. As participantes foram submetidas a testes progressivos de ciclismo em três fases distintas do ciclo: menstruação, fase folicular e fase lútea.
Além de analisar os níveis hormonais de estrogênio, progesterona e cortisol por meio de amostras de sangue, os pesquisadores monitoraram a frequência cardíaca e uma série de sintomas físicos e emocionais, incluindo cólicas, inchaço, desconforto físico, disposição para o exercício, alterações de humor, ansiedade e níveis de excitação antes e depois dos testes.
Hormônios Variam, Desempenho Permanece
Os resultados foram claros: as alterações hormonais esperadas ao longo do ciclo menstrual não se refletiram na performance física máxima das participantes. Embora os níveis de estrogênio e progesterona variassem de acordo com cada fase, com concentrações mais altas nas fases folicular e lútea, não houve diferenças significativas na capacidade das mulheres de realizar os testes de exercício.
“Mesmo com níveis mais altos de estrogênio e progesterona durante certas fases do ciclo, as participantes não foram nem mais nem menos capazes de concluir os testes de desempenho físico”, explica Prado. Isso sugere que o impacto do ciclo menstrual no exercício está menos relacionado às flutuações hormonais e mais ligado à experiência individual de cada mulher nesse período.
O Poder dos Sintomas: Cólicas e Motivação
Contrariando a falta de impacto hormonal direto, os sintomas físicos e emocionais mostraram ter uma influência substancial. Mulheres que relataram cólicas menstruais mais severas perceberam um maior esforço durante os testes e, em alguns casos, tiveram um desempenho inferior em comparação com aquelas que apresentavam sintomas mais leves.
O estudo também identificou que, durante a menstruação, as participantes relataram menor motivação para se engajar em atividades físicas, maior retenção de líquidos e mais alterações comportamentais em comparação com a fase folicular. Prado observa que o declínio na motivação é mais pronunciado no início das sessões de exercício, quando o desconforto e as sensações corporais são mais notáveis.
Treino Individualizado: A Nova Abordagem
Para a professora Monica Takito, os achados da pesquisa reforçam a necessidade de uma abordagem individualizada no treinamento de mulheres. Em vez de ajustar as cargas de treino com base apenas nas fases do ciclo menstrual, treinadores e profissionais de saúde devem considerar os sintomas vivenciados por cada atleta.
“Essa abordagem permite identificar mulheres cujos sintomas podem realmente comprometer o desempenho físico, possibilitando ajustes mais precisos no treinamento, na recuperação e, quando necessário, no acompanhamento clínico”, enfatiza a professora. O estudo, financiado pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), avança no entendimento da fisiologia feminina e promove práticas mais eficazes e empáticas no esporte.
Fonte: jornal.usp.br
