Exclusão Silenciosa: Como a Violência Escolar Expulsa Travestis e Pessoas Trans do Ensino e Impacta Suas Vidas no Brasil

A escola, frequentemente idealizada como um segundo lar, revela-se um ambiente hostil para muitas travestis e pessoas trans, marcando o início de um percurso de exclusão. Em um país onde a expectativa de vida dessa população é inferior a 35 anos e 72% não concluem o ensino médio, o abandono escolar se manifesta precocemente, por vezes ainda na infância.

A dissertação de mestrado “Escolas para trans ou escolas-trans? Por uma educação que diferencie e liberte o sujeito”, defendida por Marcella Halcsik Silva na Faculdade de Educação (FE) da USP em fevereiro de 2026, oferece um olhar aprofundado sobre essa realidade. A pesquisa acompanhou seis estudantes travestis e trans da Educação de Jovens e Adultos (EJA) entre 2022 e 2023, utilizando a psicanálise lacaniana para investigar como a violência escolar impulsiona processos de expulsão e para debater o que seria uma escola verdadeiramente inclusiva.

Marcella, professora de geografia que atuou na EJA até 2023, percebeu a invisibilidade desses estudantes ao trabalhar em uma escola de tempo integral no Glicério, São Paulo. “Eu percebi que esses estudantes, especialmente trans e travestis, são invisíveis. Eles não existem!”, afirma. Essa constatação motivou a realização de entrevistas em profundidade, cujos relatos evidenciam as experiências escolares dos participantes, o retorno aos estudos na EJA e as características de uma escola que realmente acolha.

A Escola Como Território de Medo e Invisibilidade

As memórias de violência não se restringem à adolescência; elas frequentemente remetem ao Ensino Fundamental I (entre 6 e 9 anos), quando as crianças já demonstravam comportamentos que destoavam das expectativas de gênero. Um dos relatos mais pungentes é o de Xeila, que aos 9 anos foi ridicularizada por sua voz fina ao pedir para ir ao banheiro. “A sala riu dela e ficou falando: ‘olha a vozinha dela’”, conta Marcella. “Depois disso, ela nunca mais pediu para ir ao banheiro e fazia xixi na roupa para não precisar pedir.”

O recreio, para a maioria um espaço de liberdade, transformava-se em um território de medo e exposição à violência para os entrevistados. Uma aluna trans relatou ter sido atingida por pedras na quadra, machucando o quadril, enquanto um homem trans evitava o local por ser alvo constante de agressões físicas e verbais. A pesquisadora aponta que o problema reside não apenas na falta de punição aos agressores, mas também na dificuldade de muitos professores em reconhecer tais violências.

A violência também se manifesta sob o disfarce de regras disciplinares. Uma das entrevistadas era obrigada pela direção a remover a maquiagem antes das aulas, enquanto suas colegas cisgênero podiam usá-la livremente. Marcella recorre à psicanalista francesa Maud Mannoni e seu conceito de “educação pervertida”, que descreve uma prática focada no controle dos corpos e na exclusão de tudo que foge à norma.

As Consequências da Evasão Escolar: Ruas e Resiliência

Todos os seis entrevistados abandonaram os estudos na mesma fase, entre o fim do Ensino Fundamental I e o início do Fundamental II, com a aluna que foi mais longe chegando ao sétimo ano. Para Marcella, é nessa transição que a evasão se concentra.

Após deixar a escola, a prostituição torna-se parte da trajetória de muitos desses estudantes. Na escola pesquisada, cerca de 80% das mulheres trans têm na atividade sua principal fonte de renda, acumulando histórias de violência e, paradoxalmente, estratégias de sobrevivência. Marcella interpreta esse percurso à luz da psicanálise de Jacques Lacan, onde a prostituição, a vida nas ruas e o uso de drogas surgem como formas de lidar com o sofrimento.

Nas ruas, muitos encontram, ainda adolescentes, outras pessoas que compartilham experiências similares, formando comunidades. Esse senso de pertencimento ajuda a explicar por que tantos deixam a casa da família entre os 10 e os 12 anos. “Sozinhas elas morrem”, resume a pesquisadora. Cinco dos seis entrevistados já passaram pelo sistema prisional, e foi nesse período que, paradoxalmente, redescobriram o interesse pelos estudos. O cárcere, em sua hipótese, ofereceu um ambiente onde não precisavam esconder quem eram, encontrando um senso de comunidade e liberdade.

O Paradoxal Retorno aos Estudos e a Busca por Acolhimento

A pesquisa aponta que o preconceito vivenciado pelos estudantes muitas vezes é aprendido e reproduzido dentro de casa. Xeila, por exemplo, relatou a violência do pai desde a infância devido ao seu “jeito afeminado”, mas fazia questão de separar o pai do discurso que ele reproduzia. “Não era meu pai. Era o que ele ouvia na rua, o que trazia dos amigos dele”, contou. Com base em relatos como esse, os próprios estudantes defenderam que as escolas promovam encontros periódicos com as famílias, especialmente quando episódios de violência são identificados.

O retorno aos estudos para os seis entrevistados só foi possível através do Transcidadania, um programa da Secretaria Municipal de Direitos Humanos que oferece uma bolsa de aproximadamente R$1.500,00 por até três anos, condicionada à frequência escolar. Contudo, Marcella enfatiza que o incentivo financeiro, por si só, não garante a permanência. O diferencial é a expectativa de encontrar um ambiente acolhedor. Muitos decidiram voltar a estudar após ouvir de agentes da Secretaria que determinada escola era um espaço onde seriam bem recebidos, mesmo que isso implicasse atravessar a cidade diariamente.

Apesar de uma das entrevistadas ter resumido sua escolha dizendo “Eu não queria estudar com os héteros. Eu já estudei no passado. Foi horrível.”, nenhum dos participantes defende a criação de escolas exclusivas para travestis e pessoas trans. “A gente é o quê, bicho, que tem que estar separado?”, questionou uma das entrevistadas, reforçando o desejo por inclusão, não segregação.

O Olhar do Professor e o Caminho para uma Educação Libertadora

A pesquisa sublinha que a permanência escolar depende diretamente da qualidade da relação construída entre professor e estudante. No entanto, a rotina exaustiva, a falta de formação específica e preconceitos muitas vezes inconscientes podem levar o próprio docente a reproduzir violências. “Os estudantes travestis comentavam que o olhar do professor já era violento para eles. E eu nem sei se o professor percebia isso”, observa Marcella.

Para abordar esse desafio, a pesquisadora faz referência a Sigmund Freud, que descreveu governar, psicanalisar e educar como as três “profissões impossíveis”, dada a incapacidade de controlar completamente o sujeito. A partir dessa ideia, ela defende que a formação continuada também ofereça um espaço de escuta e acolhimento para os professores, reconhecendo suas próprias dificuldades e necessidades.

A dissertação termina com uma nota de esperança. Na prisão, Xeila descobriu o desenho como forma de expressão, fazendo retratos e ilustrando cartas. Foi ela quem pintou a jaqueta usada por Marcella na defesa de sua dissertação. Mesmo após sucessivas experiências de exclusão, o desejo de aprender, criar e permanecer na escola persiste quando se encontra um espaço de acolhimento e reconhecimento da singularidade.

Fonte: jornal.usp.br

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