A pergunta sobre quem define o valor do trabalho é central para entender e combater a desigualdade no Brasil e no mundo. Segundo Erik Chiconelli Gomes, pesquisador do Observatório do Trabalho e da Classe Trabalhadora da USP, a resposta a essa questão tem uma consequência incômoda: a desigualdade não se resolve apenas com transferência de renda. Ela exige a democratização de terrenos hoje privados, como a propriedade dos meios de produção, a jornada de trabalho, o financiamento público, a tributação da riqueza e a organização concreta do labor. Enquanto essas decisões permanecerem fora do alcance coletivo, o voto e os direitos formais coexistirão com uma economia que opera sem eleição.
Desigualdade persistente: Pobreza cai, mas o topo não muda
Dados recentes do IBGE mostram um cenário agridoce para o Brasil. A pobreza recuou de 27,3% da população em 2023 para 23,1% em 2024, e o índice de Gini, que mede a concentração de renda, atingiu 0,504, o menor desde 2012. Esse avanço é largamente atribuído às políticas públicas: sem os programas sociais, a pobreza de 2024 saltaria para 28,7% e o Gini para 0,542. O aquecimento do mercado de trabalho também contribuiu, mas a queda da pobreza ainda é frágil, dependendo de transferências que podem ser interrompidas.
Contudo, no topo da pirâmide, a concentração de riqueza permanece quase intacta. O World Inequality Lab estima que os 10% mais ricos do Brasil capturam cerca de 60% da renda nacional antes dos impostos, mantendo o país entre os de maior concentração de renda globalmente. Essa realidade evidencia dois movimentos paralelos que não se encontram: uma ligeira melhora na base não alterou a estrutura de apropriação no topo, indicando que a riqueza produzida continua sob o controle de poucos.
A face da precariedade: Trabalho informal e a ditadura dos algoritmos
O núcleo do problema da desigualdade está no trabalho. A informalidade atingiu 38,1% dos ocupados em 2025, de acordo com a PNAD Contínua. Uma nova forma de precariedade emerge, comandada por algoritmos: o IBGE registrou 1,7 milhão de pessoas com aplicativos como trabalho principal em 2024, com uma informalidade de 71,1% nesse grupo. Entre os motoristas, 91,2% afirmam que o preço da corrida é definido pela plataforma, e 30% relatam ameaças de bloqueio. Salário, jornada e permanência são decididos pela empresa, enquanto os direitos trabalhistas que deveriam acompanhar essa subordinação são escassos.
A desigualdade também tem cor e gênero definidos. Em 2025, o rendimento médio das mulheres negras correspondeu a apenas 46,5% do dos homens brancos, uma proporção estagnada há anos, segundo levantamento do Ceert com base na PNAD Contínua. A Lei 14.611 de 2023 tentou responder, obrigando empresas com mais de 100 empregados a divulgar relatórios de transparência salarial e a igualar a remuneração em funções equivalentes. Em maio de 2026, o STF confirmou por unanimidade a constitucionalidade da norma. No entanto, a lei atua sobre disparidades que nascem antes, na própria divisão do trabalho e no acesso desigual aos postos formais.
Onde a democracia não chega: Poder econômico fora do voto
Por que essas decisões cruciais escapam ao voto? A resposta reside na separação entre poder político e poder econômico no capitalismo moderno. A política foi confinada ao Estado e às urnas, enquanto o controle sobre a produção permaneceu na propriedade privada. A historiadora Ellen Meiksins Wood demonstrou que essa separação permitiu à democracia avançar no terreno dos direitos sem tocar na economia. O sufrágio universal conviveu com a propriedade intocada porque a deliberação coletiva foi restrita a um espaço apartado da fábrica e do escritório. Karl Marx já havia apontado isso ao mostrar que o capital não é uma coisa, mas uma relação entre quem possui os meios de produzir e quem precisa vender seu próprio trabalho.
A história comprova que os direitos trabalhistas resultaram de pressão organizada, e não do crescimento econômico por si só. A maior redução da jornada de trabalho nos países ricos ocorreu entre meados do século 19 e o fim do século 20, período em que sindicatos fortes converteram ganhos de produtividade em tempo livre e salário. Beverly Silver descreveu como esse conflito se desloca no espaço, seguindo o capital em busca de mão de obra mais barata. Embora as três décadas do pós-guerra europeu tenham combinado pleno emprego e direitos, esse pacto se sustentou em bases coloniais, energia barata e um padrão de consumo insustentável para o planeta, inviabilizando sua replicação no século 21.
Soluções globais para desafios locais: Riqueza, clima e suficiência
É nesse contexto que o debate brasileiro se conecta à discussão global. Um relatório recente coordenado por Thomas Piketty no Laboratório Mundial das Desigualdades propõe enfrentar simultaneamente a desigualdade e a crise climática. O argumento central é que descarbonizar a energia não basta. Sem reduzir a desigualdade, faltam recursos para o investimento climático e apoio político das maiorias. Piketty constata que, quando o retorno da riqueza acumulada cresce mais rápido que a economia, a concentração aumenta naturalmente, a menos que a política intervenha.
Uma das propostas mais discutidas do relatório é a da ‘suficiência’. Não se trata de empobrecer a população, mas de mudar a composição do que é produzido. A ideia, apresentada como projeção normativa, é reduzir a jornada de trabalho, limitar o consumo material de alta emissão nos estratos de maior renda e ampliar os investimentos em saúde, educação e cuidado – setores de baixa pegada ecológica e alto conteúdo humano. Para um país com alta informalidade e longas jornadas em plataformas, a distância entre essa hipótese e a realidade dimensiona o esforço necessário.
O relatório também sugere um imposto global sobre a riqueza, um fundo de justiça global e dividendos nacionais para clima, saúde e educação. Embora os Estados possam emitir moeda, essa capacidade não é igual para todos, variando conforme a soberania monetária, a dívida externa, a posição cambial e a hierarquia do sistema financeiro internacional. Para países periféricos, a emissão sem lastro pode gerar fuga de capital e pressão cambial. A proposta não é uma solução pronta, mas exige tributar o topo, coordenar países e confrontar uma arquitetura financeira global desenhada para favorecer o Norte.
A pergunta inicial retorna com força: quem decide o valor do trabalho hoje decide sozinho, do lado de quem detém a propriedade e o controle sobre a produção. O trabalhador é visto como um custo a ser comprimido, não como parte deliberativa. Enquanto a fixação do salário, a duração da jornada e o destino do investimento permanecerem fora do alcance coletivo, a igualdade política continuará limitada pela desigualdade econômica, no Brasil e no mundo.
Reduzir a desigualdade e enfrentar a crise climática exigem as mesmas decisões: tributar a riqueza para financiar a maioria, encurtar a jornada para distribuir trabalho e tempo, sustentar serviços universais com dinheiro público e dar aos trabalhadores voz sobre o que se produz e como. Nenhuma dessas medidas é meramente técnica; todas são escolhas sobre quem detém o poder. A transição ecológica só será justa se for também democrática, capaz de levar a deliberação até o lugar onde hoje se decide, sem consulta a ninguém, quanto vale o trabalho e para onde vai a riqueza que ele cria.
Fonte: jornal.usp.br
