Em Nome do Pai: Como a Irracionalidade da Fé Molda a Política Global e Ameaça a Democracia

Em Nome do Pai: Como a Irracionalidade da Fé Molda a Política Global e Ameaça a Democracia

A confluência histórica entre crença, poder e discursos extremistas reacende debates sobre o futuro das instituições e a capacidade de diálogo em tempos de crise.

A relação intrínseca entre fé, irracionalidade e poder político emerge como um dos principais motores do avanço de discursos extremistas, apresentando desafios crescentes para as democracias contemporâneas. Longe de ser uma novidade, essa fusão, que ora se manifesta como a politização da espiritualidade, ora como o uso da religiosidade em esferas políticas, tem sido uma constante na história humana, com um breve hiato no século XX, quando foi substituída por outras liturgias laicas, como os dogmas stalinistas, maoístas e nazi-fascistas, que eventualmente fracassaram.

A Conexão Atávica: Fé e Poder ao Longo da História

A necessidade humana de crer, seguir e adorar é um impulso fundamental. O psicanalista Sigmund Freud, em “O Futuro de uma Ilusão”, expressou um otimismo, talvez fugaz, ao prever que a crença seria gradualmente substituída pela educação e pelo pensamento crítico. Contudo, a realidade atual parece desafiar essa projeção, com a busca pelo “conforto de sujeitar-se a um Pai todo-poderoso” persistindo. O Nobel de Física Steven Weinberg capturou essa ânsia atávica e, por vezes, perigosa, ao afirmar que “gente boa costuma fazer o bem; gente má, cometer más ações; mas para que se consiga que pessoas de bem pratiquem atrocidades, só em nome das religiões”.

A Ascensão da Irracionalidade na Política Atual

Hoje, a ascensão de movimentos de extrema-direita e seus valores anti-civilizatórios está impactando profundamente a dinâmica democrática e até mesmo as tímidas tentativas reformistas de instituições como o Vaticano. A recente ameaça de cisma por parte de seguidores ultra-conservadores, que desafiam a autoridade papal, é um exemplo claro da força que a irracionalidade impregnada de elementos religiosos adquire no cenário político. A política, inerentemente, não é o reino da racionalidade pura, mas a crescente potência do fator irracional, vociferante e convincente, torna-se um motor propulsor em eleições, longe de ser um mero coadjuvante.

Crise e Profecias: O Sinal dos Tempos na Urna

O filólogo irlandês Eric Dodds, em “Pagan and Christian in an Age of Anxiety”, já apontava que “misticismo e religiosidade prosperam em épocas de crise”. Esse insight ressoa fortemente na atualidade. Um vasto contingente de pessoas, alheio a complexidades jurídicas, mas aflito com problemas cotidianos como a falta de segurança e a inflação, tende a misturar o terror de profecias escatológicas com o temor de malfeitos individuais. Terremotos, violências familiares e guerras são associados a maldições bíblicas e infâmias terrenas, percebidas como um “Sinal dos tempos que se anunciam” – o Armagedom iminente. Essa percepção dificulta qualquer tentativa de diálogo racional.

O Desafio do Diálogo em Tempos de Armagedom

Enquanto a profundidade e o alcance dessa mistura equivocada de temores terrenos e apocalípticos forem ignorados ou menosprezados, o diálogo se torna inviável. As tentativas de conquistar a adesão de indecisos fracassarão se persistirem em um otimismo superficial, limitado à conversão dos já convertidos. É imperativo enfrentar essa realidade complexa “olho no olho”, reconhecendo a potência da irracionalidade religiosa na formação da opinião pública e na definição dos rumos políticos, para que se possa construir pontes de entendimento e salvaguardar os princípios democráticos.

Fonte: jornal.usp.br

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