A Copa do Mundo de 2026, que será sediada por Estados Unidos, Canadá e México, já nasce com um nome carregado de significado político: “United 2026”. A escolha não foi casual. A candidatura buscava projetar uma imagem de América do Norte integrada, capaz de transcender fronteiras nacionais em torno de um grande evento esportivo. Cooperação regional, livre circulação de torcedores, infraestrutura compartilhada e intercâmbio cultural foram pilares de uma narrativa que prometia o futebol como um símbolo de união entre os povos.
Contudo, como em edições anteriores – a Rússia em 2018, marcada pelo autoritarismo de Vladimir Putin, e o Catar em 2022, debatendo condições de trabalho e direitos LGBTQIA+ –, a Copa de 2026 também reflete as grandes controvérsias políticas de seu tempo. Desta vez, o foco não está na construção de estádios ou em denúncias de corrupção da FIFA, mas na tensão entre a lógica cosmopolita que sustenta o futebol global e o fortalecimento de políticas nacionalistas e restritivas de circulação no principal país-sede, os Estados Unidos.
A Copa Aberta e a Fronteira Fechada
A própria essência da Copa do Mundo é profundamente cosmopolita. O torneio depende da circulação contínua de atletas, árbitros, jornalistas, dirigentes, turistas e milhões de torcedores de praticamente todos os continentes. Poucos eventos contemporâneos conseguem reunir tantas nacionalidades compartilhando simultaneamente um mesmo espaço simbólico, transformando-se em uma das expressões mais visíveis do imaginário globalizado, como observam autores como Roland Robertson, Arjun Appadurai e Ulrich Beck.
É nesse contexto que a edição de 2026 revela um paradoxo singular. Pela primeira vez, uma Copa do Mundo acontece em um cenário onde a livre circulação, condição indispensável para o funcionamento do torneio, convive com políticas que reforçam o controle das fronteiras. A imagem que sintetiza esta edição é clara: de um lado, a fronteira fechada; de outro, a Copa aberta.
As Palavras de Trump e a Tensão Migratória
Essa contradição rapidamente deixou de ser apenas simbólica. Nas vésperas da abertura do Mundial, questionado sobre as dificuldades enfrentadas por visitantes na obtenção de vistos, Donald Trump afirmou que sua administração trabalharia para garantir a entrada das “pessoas certas” (the right people) nos Estados Unidos. A declaração estabeleceu uma ligação direta entre a política migratória e a realização da Copa, alimentando preocupações de organizações de direitos humanos e da imprensa internacional sobre as dificuldades que atletas, jornalistas e torcedores estrangeiros poderiam enfrentar. Aeroportos, consulados e postos de controle de fronteira tornaram-se parte integrante da experiência do Mundial.
Mais do que um episódio isolado, essas declarações evidenciam uma mudança mais profunda. A Copa de 2026 tornou-se palco do confronto entre duas racionalidades distintas: o futebol, dependente da circulação internacional de pessoas, capitais e culturas, e o fortalecimento de políticas soberanistas que reafirmam a centralidade das fronteiras nacionais como instrumento de controle da mobilidade humana. O conflito transcende governos específicos, revelando uma tensão estrutural entre globalização e nacionalismo.
O Papel da FIFA: União vs. Realidade Política
Nesse cenário, o papel da FIFA se destaca. Desde a apresentação da candidatura, a entidade buscou construir uma narrativa baseada na ideia de unidade continental, com o lema “United As One” transformando-se na principal identidade simbólica da competição. Esse lema reforçava valores de integração e convivência entre diferentes povos. No entanto, à medida que as tensões migratórias ganharam visibilidade, essa narrativa passou a coexistir com uma realidade política muito mais complexa.
Sem confrontar diretamente as políticas migratórias adotadas pelo governo norte-americano, Gianni Infantino, presidente da FIFA, manteve o discurso de união, preservando a estabilidade institucional do evento e seus interesses comerciais. Como em outras edições recentes da Copa, a entidade demonstrou sua capacidade de administrar simbolicamente conflitos políticos sem necessariamente enfrentá-los de frente.
Um Espetáculo Esportivo ou Palco Geopolítico?
Não por acaso, parte significativa da imprensa internacional passou a interpretar o Mundial a partir do protagonismo político da Casa Branca. O jornal The Guardian, por exemplo, definiu o torneio como “Trump’s World Cup”, argumentando que as políticas migratórias, o nacionalismo e a crescente proximidade entre Gianni Infantino e Donald Trump passaram a moldar a percepção pública da competição. O futebol deixou de ser visto apenas como um espetáculo esportivo para se transformar também em um espaço de disputa simbólica, onde diferentes projetos de sociedade competem por legitimidade diante de uma audiência global.
A imagem da “Copa aberta” coexistindo com a “fronteira fechada” talvez permaneça como um dos símbolos mais duradouros desta edição e como um retrato eloquente das tensões que caracterizam a geopolítica do século 21.
Fonte: jornal.usp.br
