Inovação Brasileira: Vacina Experimental de Chikungunya da USP Utiliza Engenharia Genética e Pode Se Tornar Plataforma Contra Múltiplas Doenças Virais
Desenvolvida em parceria com a Universidade de Bonn, a tecnologia se mostrou segura e eficiente em testes iniciais, com potencial para combater outros arbovírus, como o Zika, e ser aplicada em todas as faixas etárias.
Pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP), em colaboração com a Universidade de Bonn na Alemanha, desenvolveram uma vacina experimental promissora contra o vírus CHIKV, causador da febre chikungunya. Diferente dos imunizantes atuais, que empregam vírus atenuados, este protótipo utiliza técnicas de engenharia genética para remover o material genético responsável por causar a infecção. Em testes realizados com camundongos, o sistema imunológico respondeu positivamente em todos os casos, sugerindo que a vacina é segura para diversas faixas etárias, incluindo crianças, idosos e pacientes imunocomprometidos.
A chikungunya, registrada pela primeira vez no Brasil em 2014, tornou-se endêmica na região, com mais de 125 mil casos no país no ano passado, segundo o Painel de Monitoramento de Arboviroses do Ministério da Saúde. A única vacina disponível atualmente no Brasil é indicada para pessoas entre 18 e 59 anos, evidenciando a necessidade de soluções mais abrangentes.
Uma Nova Abordagem na Vacinação
O pesquisador Danillo Esposito, primeiro autor do estudo e membro da Faculdade de Ciências Farmacêuticas de Ribeirão Preto (FCFRP) da USP, explicou que a proposta da vacina visa bloquear a maturação viral, processo que torna o vírus infeccioso. No caso da chikungunya, essa maturação ocorre através da protease furina, que “corta” proteínas da superfície do vírus, permitindo que ele se ligue e infecte as células.
A grande inovação da pesquisa, publicada na revista científica NPJ Vaccines, reside na modificação do material genético do CHIKV. Os cientistas substituíram o sítio de clivagem da furina – a origem da infectividade – por um sítio de protease do vírus do mosaico do tabaco (TMV). A vantagem do TMV é que ele infecta apenas plantas, não animais, impedindo a maturação natural do vírus no hospedeiro humano ou animal. “Começamos a trabalhar com um vírus que não podia mais amadurecer, exceto através da protease TMV. Descobrimos que é uma excelente plataforma não apenas para vacinas, mas também para estudos de infectividade viral”, afirmou Esposito.
Segurança e Eficácia Comprovadas
Os testes em camundongos, que são suscetíveis a infecções virais e sucumbem rapidamente à doença, demonstraram resultados promissores. Foram utilizados animais com três semanas de idade, cujo sistema imunológico ainda não estava totalmente formado, similar ao de crianças, para testar a segurança em diferentes idades. Todos os camundongos vacinados sobreviveram após serem infectados com o vírus selvagem (sem a mutação), enquanto 100% do grupo controle, que não recebeu a vacina, morreu em três dias. A vacinação também reduziu a viremia e o edema nas patas causados pelo CHIKV.
Ao contrário das vacinas atenuadas, que utilizam uma versão enfraquecida do vírus e podem, em casos raros, causar a doença, a plataforma desenvolvida pela USP não apresenta esse risco. O fragmento que causa a infecção foi substituído, e o vírus modificado passa por apenas uma rodada de replicação no hospedeiro. Isso impede a disseminação do vírus e garante a produção de partículas não infecciosas que servem apenas como antígenos para estimular a produção de anticorpos.
O Mecanismo por Trás da Inovação
O processo ocorre quando o vírus modificado é colocado in vitro com a protease TMV e amadurece em um ambiente controlado. A replicação visa garantir uma resposta imune robusta e a presença de todas as proteínas virais. Esposito destaca a segurança ocupacional: “Se um mosquito Aedes aegypti picar alguém que recebeu esta vacina, o vírus não amadurecerá dentro do mosquito. Isso torna a vacina 100% segura”. Além disso, a quantidade de anticorpos formados pelo vírus tratado foi cerca de nove vezes maior do que a formada pelo vírus não tratado, indicando uma resposta imune mais potente.
Plataforma para o Futuro
A técnica apresentada no estudo não é apenas uma vacina candidata promissora contra a chikungunya, mas também uma nova plataforma para o desenvolvimento de vacinas virais. “O que temos agora é uma proposta de vacina candidata que funciona muito bem e pode ser aplicada a vários outros vírus com o mesmo processo de maturação, que é a parte mais importante”, ressaltou o pesquisador.
O próximo passo do grupo é testar o mesmo mecanismo no vírus Zika. Embora sua circulação esteja menos intensa atualmente, Esposito enfatiza a importância de estar preparado para futuras epidemias, especialmente com uma vacina pronta para mulheres grávidas. A pesquisa demonstra um avanço significativo no campo da vacinologia, oferecendo uma abordagem inovadora e mais segura para o combate a doenças virais emergentes e reemergentes.
Fonte: jornal.usp.br
