A escravidão deixou um legado profundo que se estendeu muito além de sua abolição formal, impactando diretamente as oportunidades de trabalho para a população negra no Brasil. É o que mostram dados preliminares do projeto de pesquisa “Quando o interior conta”, que investiga documentos históricos em propriedades rurais do final do século 19 até meados do século 20.
Coordenada pelos professores Bruno Gabriel Witzel de Souza, da Faculdade de Economia, Administração, Contabilidade e Atuária (FEA-USP), e Thales Augusto Zamberlan Pereira, da Escola de Economia de São Paulo da Fundação Getúlio Vargas (FGV-EESP), a iniciativa aponta que o baixo crescimento demográfico e as elevadas taxas de mortalidade infantil entre negros contribuíram significativamente para sua exclusão do mercado de trabalho rural pós-abolição.
Desvendando o Passado Rural
O projeto “Quando o interior conta” mergulha em acervos de sete fazendas e núcleos coloniais localizados no Estado de São Paulo e na porção fluminense do Vale do Paraíba. O objetivo é compreender a consolidação do trabalho livre no campo e como ele se desenvolveu ao longo do século 20, até as décadas de 1950 e 1970.
Segundo Thales Augusto, as evidências coletadas indicam uma dinâmica de mercado de trabalho mais complexa do que se imaginava. “Temos algumas evidências de que existiam fazendas que usavam o trabalhador imigrante e o trabalhador nacional, que potencialmente era um ex-escravizado. Não foi simplesmente um grupo que entrou e outro que saiu, como aprendemos anteriormente”, explica o pesquisador.
Mortalidade Infantil e Desigualdade Estrutural
Para montar o “quebra-cabeça” da situação social de brancos e negros no período pós-abolição, os pesquisadores utilizam a taxa de mortalidade infantil como uma métrica crucial. Os dados revelam uma disparidade alarmante.
“As taxas de mortalidade, especialmente a infantil, das crianças negras eram absurdamente maiores que as das crianças brancas. Estamos vendo um reflexo do passado, e a pergunta que fazemos é se isso ocorreu pela falta de oportunidade, ou fatores estruturais, por exemplo”, questiona Thales Augusto. A análise busca testar hipóteses sobre a escravidão e o pós-abolição que ainda carecem de confirmação por meio de dados.
Barreira Demográfica e Desvantagem Histórica
Bruno Gabriel destaca dois grandes empecilhos para o desenvolvimento da população negra após a abolição: a dificuldade de entrada no mercado de trabalho e o aspecto demográfico. As famílias negras eram, em média, menores, o que representava uma desvantagem significativa em um contexto onde o trabalho rural dependia da mão de obra familiar.
“Os negros tinham uma desvantagem histórica por conta da escravidão, e as famílias italianas eram formadas, em média, por seis a sete pessoas e suas crianças, a partir dos 5 ou 7 anos, começavam a ser empregadas nos cafezais. Já as famílias negras eram formadas por três pessoas, em média, e esse era um ponto importante na época”, comenta Bruno.
Resgate e Disponibilização de Documentos Históricos
O projeto, financiado pelo programa Modern Endangered Archives da Biblioteca da Universidade da Califórnia (UCLA), tem como meta resgatar, preservar e disponibilizar gratuitamente e online antigos documentos das propriedades. Essa iniciativa busca coletar microdados para aprofundar o estudo da história econômica e social do período.
Uma das bases do “Quando o interior conta” é um projeto anterior de 2019, que resultou na criação de um arquivo físico e digital da Fazenda Ibicaba, em Cordeirópolis (SP) – a primeira a empregar trabalhadores europeus de forma sistemática. O material da Fazenda Ibicaba já está disponível para consulta online.
Os pesquisadores reforçam a importância de estudar a escravidão, a imigração e o pós-abolição a partir do indivíduo, e não apenas em nível municipal. Eles convidam proprietários rurais e pessoas que possuam documentação histórica no interior do Brasil a contatá-los, ressaltando que mesmo um único livro contábil pode ser uma peça valiosa para esse complexo quebra-cabeça histórico.
Fonte: jornal.usp.br
