A música é uma constante em nosso dia a dia, moldando personalidades e culturas. Contudo, seus impactos transcendem o aspecto cultural, oferecendo benefícios significativos para a saúde mental e física em todas as idades. Christian Dunker, professor do Departamento de Psicologia Clínica do Instituto de Psicologia da USP, detalha como a música se estrutura e influencia o corpo humano.
A Essência da Música: Letra e Musicalidade
Segundo Dunker, na cultura brasileira, a música possui uma forte conexão com duas formas de linguagem: a letra e a musicalidade. A letra remete à poesia e ao conteúdo discursivo, enquanto a musicalidade, presente em obras instrumentais ou eruditas, nos priva de uma representação verbal direta. Nesse último caso, somos nós que atribuímos palavras e emoções, traduzindo sentimentos e articulando a musicalidade com nossa história pessoal.
“Esse processo de junção entre música e letra, que parece simplesmente uma técnica composicional, tem um correlato psíquico, é a forma como juntamos os aspectos negativos da linguagem, negativos no sentido de sentido, daquilo que é fonema, que é pré-semântico, que é agramatical, que rompe com as regras da conversação. É a forma como conectamos o campo do assemântico com o campo dos sentidos”, explica o professor.
O Gosto Pessoal como Guia e a Historicidade dos Gêneros
O professor Dunker enfatiza que o gênero musical em si não é o fator determinante para os impactos benéficos. O que realmente importa é o gosto musical da pessoa. “Os gêneros musicais têm uma relação imensa com a gênese dos afetos, do prazer e a combinação de prazer e representação”, afirma. Ele ressalta que os gêneros são históricos, criados e recriados ao longo do tempo, sem uma evolução linear. Gêneros antigos são tão relevantes quanto os contemporâneos; o que muda é a nossa percepção e relação com eles.
O Poder Transformador da Música na Criação e Interação Social
Para aqueles que se envolvem ativamente com a música — compondo, cantando ou tocando um instrumento — os benefícios podem ser ainda mais profundos. “O ato de compor e de se expor à música, de cantar, principalmente cantar junto com o outro, num madrigal, coral, interação social ou religiosa, por exemplo, têm um efeito vinculador e um efeito transformativo muito importante”, destaca Dunker. Ele aponta que até mesmo a fala, com sua entonação, prosódia e sotaques, possui uma musicalidade que interfere em nossas relações.
Música como Fonte de Prazer e Regulador de Humor
A música mobiliza, de forma conjunta, diversas experiências com grande valor psíquico. O mais evidente é que a música é uma fonte de prazer. Como uma experiência estética, ela é crucial para a organização do nosso humor. “A maneira como a gente se organiza a partir do prazer ou do desprazer, se a gente pensa no trito, no medieval, ela é um ponto-chave do nosso humor. Os processos depressivos ou os processos maníacos, por exemplo, têm uma musicalidade própria”, conclui o professor, sublinhando o papel fundamental da música na regulação emocional e no bem-estar psicológico.
Fonte: jornal.usp.br
