A expectativa de vida de uma pessoa é moldada por uma complexa teia de fatores, conforme aponta a Organização Mundial da Saúde (OMS). Além de aspectos como local de moradia, comunidade, escolaridade, etnia, raça, gênero e deficiências, a organização reconhece que a diferença de até 33 anos na esperança de vida entre países não se resume apenas à renda. Essa complexidade levou à expansão do conceito para incluir determinantes ambientais, comerciais e, mais recentemente, os determinantes geopolíticos da saúde.
Essa nova expressão visa chamar a atenção para a profunda influência de dados geográficos, políticas, eventos internacionais, interesses de Estados e suas relações recíprocas na saúde pública. Embora a intersecção entre geopolítica e saúde não seja uma novidade – com cátedras dedicadas ao tema desde 2013, como a de Dominique Kerouedan no Collège de France –, a ideia de determinantes geopolíticos da saúde funciona como uma provocação à comunidade científica, à diplomacia e aos gestores. O objetivo é explorar os impactos da inquietante atualidade internacional sobre a saúde coletiva, um campo que, por vezes, carece de atenção devida tanto nas relações internacionais quanto na própria saúde pública.
Guerras e Migrações: A Geopolítica por Trás da Crise da Poliomielite
Um exemplo gritante da influência geopolítica é a emergência de saúde pública internacional da poliomielite, declarada em maio de 2014 e ainda em vigor. A persistência dessa doença, que poderia ter sido erradicada, é atribuída diretamente aos conflitos armados. Guerras destroem ou fragilizam sistemas de saúde em diversos países, especialmente programas de imunização, permitindo que a pólio continue a se propagar. Além das vítimas diretas de bombardeios e ataques, os conflitos aniquilam a esperança de vida e a saúde de formas menos visíveis, traçando a propagação de doenças tanto nas regiões de conflito quanto fora delas.
A questão da migração também se insere neste contexto. Restrições formais de fronteira, muitas vezes, não impedem o movimento de pessoas em busca de sobrevivência, mas incentivam o ingresso irregular, que depaupera indivíduos e famílias. A melhor forma de proteger um país é permitir a entrada regular, prestando assistência e acompanhando o percurso dos migrantes por meio da vigilância em saúde. No Brasil, o Sistema Único de Saúde (SUS) atua como um bastião de segurança nacional ao garantir acesso à saúde para todos em território brasileiro, independentemente da nacionalidade.
Cortes de Financiamento e Influências Externas: A Vulnerabilidade da Saúde Nacional
A guerra, contudo, não é o único determinante geopolítico. Um estudo recente publicado na revista Lancet Global Health, com a brasileira Andrea Ferreira da Silva como primeira autora, projetou que cortes contínuos no financiamento para a cooperação internacional podem resultar em milhões de mortes adicionais até 2030, incluindo crianças menores de cinco anos. Em um cenário de cortes expressivos, esse número pode chegar a 22,6 milhões.
Internamente, o setor de saúde de muitos países é determinado por oscilações do mercado internacional e interesses econômicos estrangeiros. A importação, por vezes acrítica, de visões de mundo, agendas, prioridades e métodos externos pode influenciar normas e atores nacionais, nem sempre em prol da proteção da vida e da saúde. Além disso, alianças internacionais conservadoras produzem repercussões nefastas, ameaçando a vida e a saúde de mulheres e da população LGBTQIAPN+, e difundindo xenofobia e discriminação étnico-racial.
O Declínio Multilateral e o Futuro da Saúde Global: Uma Chamada à Reflexão
Embora a saúde venha perdendo espaço na agenda multilateral, em um cenário de declínio do próprio multilateralismo, o futuro da saúde de cada país e de cada indivíduo está cada vez mais atrelado ao que acontece no mundo. Uma chamada de artigos da revista BMJ para pesquisadores em relações internacionais e ciências sociais e humanas aplicadas à saúde propõe questões cruciais para o debate:
- Como as ideologias populistas estão moldando sistemas, políticas e parcerias globais de saúde?
- Novos modelos de financiamento podem reduzir a dependência de ajuda e os efeitos do neocolonialismo, além de incrementar a liderança em saúde de países de baixa e média renda?
- Os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU estão mortos? Qual seria a agenda pós-ODS?
- Como a diplomacia pode forjar novas alianças, mais equitativas, na governança da saúde?
- De que forma os compromissos com a igualdade de gênero e outras formas de equidade podem ser protegidos diante dos movimentos antiglobalização e contra os direitos humanos?
A Importância da Perspectiva do Sul Global na Governança da Saúde
É evidente que a dimensão internacional não é intrinsecamente negativa ou positiva, mas um espaço de disputas e de solidariedades. A reflexão proposta busca trazer à tona a urgência de reconhecer e agir sobre esses determinantes. Há uma expectativa de que as perspectivas do Sul Global, em particular da América do Sul e do Brasil, ocupem um espaço de destaque nesse debate, contrariando o encurtamento causado tanto pelo imperialismo quanto pela desesperança, e contribuindo para uma governança da saúde mais equitativa e eficaz.
Fonte: jornal.usp.br
