De 780 Mil Anos: Cristais Podem Ter Despertado na Humanidade a Reflexão sobre o ‘Além’, Sugere Nova Pesquisa
Estudos com chimpanzés mostram fascínio inato por minerais transparentes e de formas únicas, ecoando o interesse de ancestrais humanos por objetos sem uso prático aparente.
A atração humana por cristais, que remonta a pelo menos 780 mil anos, pode ter um significado muito mais profundo do que a mera estética. Uma nova pesquisa, que combinou evidências arqueológicas com experimentos inovadores com chimpanzés, sugere que o fascínio por esses minerais únicos pode ter sido um catalisador para a evolução cognitiva humana, inspirando nossos ancestrais a pensar sobre conceitos que transcendem o mundo físico, como o “além”.
Cientistas de universidades da Espanha e do Brasil conduziram experimentos com chimpanzés no Centro de Resgate de Primatas de Rainfer, em Madri, para entender melhor essa predileção. Os resultados, publicados na revista Frontiers em março de 2021, revelaram que os primatas dedicaram tempo significativo e cuidado especial à manipulação dos cristais. Em um dos casos mais notáveis, um chimpanzé chegou a levar um cristal de mais de três quilos para seu dormitório, só o devolvendo após uma negociação com cuidadores que envolvia alimentos valiosos.
O Fascínio dos Primatas e a Antiguidade Humana
A impossibilidade de testar diretamente nossos ancestrais levou os pesquisadores a uma abordagem comparativa, utilizando chimpanzés. O primeiro autor do estudo, Juan Manuel García Ruiz, geólogo do Donostia International Physics Center (DIPC), explica que o interesse pela pesquisa surgiu de evidências líticas do Pleistoceno, datadas de quase 800 mil anos. Cristais encontrados nessas ocupações humanas não apresentavam modificações, indicando que não foram usados como ferramentas, armas ou adornos, mas sim coletados por seu valor intrínseco. “Estudos arqueológicos mostram que o Homo erectus coletava cristais, assim como os neandertais e o Homo sapiens, posteriormente. Nossos experimentos demonstram que a mente de outros hominídeos, os chimpanzés, também é capaz de distinguir e apreciar as propriedades dos cristais”, afirma Ruiz.
Os pesquisadores acreditam que a descoberta dos cristais teve um papel relevante na evolução cognitiva, ao promover a percepção de formas e padrões “para além do mundo natural imediato”. Isso inclui o reconhecimento da transparência em objetos sólidos – um fenômeno até então associado apenas à água – e a singularidade morfológica dos cristais, com suas linhas retas e superfícies planas, algo raríssimo na natureza. Irene Delval, psicóloga e antropóloga do Instituto de Psicologia (IP) da USP, acrescenta que, embora o colecionismo de objetos singulares sem utilidade aparente possa estar ligado à ideia de propriedades mágicas ou poderes “além da vida”, é possível que as características físicas dos objetos simplesmente chamem a atenção de forma diferenciada.
O Tesouro de Manuela: O Primeiro Experimento
O primeiro experimento envolveu nove chimpanzés, divididos em dois grupos. Dois pedestais idênticos foram instalados, cada um com uma pedra: um grande cristal de quartzo transparente e uma pedra de arenito, ambos com cerca de 34 centímetros. Embora os pedestais estivessem no santuário há meses para minimizar o efeito da novidade, os chimpanzés se empenharam intensamente para remover as pedras.
No grupo Manuela, o chimpanzé Yvan conseguiu remover o arenito, mas o deixou no chão após 38 minutos, sem que nenhum outro animal demonstrasse grande interesse. Já o cristal de quartzo cativou todos os cinco chimpanzés do grupo. Manuela, a fêmea alfa, conseguiu removê-lo e brincou sozinha com ele. Posteriormente, Yvan e Yaki manusearam o cristal com curiosidade e cuidado. Yvan levou o cristal para dentro do dormitório do grupo, onde permaneceu por dois dias até ser recuperado por cuidadores, que ofereceram guloseimas como bananas e iogurte em troca, evidenciando o valor que o objeto tinha para os animais.
A Escolha Inconfundível: O Segundo Experimento
O segundo experimento buscou confirmar a capacidade dos chimpanzés de diferenciar cristais de outras pedras. O grupo Manuela recebeu uma pilha de pedras diversas, enquanto o grupo Gombe foi exposto a pedras comuns e três tipos de cristais com diferentes níveis de transparência (quartzo, calcita e pirita).
Os chimpanzés do grupo Manuela selecionaram exclusivamente os cristais, deixando seixos e pedregulhos para trás. Vídeos registraram Guillermo guardando os cristais na boca – um comportamento incomum que reforça o valor atribuído aos minerais. Yvan foi observado inspecionando um cristal de 3,5 cm por mais de 15 minutos, aproximando-o dos olhos. Inicialmente, pensou-se que ele poderia ser míope, mas a equipe médica do santuário confirmou sua visão normal; ele estava, na verdade, curioso para enxergar através do cristal. Os chimpanzés continuaram a analisar os cristais dentro dos dormitórios, posicionando-se perto das janelas para observá-los contra a luz.
No grupo Gombe, a chimpanzé Sandy recolheu todos os itens, mas depois os organizou em dois conjuntos distintos: um com pedras comuns e outro com cristais, independentemente de sua transparência, sugerindo um reconhecimento baseado na semelhança geométrica.
Além da Curiosidade: Implicações e Futuro
“Os resultados dos dois experimentos nos dizem que a atração pelos cristais vai além da mera novidade”, conclui Juan Manuel García Ruiz. “Agora sabemos que esses objetos euclidianos únicos nos cativaram há 800 mil anos e podem ter influenciado nossa compreensão do mundo mais do que imaginávamos.”
Embora a beleza e as propriedades físicas dos cristais sejam inegáveis, os pesquisadores ressaltam que não há evidências científicas que sustentem crenças sobre propriedades curativas ou energéticas. Para aprofundar a investigação, eles planejam adaptar os experimentos para animais em vida livre, buscando confirmar que a única “vibração” emanada pelos cristais, fora da eletricidade e da ótica, é o fascínio estético que hipnotiza tanto humanos quanto chimpanzés. Irene Delval finaliza: “A mente humana evoluiu por muitos milhões de anos para obter respostas, mas, na maioria das vezes, as explicações mais simples não são as certas.”
Fonte: jornal.usp.br
