Infertilidade Afeta Milhões: Como a Falta de Acesso a Tratamentos no SUS Prejudica a Saúde Mental e a Qualidade de Vida de Casais no Brasil
No Junho Laranja, especialistas da USP alertam para os profundos impactos psicossociais da infertilidade e a urgente necessidade de políticas públicas que garantam acesso à reprodução assistida no Sistema Único de Saúde.
Junho é o Mês de Conscientização sobre a Infertilidade e a Saúde Reprodutiva, o Junho Laranja, que busca jogar luz sobre uma condição médica complexa e muitas vezes negligenciada. A infertilidade é definida como a ausência de concepção após 12 meses ou mais de atividade sexual desprotegida, conforme explica a professora Paula Andréa de Albuquerque Salles Navarro, do Departamento de Ginecologia e Obstetrícia da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) da USP.
Mais do que uma questão reprodutiva, a infertilidade tem um impacto psicológico profundo. “Para aquele casal que tem como um dos objetivos de vida constituir família, ter filhos, a incapacidade de concepção está associada não apenas com os sintomas que podem estar relacionados com as doenças que causam a infertilidade, mas também esses casais têm maiores níveis de ansiedade, de sintomas depressivos, o que pode comprometer de forma bastante significativa a sua qualidade de vida”, alerta a professora.
A Infertilidade e Seus Múltiplos Desafios
O conceito de infertilidade tem se ampliado, reconhecendo que a necessidade de recorrer à reprodução assistida se estende a diversas configurações familiares, incluindo casais fora da heterocisnormatividade. A condição pode ser primária, quando a mulher nunca engravidou, ou secundária, após uma gestação prévia que não evoluiu para o nascimento de uma criança viva.
As causas da infertilidade são diversas, divididas em fatores femininos, masculinos e combinados, com cerca de 20% a 30% dos casos sem identificação clara. Entre as causas femininas mais frequentes estão os distúrbios ovulatórios (como a Síndrome dos Ovários Policísticos), doenças que comprometem as trompas uterinas, endometriose, adenomiose e fatores uterinos como miomas e pólipos. Já as causas masculinas podem ser pré-testiculares, testiculares ou pós-testiculares/obstrutivas.
Barreiras no Acesso à Reprodução Assistida
A reprodução assistida, que engloba tratamentos de baixa (indução de ovulação, inseminação intrauterina) e alta complexidade (fertilização in vitro), é frequentemente a esperança para muitos casais. No entanto, o alto custo desses procedimentos cria uma barreira significativa.
Paula Navarro destaca que “não existe uma política de reprodução assistida incorporada ao Sistema Único de Saúde (SUS)”. Apesar de o Hospital das Clínicas da FMRP ter sido pioneiro com seu Setor de Reprodução Assistida em 1992, existem apenas outros dez centros públicos de reprodução assistida em todo o Brasil, segundo o Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA Brazil).
O professor Rui Ferriani, também da FMRP da USP, enfatiza a dificuldade: “a gente compete com verbas dentro de um hospital terciário, como o HC, com, obviamente, grandes prioridades como oncologia, cardiologia, enfim, todas as outras doenças. Mas a gente luta sempre pelo reconhecimento da infertilidade como doença e de que o tratamento da reprodução assistida possa estar disponível para uma boa parte da população”.
Prevenção, Diagnóstico e a Urgência da Idade
Além das causas intrínsecas, existem fatores preveníveis de infertilidade, como infecções sexualmente transmissíveis (ISTs), a idade avançada para a concepção (mulheres antes dos 35, homens antes dos 40) e hábitos de vida, como manter um peso saudável através de alimentação equilibrada e atividade física regular.
O diagnóstico da infertilidade é crucial e deve considerar a idade. Para mulheres com menos de 35 anos, a investigação básica começa após 12 meses de tentativas. Entre 35 e 40 anos, esse período reduz para seis meses. Para pacientes com 40 anos ou mais, a investigação deve ser imediata, dada a diminuição das chances de gestação natural e nos procedimentos de reprodução assistida com o avanço da idade.
A Luta por Reconhecimento e Justiça Social
A universidade e os centros de reprodução assistida públicos desempenham um papel vital na conscientização de autoridades e gestores para que o SUS assuma uma política de reprodução. “E, ao não conseguirmos atender à demanda da população que nos procura, nós estamos cometendo uma injustiça social, deixando de atender pessoas que poderiam se beneficiar dessa forma de tratamento”, afirma o professor Ferriani.
A Portaria de 2005, que reconhecia a infertilidade como doença e os centros de atenção terciária, foi revogada, evidenciando a persistente lacuna legislativa. A ampliação do acesso não só aliviaria o sofrimento de milhões de casais, mas também contribuiria para a formação de mais especialistas no país, um legado importante do trabalho de instituições como o Hospital das Clínicas.
Fonte: jornal.usp.br
