Radiografia da Ciência Nacional: O Que o Cruzamento de Dados Globais e a Plataforma Lattes Revela sobre os Desafios e o Futuro da Pesquisa no Brasil

Um estudo recente, publicado por pesquisadores da USP e UFTM, mergulhou fundo na produção científica brasileira, cruzando dados de um banco de dados internacional de cientistas influentes com as informações da Plataforma Lattes, a maior base de currículos acadêmicos do país. O objetivo não foi apenas listar os “campeões” individuais, mas sim traçar um panorama amplo da ciência nacional, identificando desafios e apontando caminhos para o futuro da pesquisa no Brasil. Os primeiros resultados são notáveis e revelam aspectos cruciais.

Participação Aquém do Potencial e Concentração Temática

A análise inicial destaca uma discrepância significativa: enquanto o Brasil representa cerca de 2,7% da população mundial, sua participação entre os pesquisadores mais influentes do mundo é bem menor, variando de 0,43% (desde 1960) a 0,577% (no período de 2019-2023). Isso sugere que a influência científica brasileira está aquém do que seria esperado para um país de seu porte.

Além da baixa representatividade geral, o estudo aponta uma forte concentração da produção científica em poucas áreas. Das 20 grandes áreas avaliadas, três não contam com pesquisadores brasileiros listados. Em um recorte mais fino, das 174 subáreas, mais de 100 possuem um número expressivamente pequeno ou nenhum pesquisador do Brasil. Cerca de 75% dos cientistas brasileiros mais influentes estão concentrados em apenas seis grandes áreas: Medicina Clínica, Química, Tecnologias Estratégicas, Física e Astronomia, Biologia e Engenharia.

Essa concentração gera situações curiosas. Apesar de o Brasil possuir uma vasta costa e uma biodiversidade marinha extraordinária, não há representantes entre os pesquisadores altamente citados em Oceanografia. O mesmo acontece na área de Projetos e Engenharia Automotiva, mesmo sendo o país um dos maiores produtores de veículos globalmente.

Desigualdades Geográficas e o Poder do Sudeste

As desigualdades não se limitam às áreas do conhecimento; elas se refletem também no mapa do Brasil, acompanhando as históricas disparidades geográficas. Aproximadamente 65% dos pesquisadores brasileiros mais influentes estão na Região Sudeste, seguidos por 17,6% na Região Sul, cerca de 10% no Nordeste, 4,4% no Centro-Oeste e apenas 2% na Região Norte. Essa distribuição permanece praticamente inalterada tanto no período de 1960 a 2023 quanto nos últimos cinco anos.

Essa concentração acompanha de perto outro indicador: a economia. Mais da metade do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro está nos estados de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais, e aproximadamente dois terços dos pesquisadores estão nesses mesmos estados. São Paulo se destaca ainda mais, respondendo por cerca de 30% do PIB nacional, mas concentrando mais de 40% dos pesquisadores influentes. Esse protagonismo paulista é atribuído não apenas a fatores econômicos, mas também a uma tradição de investimento contínuo em ciência e tecnologia, como a criação da Fapesp na década de 1960, com recursos garantidos pela Constituição estadual. São Paulo é a única unidade federativa onde mais da metade dos pesquisadores listados não está na capital, com instituições localizadas no chamado “corredor tecnológico” do estado.

O Pilar Público da Ciência Brasileira

Outro dado relevante é que mais de 90% dos pesquisadores brasileiros listados estão vinculados a instituições públicas. Esse número contrasta fortemente com o Censo da Educação Superior de 2024, que revela que, das 2.561 instituições de educação superior no país, 2.244 são privadas e apenas 317 são públicas. Isso sugere que a rápida expansão das instituições privadas desde meados da década de 1990 não foi acompanhada por um aumento equivalente na quantidade e qualidade da produção científica de maior impacto.

Os resultados indicam que fatores presentes nas universidades públicas, como maior número de docentes com doutorado, programas de pós-graduação consolidados, financiamento para pesquisa, infraestrutura robusta e redes internacionais de colaboração, continuam sendo cruciais para a produção científica de destaque. Com raras exceções, as instituições públicas também abrigam a maioria dos bolsistas de Produtividade em Pesquisa (PQ) do CNPq; o estudo mostrou que quase três quartos dos pesquisadores brasileiros listados são bolsistas PQ, reforçando uma forte correlação entre esses indicadores.

Desafios para a Visibilidade e o Impacto Global

Quando comparado com a América do Sul, o Brasil se posiciona como uma potência científica regional. No entanto, o cenário muda drasticamente ao se comparar com países de maior renda por habitante e melhores índices de desenvolvimento humano. A distância é evidente em relação a nações como Estados Unidos, China, Alemanha e Japão, mas também em relação a países com população e PIB muito menores, como Suíça, Suécia ou Nova Zelândia.

Esses resultados levantam uma questão fundamental: o desafio da ciência brasileira pode não ser apenas produzir mais artigos, mas criar condições para ampliar seu impacto, diversidade, visibilidade e inovação. Para isso, são passos importantes reduzir as desigualdades regionais, ampliar investimentos de longo prazo, fortalecer as instituições de pesquisa, incentivar áreas estratégicas e aumentar as colaborações nacionais e internacionais.

Além disso, é preciso enfrentar barreiras menos visíveis, como a língua, que ainda representa um desafio em algumas áreas do conhecimento. Pesquisadores do chamado Sul Global, onde o Brasil se insere, frequentemente enfrentam dificuldades adicionais para alcançar reconhecimento internacional. Nos últimos anos, diversas iniciativas internacionais, como a DORA (Declaration on Research Assessment), CoARA (Coalition for Advancing Research Assessment), o Manifesto de Leiden e a Iniciativa de Helsinque sobre Multilinguismo na Comunicação Acadêmica, vêm propondo formas mais amplas e justas de avaliar a ciência, buscando reduzir vieses e tornar a comunicação científica mais inclusiva. No fim das contas, a pergunta mais importante talvez não seja apenas “quantos artigos o Brasil publica?”, mas “que ciência queremos construir para o futuro do País?”.

Fonte: jornal.usp.br

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