Com o notável aumento da expectativa de vida no Brasil, a preocupação com a qualidade do envelhecimento se torna cada vez mais premente. Nesse cenário, o médico geriatra emerge como figura central, responsável por um acompanhamento integral da pessoa idosa, que transcende a simples gestão de doenças e abraça aspectos físicos, emocionais, sociais e funcionais.
A geriatra e professora associada da Faculdade de Medicina da USP, Cláudia Suemoto, explica que a função do especialista é coordenar o cuidado, especialmente em casos complexos que envolvem múltiplas condições e tratamentos. “A ideia é que o geriatra consiga acompanhar as pessoas idosas, principalmente aquelas de alta complexidade, integrando o cuidado e tendo mais experiência nas doenças mais comuns nessa fase da vida”, afirma.
A Geriatria: Uma Especialidade Essencial e Abrangente
Embora comemorando recentemente 65 anos da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia e a criação do serviço de geriatria do Hospital das Clínicas da USP em 1982, a geriatria ainda é considerada uma especialidade relativamente jovem. A formação de um geriatra exige dedicação intensa: seis anos de graduação em medicina, seguidos por mais quatro anos de residência médica, somando uma década de treinamento especializado.
Esse extenso preparo capacita o profissional a lidar com as chamadas síndromes geriátricas, condições frequentemente associadas ao envelhecimento. Entre elas, destacam-se a sarcopenia (perda de massa e força muscular), a fragilidade (que eleva o risco de quedas e limitações funcionais) e as demências. “A pessoa não é apenas um conjunto de doenças. Ela tem um histórico de vida, preferências e expectativas sobre como deseja viver daqui para frente. Tudo isso faz parte do cuidado geriátrico”, ressalta a médica, sublinhando a abordagem humanizada da especialidade.
A Prevenção Começa Muito Antes da Terceira Idade
Um dos alertas mais importantes de Cláudia Suemoto é que os cuidados para um envelhecimento saudável devem ser iniciados bem antes dos 60 anos. Embora o acompanhamento geriátrico seja formalmente recomendado a partir dessa idade, a médica esclarece que muitas doenças ligadas ao envelhecimento começam a se desenvolver décadas antes dos primeiros sintomas aparecerem.
A demência serve como um exemplo claro: os sinais clínicos geralmente surgem após os 65 ou 70 anos, mas as alterações cerebrais e os fatores de risco podem estar presentes 20 a 30 anos antes. O mesmo padrão é observado em doenças cardiovasculares, como o infarto agudo do miocárdio e o acidente vascular cerebral (AVC), que são resultados de processos que progridem lentamente ao longo da vida. Por essa razão, hábitos saudáveis e um acompanhamento médico contínuo são fundamentais para mitigar riscos futuros.
A Importância do Acompanhamento Médico Contínuo
A geriatra também enfatiza a necessidade de manter um acompanhamento médico regular e ininterrupto. Dada a natureza crônica e degenerativa de muitas doenças relacionadas ao envelhecimento, o tratamento frequentemente foca no monitoramento e controle dos sintomas, e não necessariamente na cura. A frequência das consultas pode variar conforme as condições de saúde de cada paciente, mas a continuidade permite a identificação precoce de alterações clínicas e a adoção de intervenções mais eficazes.
Conhecer profundamente o histórico do paciente – incluindo doenças preexistentes, medicamentos em uso, capacidade funcional e estado cognitivo – faz uma diferença substancial na qualidade do atendimento. Para a especialista, o geriatra se estabelece como uma referência vital para a pessoa idosa e sua família, contribuindo ativamente para a prevenção de complicações, a manutenção da autonomia e a promoção de uma melhor qualidade de vida. “O envelhecimento exige uma visão ampla da saúde. O trabalho do geriatra vai além do tratamento de doenças e busca oferecer um cuidado humanizado, individualizado e centrado nas necessidades de cada pessoa”, conclui Cláudia Suemoto.
Fonte: jornal.usp.br
