No Brasil de 1964, após o golpe de 31 de março, o General Costa e Silva personificava a vigilância atenta sobre o novo regime. Mais do que o presidente ou os ministros, ele se via como o guardião moral de um processo que, em sua visão, remetia à Guerra do Paraguai e a um acúmulo de crises e conspirações históricas. A imprensa da época refletia essa convicção, moldando o espírito do tempo e justificando um estado de coisas marcado por eventos robustos e dramáticos, que afetavam estruturas, circunstâncias e dramas pessoais. Um desses dramas veio à tona em 8 de maio de 1964, com a revelação da prisão de Milton de Almeida Santos (1926-2001).
A Notícia que Chocou a Bahia
O jornal Correio da Manhã, em destaque, informava que o professor universitário, presidente da Comissão de Planejamento do Estado da Bahia, diretor do Gabinete de Geomorfologia da Universidade da Bahia, catedrático e jornalista no vespertino A Tarde, estava detido havia 28 dias em Salvador. A manchete “Detenção suscita surpresa na Bahia” detalhava que Milton Santos se apresentara ao comandante da 6ª Região Militar, General Mendes Pereira, após saber que seu nome constava em uma lista de detenção. Desde 4 de abril, ele estava recolhido no Quartel do Cascão, sede do 19º Batalhão de Caçadores, onde permaneceu incomunicável por um tempo, só depois tendo permissão para uma visita semanal.
A prisão causou perplexidade nos meios culturais baianos. As especulações sobre os motivos eram várias: sua atuação como jornalista e presidente da Associação Brasileira de Escritores na Bahia, suas constantes viagens internacionais (principalmente França, onde doutorou-se em Letras, e África, não a Cortina de Ferro), e sua passagem como chefe do Sub Gabinete Civil da Presidência na Bahia durante o governo de Jânio Quadros. Contudo, a matéria ressaltava que Milton Santos era apolítico, jamais tendo concorrido a cargos eletivos – exceto na universidade, quando foi líder estudantil contra a infiltração comunista na UNE. Escritores, jornalistas e universitários baianos se mobilizaram para esclarecer a situação, buscando intervenção junto ao ministro Milton Campos.
De Brotas de Macaúbas à Academia
Nascido em 3 de maio de 1926, na Chapada Diamantina, Bahia, Milton Santos cresceu em Itapira e foi alfabetizado em Alcobaça. Aos 10 anos, mudou-se para Salvador. Seu pendor inicial era pela Engenharia e Matemática, mas um obstáculo racial na tradicional Escola Politécnica da Bahia o fez mudar de rumo. Aos quinze anos, trocou a Matemática pela Geografia, inicialmente por pragmatismo, mas que se transformou em paixão. Formou-se em Direito em 1948, mas recusou a carreira jurídica para dedicar-se ao ensino e ao jornalismo, profissões que via como motores de liberdade.
Em 1949, em Ilhéus, tornou-se professor e editor do jornal A Tarde, posições que lhe conferiam prestígio e acesso à sociedade. De volta a Salvador em 1952-1953, sua autoridade só cresceu: foi professor na Universidade Católica (1954), doutorou-se pela Universidade de Estrasburgo (1958), fundou o Laboratório de Geomorfologia e Estudos Regionais da UFBA (1959) e dirigiu a Imprensa Oficial do Estado. Milton Santos era então uma figura proeminente, um homem de ação e um dos intelectuais mais influentes de sua geração, reconhecido por sua presença, curiosidade infinita e capacidade de trabalho.
O Intelectual e a Política: A Viagem a Cuba
Entre os geógrafos e intelectuais da época, como Manuel Correia de Andrade e José Ribeiro de Araújo Filho, Milton Santos já se destacava como um expoente e um gênio em construção. Sua personalidade polímata, seu carisma e sua convicção de homem público chamaram a atenção do então deputado federal Jânio Quadros. Em 1960, Jânio, candidato à presidência, convidou Milton Santos para integrar sua comitiva de personalidades brasileiras que visitariam Cuba. A Revolução Cubana, com Fidel Castro e Che Guevara, era um símbolo global de resistência, e a visita de Jânio era um gesto político ousado e carregado de significado.
Milton Santos representava a quintessência da intelligentsia que guiava os rumos da política brasileira a partir dos anos 1950. Sua presença junto a Jânio Quadros era um endosso à altura de figuras como Aliomar Baleeiro e Orlando Gomes. Aqueles dias em Havana foram marcantes, talvez profundamente, para o destino do geógrafo. Na volta, Jânio Quadros seguiu para a vitória eleitoral.
O Legado Interrompido e a Incerteza
Como presidente eleito, Jânio Quadros sondou Milton Santos para ser embaixador em diferentes continentes e, após assumir, nomeou-o Subchefe da Casa Civil em Brasília e seu representante pessoal na Bahia. Contudo, a renúncia de Jânio em 25 de agosto de 1961 lançou Milton Santos a um futuro incerto, um “lugar inóspito e vazio”. Esse vácuo de apreensão se revelaria cruelmente em 1964, após o golpe, quando seu nome apareceu nas listas de cassação e mandados de prisão. O silêncio do cárcere foi a dolorosa maneira pela qual Milton Santos descobriu o mau-agouro que o aguardava, interrompendo abruptamente a trajetória de um dos mais brilhantes pensadores do Brasil.
Fonte: jornal.usp.br
