A máxima de Paulo Freire, “Ninguém educa ninguém, ninguém educa a si mesmo, os homens se educam entre si, mediatizados pelo mundo”, ecoa na experiência de Suzano. Uma proposta inovadora, nascida da disciplina de Gestão das Políticas Sociais nos Municípios do curso de Gestão de Políticas Públicas da Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH) da USP, buscou ir além da teoria. O objetivo era discutir as relações entre Estado, sociedade e poder local não apenas em sala de aula, mas diretamente nos espaços urbanos onde tensões, conflitos e formas de cooperação se manifestam diariamente.
O projeto articulou estudantes de diferentes cursos e instituições, unindo alunos da USP e do IFSP, especialmente das áreas de Gestão de Políticas Públicas e Licenciatura em Química, além de outros interessados em compreender os desafios sociais e políticos de uma cidade da Região Metropolitana de São Paulo. Suzano foi escolhida como território de investigação por suas características marcantes: crescimento urbano acelerado, desigualdades territoriais, disputas por espaço público e uma forte presença de conflitos relacionados à habitação, saúde, infraestrutura e participação política. Um diagnóstico inicial revelou a ausência de uma esfera pública de discussão, dificultando a identificação e solução coletiva de problemas.
Imersão no Território: A Metodologia em Campo
Ao longo do semestre, a metodologia foi intensiva e prática. Estudantes realizaram trabalhos de campo, entrevistas, observações e visitas a diferentes regiões da cidade. A experiência contou com a participação fundamental de tutores locais – lideranças comunitárias, gestores públicos, profissionais liberais, ativistas, e até mesmo ex-prefeitos e ex-vereadores de diversos espectros políticos –, que acompanharam os grupos e compartilharam seus conhecimentos sobre os problemas investigados, enriquecendo a perspectiva dos acadêmicos.
As atividades aconteceram em espaços públicos e comunitários de Suzano, com foco na região central. Com o apoio da Paróquia de São Sebastião, nas imediações da Estação Suzano-CPTM, encontros mensais reuniam todos para pensar de maneira coletiva. O esforço era claro: construir um ambiente de diálogo genuíno entre universidade e sociedade civil, permitindo que os estudantes tivessem contato direto com os conflitos e desafios da gestão pública municipal em sua realidade mais crua.
Desvendando as Fraturas Urbanas: Temas e Descobertas
Os temas pesquisados pelos grupos revelaram as múltiplas dimensões das tensões urbanas e institucionais da cidade. Um dos trabalhos analisou o Programa Saúde na Escola, identificando dificuldades de integração entre as áreas de saúde e educação. Outro investigou a Estratégia Saúde da Família no bairro Miguel Badra, apontando fragilidades na participação popular e nos vínculos comunitários. Pesquisas sobre saúde mental, habitação popular – como o estudo sobre a favela do Jardim Monte Cristo, que expôs a ausência de políticas habitacionais estruturadas –, infraestrutura urbana, parques públicos (como o Max Feffer, com suas disputas de uso e manutenção), equipamentos culturais e gestão hospitalar também foram desenvolvidas, oferecendo um panorama multifacetado dos desafios.
O Impacto da Extensão: Conhecimento e Formação Crítica
A iniciativa demonstrou que o ensino universitário pode ser articulado à produção de conhecimento coletivo sobre problemas concretos da cidade, conectando-o a diversos referenciais teóricos. Ao mesmo tempo, proporcionou aos estudantes a experimentação de metodologias de pesquisa e vivências de campo variadas, contribuindo significativamente para o processo formativo desde os primeiros anos da graduação.
O projeto também evidenciou o potencial da extensão universitária como um instrumento poderoso de aproximação entre instituições públicas de ensino e comunidades locais. Em vez de uma relação unilateral, a experiência buscou construir formas de troca e reconhecimento entre os saberes acadêmicos e os conhecimentos produzidos no território, valorizando a expertise de quem vive e atua na cidade.
Embora os resultados não pretendam oferecer uma interpretação definitiva sobre Suzano, eles revelam fragmentos de uma cidade complexa, marcada por fraturas, desigualdades, disputas e variadas formas de participação social. A experiência, no entanto, mostrou que iniciativas interdisciplinares como esta podem ampliar o debate público e fortalecer a formação crítica de estudantes. Mais do que produzir diagnósticos, o projeto construiu espaços de escuta, circulação de experiências e reflexão coletiva sobre os desafios da vida urbana contemporânea. A vivência em Suzano como sala de aula demonstrou que, ao criar um espaço público acolhedor da diversidade de atores e propício à escuta, somos capazes de aprender uns com os outros, transformando o conhecimento em uma ferramenta de transformação social.
Fonte: jornal.usp.br
