O Legado de um Mestre: Plínio Martins Filho Celebra 40 Anos Dedicados ao Livro e à Edição, da Editora Perspectiva à Transformação da USP

Quatro décadas dedicadas ao universo do livro. Assim pode ser resumida a jornada de Plínio Martins Filho, professor que se despede formalmente da vida universitária na Escola de Comunicações e Artes (ECA) da Universidade de São Paulo (USP). Para ele, contudo, o livro nunca foi apenas uma profissão, mas o lugar onde sua vida encontrou sentido, um percurso que ele agora compartilha em um relato de gratidão e reflexão.

Da Fazenda ao Universo Editorial: Os Primeiros Capítulos

Plínio Martins Filho nasceu distante do ambiente universitário e da cultura letrada. Sua família simples o introduziu ao mundo do trabalho antes mesmo da leitura, com a primeira letra reconhecida sendo um ‘F’ marcado pelo pai no gado da Fazenda Pau Ferrado. Sua entrada no mundo editorial, em 1971, foi por necessidade, no depósito da Editora Perspectiva, de Jacó Guinsburg.

Ali, Jacó Guinsburg se tornou seu primeiro mestre, ensinando-lhe não apenas o ofício, mas uma moral do trabalho com o livro. A edição, para ele, era um processo artesanal, onde cada etapa exigia atenção minuciosa. Sob a orientação rigorosa de Geraldo Gerson de Souza, o Revisor, Plínio aprendeu a revisar letra por letra, compreendendo que o texto é forma, ritmo e coerência, e que a responsabilidade do editor inicia onde o autor acredita ter terminado. A Perspectiva foi sua escola, um espaço onde os livros começaram a organizar sua vida.

A Inesperada Jornada Acadêmica e o Ofício de Ensinar

Jamais imaginou ser professor. No entanto, em 1986, a convite de Jerusa Pires Ferreira, Plínio Martins Filho assumiu um cargo na Escola de Comunicações e Artes da USP. Sua relação com o ensino nasceu da vasta experiência acumulada no trabalho editorial, mantendo uma desconfiança saudável em relação ao título, preferindo dizer que ‘dava aula’.

Dessa perspectiva, nasceu a coleção ‘Editando o Editor’, um projeto que busca registrar a história do ofício pela voz dos próprios editores, muitas vezes protagonistas silenciosos do livro brasileiro. Ao longo de sua carreira na USP, teve o privilégio de conviver com colegas e amigos como Ivan Teixeira, José de Paula Ramos Jr., Jean Pierre Chauvin, Marisa Midori Deaecto e Thiago Mio Salla, estes últimos à frente da Com-Arte, a Editora-laboratório do Curso de Editoração, onde os alunos aprendem na prática.

A Revolução na Edusp: Construindo um Catálogo de Referência

Um dos eixos centrais de sua trajetória foi a Editora da Universidade de São Paulo (Edusp), onde atuou de 1989 a 2016. Chegou à Edusp em meados dos anos 1980, quando a editora ainda funcionava principalmente como coeditora. Sob a liderança de João Alexandre Barbosa, a convite do reitor José Goldemberg, Plínio foi chamado para ajudar na profunda transformação da Edusp.

O desafio era organizar a casa, estabelecer processos, definir critérios, pensar a distribuição e formar um catálogo que desse identidade à editora. A meta era afirmar a Edusp como uma extensão da universidade, fazendo circular o conhecimento produzido para além dos departamentos. Ao longo de décadas, a Edusp se tornou uma editora sólida, com um catálogo consistente e reconhecimento público, com mais de 1.600 títulos nos quais Plínio participou como editor, revisor e produtor, e quase uma centena de Prêmios Jabuti.

Acreditava que uma editora universitária deve valorizar a produção acadêmica sem se fechar, dialogando com o pensamento externo e o leitor. Essa convicção também deu origem à Festa do Livro da USP, que se tornou um dos maiores eventos literários do país, criando um hábito e uma relação de confiança em torno do livro. Plínio também destacou a importância de parcerias institucionais, como as com Paulo Franchetti (Unicamp) e Wander Melo Miranda (UFMG), reafirmando que editoras universitárias podem atuar no mercado sem abandonar sua função cultural, combinando qualidade e cooperação.

O Livro Além da Edição: Novos Horizontes na BBM

Após deixar a presidência da Edusp, Plínio Martins Filho dedicou-se à criação do Setor de Publicações da Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin (BBM). Ali, compreendeu que o trabalho com livros não se encerra na edição, mas continua na preservação, no estudo da materialidade da obra e na difusão para novos leitores.

Como Professor Sênior da USP, Plínio continuará na BBM para implementar o Laboratório de Edições BBM/ECA-USP. Este novo espaço permitirá que alunos de Editoração e Biblioteconomia trabalhem ao lado de pesquisadores da Biblioteca, em contato com acervos e projetos ligados à edição, história e difusão do livro, uma forma de continuar ensinando e reverenciando José Mindlin, para quem o livro era uma maneira de viver e transmitir o passado.

Para Plínio, o livro nunca nasce de uma única pessoa; é um esforço coletivo. O trabalho do editor, discreto, mas essencial, só se completa quando encontra quem o leia. Embora a etapa formal do magistério universitário se encerre, sua relação com o livro permanece inabalável. Se pôde contribuir, ainda que modestamente, para que alguns livros encontrassem seus leitores, considera que sua trajetória encontrou seu sentido. Aposentadoria, para ele, é apenas uma nova fase na mesma paixão. Evoé!

Fonte: jornal.usp.br

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