A promoção da alimentação adequada e saudável é um pilar fundamental das políticas públicas brasileiras, consagrada em documentos como a Política Nacional de Alimentação e Nutrição e o Guia Alimentar para a População Brasileira, sempre com a alimentação vista como um direito humano. No entanto, a realidade em territórios periféricos das grandes cidades brasileiras contrasta com essa diretriz, onde a insegurança alimentar é mais acentuada, o acesso a alimentos frescos e in natura é dificultado e a disponibilidade de ultraprocessados é maior.
É nesse cenário que a pesquisa “Comida e Cidade: um estudo sobre a fome e seu enfrentamento em bairros periféricos de São Paulo”, conduzida por pesquisadoras do INCT Combate à Fome, buscou compreender as dinâmicas da insegurança alimentar e nutricional (IAN) em dois bairros da capital paulista: Grajaú (zona Sul) e Vila Jacuí (zona Leste). O estudo, realizado em parceria com o Instituto Anchieta Grajaú (IAG) e o Centro de Recuperação e Educação Nutricional (CREN), combinou entrevistas, questionários e, de forma inovadora, ciclos de oficinas culinárias.
O Desafio da Insegurança Alimentar nas Periferias
Em áreas urbanas desfavorecidas, a dificuldade de acesso a feiras e mercados com produtos frescos, somada à proliferação de estabelecimentos que vendem alimentos ultraprocessados, cria um ambiente alimentar que dificulta escolhas saudáveis. Essa realidade agrava a insegurança alimentar, tornando essencial o desenvolvimento de estratégias educativas que sejam alinhadas aos contextos locais e às vivências das comunidades.
Oficinas Culinárias como Ferramenta de Empoderamento
Os Ciclos de Oficinas foram um componente central da pesquisa, planejados a partir dos resultados das entrevistas e questionários, e em colaboração com as organizações parceiras. O objetivo era criar um espaço de reflexão e trocas sobre alimentação e direitos sociais, a relação das famílias com o território e o ambiente alimentar do entorno, além de desenvolver habilidades culinárias para práticas saudáveis e sustentáveis. Os encontros mesclavam conversas e discussões com a preparação de receitas, utilizando ingredientes in natura ou minimamente processados, acessíveis e de fácil reprodução em casa. Temas como a redução do consumo de ultraprocessados, o uso de temperos naturais e Plantas Alimentícias Não Convencionais (PANC), o cuidado com a alimentação infantil e o prazer de comer de forma saudável foram abordados.
Saberes e Sabores: O Impacto Transformador dos Encontros
As participantes das oficinas expressaram grande satisfação com as atividades. Relataram que os encontros foram interessantes e prazerosos, proporcionando um ambiente acolhedor e a possibilidade de participação ativa nas preparações e debates. Em termos de aprendizado, destacaram o aperfeiçoamento de habilidades culinárias, a redescoberta do prazer de cozinhar, o aprendizado de novas receitas e a aquisição de conhecimentos que estimularam o desejo de aprender mais. Além disso, as oficinas fortaleceram o valor do espaço coletivo de troca e convivência, criando laços afetivos e comunitários significativos.
Construindo um Futuro Alimentar Mais Justo
Os resultados da pesquisa demonstram que estratégias como as oficinas culinárias podem ir além do simples ensino de receitas. Elas promovem aprendizados relacionados ao preparo de alimentos, ao mesmo tempo em que fortalecem vínculos e geram experiências significativas no plano afetivo e comunitário. Essa abordagem, alinhada ao território e às vivências e desejos das pessoas, prova ser uma ferramenta eficaz para a promoção da alimentação adequada e saudável. Como um produto tangível das oficinas, as participantes receberam um caderno de memórias afetivas dos encontros, que incluía as receitas preparadas, consolidando os saberes e sabores compartilhados.
Fonte: jornal.usp.br
