Praga na Primavera: Desvendando a ‘Caixinha de Joias da Europa’ entre Torres Góticas, a Arte de Kafka e a Memória da Revolução de Veludo

Victor Hugo, o mestre francês autor de Les Misérables, já a chamou de “caixa de joias da Europa”. De fato, Praga, a bela capital da República Tcheca, é uma pequena preciosidade, uma pérola incrustada no coração da Europa Central. Com seu apelido carinhoso de “cidade das cem torres”, Praga trafega sem muitos rodeios entre o medieval, o barroco, o renascentista e o gótico, com raras concessões ao moderno, como a inusitada “Casa Dançante”, inspirada em Fred Astaire e Ginger Rogers. Esta criação de Vlado Milunić e Frank Gehry, com seus edifícios assimétricos que emulam um casal “dançando”, é uma exceção em uma cidade que, em sua essência, transpira, respira e inspira história e cultura, mesmo sob temperaturas que insistem em desafiar o calendário solar.

Em abril, a primavera em Praga pode ser indecisa, trazendo um frio “primaveril”, chuviscos gelados e até uma neve fina. Foi nesse cenário que a cidade recebeu visitantes na semana seguinte à Páscoa, com pessoas encasacadas fazendo seu footing interminável pelos 516 metros da bela e inescapável Ponte Carlos. Ali, olhares perdidos se misturam, observando o reflexo de um sol fugidio nas águas do rio Moldava (ou Vltava, em tcheco) ou tentando decifrar as 30 estátuas de santos que adornam a ponte.

A Ponte Carlos e Seus Segredos Milenares

A Ponte Carlos, erguida em 1357, é um marco icônico. A identidade de 29 das suas 30 estátuas pode ser um desafio, mas uma delas é inconfundível pela multidão que a cerca: a de São João Nepomuceno. Conta a lenda que o vigário-geral do arcebispo de Praga, em 1393, recusou-se a revelar os pecados da rainha Sophia ao rei Venceslau IV. Furioso, o monarca ordenou que Nepomuceno fosse torturado e jogado da ponte, no local exato onde hoje está sua estátua.

A construção da ponte de pedra que ligaria a Cidade Velha à atraente e buliçosa Malá Strana começou exatamente às 5h31 do dia 9 de julho de 1357. Essa precisão se deve à superstição do rei Carlos IV, que escolheu a dedo e astrologicamente a data e o horário, apenas com números ímpares. A sabedoria da escolha parece confirmada, já que a ponte, com quase 700 anos, enfrentou todas as intempéries e continua lá, servindo de passarela para turistas e até chefes de estado. Uma curiosidade pop: quem passa pela ponte pode ver pessoas posando de forma peculiar em frente à estátua de Maria segurando Jesus morto, em referência a um cartaz da turnê de 1988 da banda inglesa Depeche Mode, transformando um local histórico em palco de cultura pop.

Um Castelo de Histórias e um Relógio de Séculos

Praga vai muito além de sua história escavada em pedra. O Castelo de Praga, por exemplo, é o maior castelo do mundo em área construída, segundo o Guinness Book, ocupando 72,5 mil metros quadrados. Quase uma cidadela dentro da cidade, Praga nasceu ali, na colina Hradchany, dominando a capital na margem esquerda do Moldava. Este complexo abriga a imponente Catedral de São Vito, o Palácio Real e a charmosa “Viela Dourada”, com suas antigas residências transformadas em lojinhas de souvenirs.

Na Cidade Velha, outro tesouro medieval é o famoso Relógio Astronômico, o Orloj. Obra-prima de 1410, é o relógio em funcionamento mais antigo do mundo, atraindo multidões a cada hora cheia para testemunhar o espetáculo de seus mecanismos e figuras animadas. Mas, para entender a alma de Praga, é preciso ir além dos monumentos e conhecer os quatro pilares que sustentam sua rica história cultural: Franz Kafka, o rei Carlos IV, o artista plástico David Černý e o dramaturgo e ex-presidente Vaclav Havel.

Os Quatro Pilares que Moldam a Alma Tcheca

Franz Kafka (1883-1924) é talvez o mais onipresente: o autor de A Metamorfose e O Processo está em todos os lugares, de pôsteres a camisetas, canecas e até museus e livrarias. Praga rende homenagens ao seu autor mais famoso de todas as formas, aproveitando para arrecadar em coroas tchecas ou euros.

Em um sentido oposto, Carlos IV (1316-1378) é considerado o “Pai da Pátria”. Rei da Boêmia e imperador do Sacro Império Romano-Germânico, ele não só deu nome à ponte, mas também criou a primeira universidade da Europa Central (Universidade Carolina), a Catedral de São Vito e a Cidade Nova (Nové Město), com sua Praça Carlos. Para muitos, Praga é uma espécie de “impressão digital” do rei.

Vaclav Havel (1936-2011) também poderia ser considerado um “Pai da Pátria” em seu tempo. O dramaturgo, poeta e político liderou a Revolução de Veludo em 1989, libertando a então Tchecoslováquia do jugo soviético. Foi o primeiro presidente da república rediviva e, em 1993, o primeiro presidente de um país dividido após o “Divórcio de Veludo”. Havel, que nomeia o aeroporto de Praga e tem uma praça singela com seu nome, vive no imaginário popular, sem alarde, mas com forte representação para todo o país.

O último pilar é David Černý (nascido em 1967), um artista que, embora não tenha escrito obras literárias ou criado uma nação, está em toda parte de Praga. Com 14 esculturas espalhadas pela cidade, Černý é provocativo e irreverente. Sua primeira arte notória foi pintar um antigo tanque soviético de rosa em 1991, o que lhe rendeu dias na prisão e fama instantânea. Suas obras instigam, como a versão inusitada da estátua equestre de São Venceslau na Passagem Lucerna, onde o santo está, mas o cavalo parece morto, de barriga para cima. Ou os três enormes “Bebês” de metal sem face (com portas USB no lugar dos rostos) engatinhando na ilha de Kampa. A enorme escultura móvel de Kafka, chamada K. ou Metamorfose, em um shopping center, é outra de suas criações geniais: 11 toneladas e 42 camadas que giram 360 graus para formar a cabeça do autor de O Processo, um encontro surreal que faz todo o sentido em Praga.

Entre Livros, Cafés e a Dor da Memória

Praga é também um epicentro cultural e literário. Você sabia que a palavra “robô” (ou robot) foi criada pelo escritor e pintor tcheco Josef Čapek em 1920, derivando do termo tcheco robota, que significa trabalho forçado? A cidade cultua livros e leitores, sendo a República Tcheca o país com o maior número de bibliotecas per capita do mundo. Praga possui mais de 90 bibliotecas públicas, além de nacionais como a afamada Klementinum.

No prédio principal da biblioteca municipal, há uma das mais loucas e interessantes homenagens ao livro: a “Torre Infinita de Livros”, criação do artista eslovaco Matej Krén. Com 8 mil livros empilhados e colados em forma de cone, e uma ilusão de ótica causada por espelhos, a torre parece realmente infinita, atraindo multidões que se aglomeram para interagir com essa “maluquice encadernada”.

A cidade também é famosa por seus cafés históricos, como o centenário Louvre, que viu sentar em suas mesas personalidades como Albert Einstein e os jovens estudantes de direito Max Brod e Franz Kafka, onde a elite cultural da época discutia livros, política e a vida. Ou o Café Slavia, ponto de encontro de Havel e da intelligentsia tcheca para falar dos russos e traçar planos para um futuro melhor.

Além dos cafés e bibliotecas, Praga abriga mais de 100 museus. Pode-se topar com o Museu Mucha, dedicado a um expoente da art nouveau, ou visitar o Nacional, muitas vezes com entrada gratuita. No entanto, alguns museus carregam uma ambiguidade histórica. O Museu do Comunismo, por exemplo, oferece uma reflexão sobre os tempos do regime, mas com um preço capitalista. Do outro lado do rio, em Malá Strana, o Memorial às Vítimas do Comunismo, inaugurado em 2002, é ainda mais impactante. Criado pelo escultor Olbram Zoubek, ele exibe seis estátuas de bronze representando um único indivíduo em diferentes estágios de decadência, simbolizando a destruição do indivíduo pelo despotismo totalitário, mas que, apesar de tudo, permanece de pé. Na base, uma frase dedica o memorial a todos cujas vidas foram arruinadas. Ambos, museu e memorial, são faces de uma mesma moeda que traz lembranças dolorosas, necessárias para entender a história recente de um país.

Caminhando pelos milhares de passos por essa cidade de torres e sonhos, digerindo e saboreando suas histórias, a Praça Wenceslau se revela um ponto de profunda reflexão. Foi ali, sob um chuvisco insistente, que o sonho do “socialismo com face humana” de Alexander Dubček desmoronou em 1968, quando os tanques do Pacto de Varsóvia transformaram a Primavera de Praga em um longo e frio inverno que duraria mais de 20 anos. O trauma só terminaria com a queda do Muro de Berlim e a Revolução de Veludo. Caminhar pela Praça Wenceslau hoje, sob o olhar atento da estátua equestre do santo que lhe dá nome, em plena primavera de Praga, é sentir uma sensação libertária, um testemunho da resiliência de um povo e de uma cidade que soube renascer.

Fonte: jornal.usp.br

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