Rússia: “Parir, Aguentar, Calar” – O Lema que Sufoca Mulheres Sob o Regime

FAS Denuncia Perseguição e Retrocesso nos Direitos Femininos

O movimento Resistência Feminista Anti-guerra (FAS), fundado no segundo dia da invasão russa da Ucrânia, em fevereiro de 2022, emerge como uma voz crucial na denúncia da deterioração dos direitos das mulheres na Rússia. Em relatórios anuais, a FAS documenta um cenário sombrio de repressão estatal, controle sobre a autonomia reprodutiva e a normalização da violência, contrastando com a imagem que o governo tenta projetar.

Adelaida, representante da FAS, explica que, apesar de não ser possível contabilizar todas as participantes devido à natureza horizontal do movimento, o alcance é significativo. No entanto, o reconhecimento internacional e a defesa de direitos básicos trouxeram consequências severas: a FAS foi classificada como “agente estrangeiro” e, posteriormente, como “organização indesejável”. Coordenadoras enfrentam multas e investigações criminais, enquanto muitas ativistas, agora refugiadas políticas, lutam pela renovação de seus passaportes e pela segurança.

Relatórios Revelam a Realidade da Repressão e do Conservadorismo

A publicação de relatórios, inicialmente focada em instituições internacionais, visa desmistificar estereótipos sobre a Rússia e expor a brutalidade da repressão. “O trabalho é feito pelas mesmas ativistas e defensoras dos direitos humanos”, afirma Adelaida, destacando a diversidade de frentes de atuação, desde a preparação de relatórios até a cibersegurança e o apoio a comunidades.

Os relatórios buscam dar visibilidade a problemas concretos, como o crescimento de grupos de extrema-direita apoiados pelo Estado, que invadem clínicas e escolas para promover o militarismo e desencorajar o aborto. A FAS denuncia que a guerra agrava a desigualdade de gênero, retrocedendo anos em direitos humanos.

Controle Reprodutivo e Violência Doméstica em Ascensão

A situação em torno do aborto torna-se cada vez mais alarmante. Casos de perseguição judicial por abortos ilegais, “turismo de aborto” interno e recusas ilegais de interrupção da gravidez são relatados. O Estado busca apagar informações sobre abortos seguros da internet, substituindo-as por serviços psicológicos de dissuasão. Ativistas que organizaram fundos para contracepção de emergência enfrentam perseguição, com disparos contra suas casas.

Adelaida compara a abordagem estatal à questão reprodutiva aos tempos de Staline, com proibição de abortos e aumento da mortalidade materna e infantil. A violência é normalizada: há relatos de tortura de reféns civis, crianças deportadas sendo expostas à propaganda de guerra, milhares de presos políticos e mortes suspeitas em prisões. A descriminalização da violência doméstica, promovida pela Igreja, levou a um aumento de mais de 50% nas queixas. O número de vítimas de homens retornando da frente ucraniana também cresce.

Iniciativas como pagamentos únicos a alunas grávidas que optam por manter a gravidez, justificadas como “apoio reprodutivo”, são vistas como uma forma de pressão. Questionários que direcionam adolescentes para consultas psicológicas caso não desejem ter filhos evidenciam o controle sobre corpos e decisões femininas. A FAS sugere que essa política está ligada ao esgotamento de outros canais de recrutamento para o exército e à necessidade de “mão de obra” futura, com o Estado temendo e rejeitando migrantes.

“Childfree” e Solidariedade Feminina Sob Pressão

Assumir publicamente o desejo de não ter filhos (“childfree”) pode levar a multas. A discussão aberta sobre as dificuldades da maternidade, incluindo relatos de depressão pós-parto, é reprimida. O movimento “childfree” chegou a ser considerado extremista em 2024, com perseguições a ativistas. Mulheres que compartilham problemas da maternidade em grupos online também enfrentam represálias.

A situação econômica desfavorável afeta a todos, mas mães solteiras são as mais vulneráveis. Dívidas de pensões alimentícias e altos níveis de violência são comuns. Há críticas à popularidade das famílias monoparentais, com sugestões para que mulheres busquem veteranos de guerra como parceiros.

O medo de denúncias, herdado do passado soviético, retorna, com o Estado incentivando denúncias para perseguições políticas. Mulheres que se destacam, especialmente se despertam inveja, tornam-se alvos. O ativismo resiste, mas a situação lembra o fim da União Soviética, com um número ainda maior de presos políticos.

Apesar do cenário adverso, a solidariedade entre mulheres se mantém. Redes horizontais femininas são a espinha dorsal da resistência, apoiando umas às outras em diversas regiões, enfrentando problemas específicos como mobilização, crimes de honra, proibição de aborto e desastres ambientais.

Militarização e Futuro Incerto

A vida das mulheres russas é marcada por um modelo de comportamento imposto, onde não é seguro expressar o contrário. Vive-se em um “mundo duplo”, dizendo o necessário para evitar conflitos. A pressão nas escolas é grande, com a retirada de disciplinas como Estudos Sociais e o aumento do militarismo no currículo.

Mulheres capazes e ambiciosas enfrentam a invisibilidade de figuras não maternas, buscando comunidade e apoio. Muitas optam por deixar o país. O papel das mulheres como “infraestrutura da guerra”, sustentando famílias e trabalho enquanto os homens estão no front, coexiste com a atribuição de uma missão exclusivamente materna. O Estado, ao que parece, prefere manter a aparência de ordem, ignorando os problemas subjacentes.

O Estado apoia a fusão entre Igreja, polícia e extrema-direita, que assume funções de controle de costumes e migratório, com mulheres frequentemente alvos. A xenofobia cresce, e o Estado intensifica a pressão contra defensores de minorias nacionais e povos indígenas. O espaço digital radicaliza-se, com apelos à deportação e perseguição de mulheres que contactam muçulmanos.

O futuro pós-guerra é incerto. A FAS espera a revogação de leis repressivas e um retorno à paz. A confiança entre homens e mulheres, se um dia existiu, pode ser reconstruída com o reconhecimento da violência, a possibilidade de participar em decisões e a aprovação de leis que protejam as mulheres.

Fonte: pt.euronews.com

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