USP Ribeirão Preto Aproxima Jovens da Ciência: Projeto Inovador Leva Pesquisa da Odontologia para Alunos da Rede Pública com Abordagem STEAM

A ciência, muitas vezes percebida como um universo distante para crianças e adolescentes, ganha novos contornos em Ribeirão Preto. Um projeto inovador da Universidade de São Paulo (USP) na cidade está quebrando essa barreira, transformando estudantes do ensino fundamental e médio em participantes ativos de pesquisas científicas. A iniciativa, desenvolvida pelo grupo Biologia do Desenvolvimento e Saúde Infantil da Faculdade de Odontologia de Ribeirão Preto (Forp) da USP, integra laboratórios, saúde infantil e educação básica em uma experiência de aprendizado única.

O programa adota o movimento STEAM (Ciência, Tecnologia, Engenharia, Artes e Matemática), uma abordagem educacional transdisciplinar que visa revolucionar o processo de ensino-aprendizagem. Por meio dela, jovens da rede pública são inseridos em atividades de desenvolvimento tecnológico, investigação e produção científica, deixando para trás o modelo tradicional de aulas expositivas. Eles passam a acompanhar pesquisas translacionais, participar da produção de jogos digitais educativos, criar materiais de divulgação científica e vivenciar a rotina acadêmica dentro dos laboratórios da Universidade.

Ciência Acessível e Combatendo a Desinformação

Segundo o professor Francisco Wanderley Garcia de Paula e Silva, líder do grupo de pesquisa, a proposta nasceu da necessidade de aproximar o conhecimento científico produzido na USP da população e, principalmente, combater a desinformação em saúde. “Percebemos que descobertas importantes sobre saúde materno-infantil e desenvolvimento infantil permaneciam restritas aos artigos científicos. O movimento Steam surgiu justamente para transformar esse conhecimento em algo acessível, prático e conectado à realidade da comunidade”, explica.

A iniciativa é direcionada a alunos de escolas públicas de Ribeirão Preto e região, em parceria com projetos como o Pequeno Cientista, da Casa da Ciência da Fundação Hemocentro de Ribeirão Preto, e escolas parceiras como a Etec José Martimiano da Silva.

Do Laboratório à Educação Básica: A Abordagem STEAM em Ação

O projeto se baseia na abordagem transdisciplinar do STEAM, conectando diversas áreas do conhecimento em torno de problemas reais da saúde infantil e do desenvolvimento humano. Nesse contexto, os estudantes acompanham desde estudos laboratoriais até pesquisas clínicas realizadas na Forp. O professor destaca que a ideia é romper com a fragmentação tradicional das disciplinas. “O aluno deixa de ser apenas um receptor de informação para se tornar um investigador ativo, utilizando criatividade, pensamento crítico e método científico para compreender problemas complexos”, afirma.

As atividades oferecidas incluem cursos de difusão científica, produção de materiais educativos, orientação em pré-iniciação científica e participação em pesquisas relacionadas à teoria DOHaD (Developmental Origins of Health and Disease), que investiga como fatores durante a gestação e os primeiros anos de vida influenciam a saúde na fase adulta. Além das atividades presenciais, o projeto também desenvolve conteúdos digitais, como videoaulas, e-books e jogos educativos, voltados à divulgação científica e promoção da saúde.

Traduzindo a Ciência para Crianças e Adolescentes

Um dos grandes diferenciais da iniciativa é o esforço em tornar conteúdos científicos complexos compreensíveis para o público infantojuvenil. O grupo colabora com a revista internacional Frontiers for Young Minds, uma publicação científica onde artigos acadêmicos são revisados por crianças e adaptados para uma linguagem acessível. Essa parceria já resultou na publicação de seis artigos científicos para jovens, abordando temas como regeneração dentária, prevenção da cárie, desenvolvimento craniofacial e os impactos dos primeiros mil dias de vida na saúde.

Para o docente, esse processo também redefine a relação entre pesquisador e sociedade. “O cientista deixa de ficar isolado no laboratório e passa a atuar como comunicador. Traduzir a ciência para uma linguagem acessível também é uma forma de democratizar o conhecimento”, pontua.

Impacto Social e Despertar de Talentos

Desde o início de suas atividades em 2019, o projeto já orientou 20 alunos em programas de pré-iniciação científica e tecnológica vinculados ao CNPq, incluindo bolsas do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica para o Ensino Médio (Pibic-EM) e projetos ligados ao programa Wash, focado no desenvolvimento de software e hardware.

Além da produção científica e tecnológica, o grupo ressalta o impacto social da iniciativa na aproximação entre a USP e estudantes da educação básica. “Quando esses jovens passam a frequentar os laboratórios, participar das pesquisas e conviver dentro da Universidade, ela deixa de parecer um espaço distante. Eles começam a enxergar o ensino superior público como uma possibilidade concreta”, conclui o professor. Para ele, a principal contribuição do projeto está na criação dessa ponte entre ciência, educação e comunidade, buscando despertar novos talentos, fortalecer o pensamento crítico e mostrar que a produção científica também pode ser construída de forma coletiva, acessível e socialmente relevante.

Fonte: jornal.usp.br

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