Brasil Alcança IDH Recorde de 0.805: Como Políticas Públicas e Transformações Sociais Impulsionaram o Desenvolvimento Humano e Quais Desafios Persistem
Apesar do avanço histórico, o país ainda enfrenta profundas desigualdades regionais e a ‘armadilha da renda média’, segundo especialista da USP.
O Brasil atingiu um marco histórico ao registrar o maior Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) de sua história, alcançando 0,805. O dado, divulgado pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), posiciona o país em um patamar de “muito alto desenvolvimento humano” pela primeira vez, superando a média global de 0,75. Este resultado reflete a cumulatividade de transformações sociais e políticas ao longo das últimas décadas, conforme explica Fernando Coelho, professor de Gestão de Políticas Públicas da Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH) da USP.
Os Pilares do Desenvolvimento: Saúde, Educação e Renda
O IDH é uma métrica composta por três dimensões essenciais: educação, saúde e economia. A educação é avaliada pelos anos médios de estudo da população adulta e pela expectativa de escolaridade dos jovens; a saúde, pela expectativa de vida ao nascer; e a renda, pela renda nacional bruta per capita. Segundo o professor Coelho, o desenvolvimento é uma variável estrutural, que demanda tempo e a convergência de múltiplos fatores para que as mudanças se manifestem.
“É muito importante, quando pensamos no desenvolvimento, que nós tenhamos um horizonte temporal de longo prazo”, comenta Coelho, ressaltando que políticas públicas levam tempo para gerar resultados perceptíveis nessas áreas.
Políticas Públicas e Transformações Sociais Impulsionam o Avanço
A melhora significativa do IDH brasileiro está intrinsecamente ligada a um conjunto robusto de políticas públicas e transformações sociais implementadas desde a promulgação da Constituição de 1988. Fernando Coelho destaca a ampliação dos direitos sociais, que se traduziram em ações concretas nas áreas de educação, saúde e proteção social. Entre os fatores cruciais, ele aponta a universalização da educação básica, o fortalecimento do financiamento educacional via Fundef e Fundeb, a implementação de programas de transferência de renda, a atuação fundamental do Sistema Único de Saúde (SUS) e a estabilização econômica pós-Plano Real.
A valorização do salário mínimo e a expansão do acesso ao mercado de trabalho também foram decisivas. Além disso, mudanças demográficas, como o aumento da expectativa de vida, contribuíram para o aprimoramento dos indicadores. O professor ainda observa que, não fosse a pandemia de Covid-19, os resultados na saúde poderiam ter sido ainda mais expressivos.
“Esse conjunto de políticas públicas e a própria dinamização da economia e da transformação social na relação entre Estado e sociedade foram contribuindo, no decorrer do tempo, com esse resultado do Índice de Desenvolvimento Humano”, afirma Coelho.
Desafios Persistentes: A Renda e as Disparidades Regionais
Apesar do recorde, o Brasil ainda enfrenta desafios consideráveis, especialmente no que tange à dimensão da renda. O período entre 2012 e 2026 foi marcado por complexidades econômicas, com recessões em 2015 e 2016, crescimento fraco e os impactos da pandemia. Fernando Coelho lembra que o avanço da renda per capita foi limitado por esse longo período de baixo crescimento, e o país ainda se encontra na “armadilha da renda média”, que dificulta a ascensão a patamares mais elevados de desenvolvimento econômico sustentável.
Além do crescimento, as históricas desigualdades regionais continuam sendo um entrave. Os ganhos de desenvolvimento são distribuídos de forma heterogênea pelo vasto território brasileiro, perpetuando diferenças marcantes entre estados, municípios e regiões. “A média nacional esconde realidades muito distintas em um país de dimensões continentais”, alerta o professor, enfatizando que o combate à desigualdade é fundamental para que o desenvolvimento alcance efetivamente toda a população.
Fonte: jornal.usp.br
