Currículo Eurocêntrico em Pré-escolas de Mauá Apaga Culturas Africanas e Afro-brasileiras, Revela Pesquisa da USP
Estudo inédito da USP denuncia a invisibilidade de saberes e a persistência do racismo desde a primeira infância, com crianças negras sofrendo discriminação antes dos quatro anos, e aponta para a urgência de uma reformulação educacional.
Uma pesquisa da Universidade de São Paulo (USP) acende um alerta sobre a educação infantil em Mauá, na Grande São Paulo: o currículo municipal ainda reproduz uma lógica eurocêntrica que invisibiliza as ricas culturas africanas e afro-brasileiras, perpetuando o racismo que atinge crianças antes mesmo de completarem quatro anos de idade. A revelação faz parte da dissertação de mestrado de Milena Maimone Castilho, defendida em fevereiro de 2026 na Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH) da USP.
Intitulado “Currículo como território de disputa: perspectivas decoloniais para a construção de uma educação antirracista na infância”, o estudo destaca que, apesar de mais de duas décadas da Lei 10.639/2003 – que tornou obrigatório o ensino de história e cultura afro-brasileira e africana nas escolas –, as diretrizes federais para uma educação antirracista continuam pouco incorporadas na rede municipal. A urgência do tema é corroborada por dados nacionais que indicam a precocidade da discriminação racial.
Currículo Centralizado e a Invisibilidade de Saberes
A análise dos currículos oficiais da educação infantil de Mauá, referentes aos anos de 2019 a 2024, revelou um processo de construção curricular centralizado na Secretaria de Educação. Segundo Milena Castilho, que também é funcionária da pasta, a participação das equipes escolares foi limitada, contrariando os princípios de gestão democrática.
O documento mais recente, de 2024, é duramente criticado pela pesquisadora por ignorar bases teóricas sobre relações étnico-raciais e por não incluir autores negros e pardos. “De todas as páginas do currículo, há praticamente apenas uma página sobre educação antirracista”, aponta Milena. Ela ainda ressalta que o documento sequer cita as Leis 10.639/2003 e 11.645/2008, que inclui o estudo da história e cultura indígena, evidenciando uma abordagem superficial e desatualizada.
O Impacto Precoce do Racismo na Primeira Infância
A pesquisa reforça a gravidade do problema ao citar dados da Fundação Maria Cecília Souto Vidigal, que apontam que 16% das crianças brasileiras de zero a seis anos já sofreram racismo. O percentual é de 10% entre bebês de zero a três anos e salta para 21% na faixa de quatro a seis anos. A dissertação pondera que o menor índice entre bebês não significa ausência de discriminação, mas sim a dificuldade de verbalizar a violência, já que crianças reconhecem traços raciais entre seis e oito meses de vida.
Com 23 anos de experiência em sala de aula, Milena Castilho relata ter presenciado discriminações explícitas e sutis. Ela cita o caso de um aluno de 5 anos hostilizado por funcionários da escola devido às vestimentas e ao cabelo raspado, decorrentes de sua iniciação em religião de matriz africana. O racismo institucional sutil, manifestado em “um olhar ou na forma de acolher, ou não, uma criança racializada”, também é destacado, traduzindo-se em atitudes como respostas mais lentas ao choro, menor oferta de afeto e abordagens mais severas direcionadas a crianças negras.
Calendário Escolar e a Crise na Formação Docente
Outro ponto crítico é o calendário escolar, que privilegia celebrações de matriz eurocristã, relegando a cultura africana e afro-brasileira a episódios isolados, como o Dia da Consciência Negra. Essa prática, segundo a autora, reduz a presença negra a momentos pontuais de resistência, falhando em integrar saberes, cosmologias e práticas culturais ao cotidiano escolar.
A pesquisa também critica a escassez de capacitação docente em relações étnico-raciais. Milena alerta para o impacto da precarização do ensino superior, especialmente as pedagogias EAD, que retiram uma vivência crucial para a formação de futuros professores. Embora reconheça a busca individual por aprimoramento, ela enfatiza a corresponsabilidade do poder público na oferta de formação continuada, que em Mauá é “muito tímida, quase inexistente”.
Rumo a uma Educação Antirracista e Colaborativa
Dialogando com as teorias de Paulo Freire, a dissertação defende que uma reformulação efetiva para um currículo e formação antirracistas exige uma revisão estrutural profunda, que vá além da inserção de conteúdos isolados. Uma mudança prática já se desenha em Mauá: o currículo analisado está sendo reformulado de maneira colaborativa para 2027, buscando um “ciclo de diálogo democrático na reconstrução”.
Milena reitera que a construção de uma educação antirracista é um dever de toda a sociedade, não apenas da população negra ou de especialistas. Baseada na professora Denise Carreira da USP, ela conclui: “A luta antirracista é de todos. De qualquer um que se disponha a lutar contra o preconceito, a lutar contra a discriminação, a lutar por um projeto de sociedade que seja antirracista, que respeite todos, que reconheça o valor de cada um.”
Fonte: jornal.usp.br
