Estudantes da USP Reinventam Hamlet em Peça Gratuita que Funde Shakespeare e Heiner Müller com Olhar Contemporâneo

Estudantes da USP Reinventam Hamlet em Peça Gratuita que Funde Shakespeare e Heiner Müller com Olhar Contemporâneo

“Quase Hamlet ou A Coruja Era Filha do Padeiro” será exibida no Teatro da USP, na Cidade Universitária, trazendo uma nova perspectiva sobre o drama e as paixões do clássico, com foco em questões políticas e feministas.

A icônica frase “Ser ou não ser, eis a questão”, da tragédia Hamlet de William Shakespeare, ganha uma nova leitura pelas mãos de estudantes da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP. A peça “Quase Hamlet ou A Coruja Era Filha do Padeiro” propõe uma reinvenção do clássico, misturando-o com a obra de Heiner Müller e será apresentada gratuitamente neste fim de semana, dias 29, 30 e 31 de maio, no Teatro da USP (Tusp), localizado na Cidade Universitária, em São Paulo.

Com 80 minutos de duração, a montagem é o resultado da disciplina Ateliê 1 do Departamento de Artes Cênicas da ECA, onde alunos do segundo semestre desenvolvem processos criativos. O professor Antônio Araújo, diretor e orientador da peça, explica que a escolha de Hamlet para a turma surgiu após trabalhos com cenas de textos clássicos. “Quando fomos conversar no Ateliê, surgiu a ideia de tratar a peça inteira”, comenta ao Jornal da USP.

A Reinvenção de um Ícone da Literatura

Apesar da escolha de Hamlet, o texto original de Shakespeare gerou inquietação entre os estudantes, que buscavam uma dimensão mais política para a história. O aluno Nicolas Limeira, porta-voz do grupo, revela que o ponto de partida foi a questão: “Por que montar Hamlet em São Paulo, no Brasil, em 2025?”. A intenção era “aproximar a obra do grupo com questões que permeiam a nossa sociedade hoje”.

Para atender a essa demanda, o professor Araújo introduziu A Máquina Hamlet (1977), do dramaturgo alemão Heiner Müller, um texto livremente inspirado e com um olhar crítico sobre o original shakespeariano. Os alunos, então, operaram um “tensionamento” entre as duas dramaturgias, criando uma terceira e original obra.

Ofélia em Destaque e o Jogo de Personagens

Uma das grandes inovações da montagem é a elevação de Ofélia a um patamar de importância semelhante ao de Hamlet. “No de Müller, a Ofélia se liberta. Tem uma perspectiva feminista dentro do texto, uma dimensão revolucionária para a época”, explica Araújo. A peça culmina com a Ofélia de Müller, que se revolta e se liberta, contrastando com a cena de loucura e morte por afogamento da personagem em Shakespeare. O título “A Coruja Era Filha do Padeiro” é uma fala enigmática de Ofélia no texto de Shakespeare, escolhida pela sua força imagética e pelo que representa para o grupo.

Outro aspecto marcante é a interpretação de Hamlet e Ofélia por diferentes atores e atrizes ao longo da peça, o que o professor descreve como um “coro”. Embora um desafio para manter a consistência dos personagens, essa abordagem permitiu explorar “possibilidades que surgem em outros corpos e interpretações, ver o que cada ator traz da sua própria experiência de vida”, segundo Limeira. A montagem se constrói em um “cabo de guerra” entre o drama de Shakespeare e o absurdo de Müller, onde o drama não basta, e o absurdo do cotidiano é escancarado para o público, utilizando a “quebra épica” de Brecht para a reflexão do espectador.

Os Três Hamlets: Uma Análise em Palco

No original de Shakespeare, Hamlet, o príncipe da Dinamarca, retorna ao palácio após a morte do pai, descobrindo o casamento da mãe com o tio. O fantasma paterno revela ter sido assassinado, e Hamlet finge loucura para investigar. A metalinguagem se estabelece no terceiro ato, onde Hamlet usa o teatro para expor a culpa do tio. “Esse tema da loucura, fingida ou real, atravessa o trabalho. A loucura da Ofélia também é muito lúcida”, observa Araújo. Para os alunos, o Hamlet da peça é um ator que se rebela comicamente, usando a representação para interferir nas cenas.

Já em A Máquina Hamlet, escrita por Müller durante a Guerra Fria, a estrutura clássica é fragmentada em cinco cenas de apenas nove páginas. Müller, que a elaborou como um subproduto de uma tradução, “escancara o jogo do teatro”, como na fala “Eu não sou Hamlet”, que reflete a crise do personagem com a própria representação e a loucura fingida ou real, conforme análise de Antônio Araújo.

Produção Colaborativa e o Ambiente Universitário

A produção de “Quase Hamlet ou A Coruja Era Filha do Padeiro” é integralmente dos estudantes da ECA, que hoje estão no terceiro semestre de Artes Cênicas. Eles se dividiram em subgrupos para cobrir todas as áreas da criação, incluindo figurino, dramaturgia, cenografia e sonoplastia, exigindo atenção e dedicação a todo o processo. Araújo propôs experimentações cênicas e workshops que fomentaram uma “parceria muito forte do grupo, onde comprávamos as ideias uns dos outros”.

Para os alunos, o ambiente universitário é um espaço privilegiado de formação e pesquisa, onde “sempre podemos errar e trazer coisas novas. O repertório apresentado para nós nesse ambiente entra como parte ativa da construção dessa montagem”, conclui Limeira, expressando o pensamento do grupo.

Serviço

Peça: Quase Hamlet ou A Coruja Era Filha do Padeiro
Datas e Horários:
Sexta-feira (29 de maio): 20 horas
Sábado (30 de maio): 20 horas
Domingo (31 de maio): 18 horas
Local: Sala do Teatro da USP do Centro Cultural Camargo Guarnieri (Rua do Anfiteatro, 109, Cidade Universitária, São Paulo)
Entrada: Grátis

Fonte: jornal.usp.br

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