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"title": "Quanto Custa uma Vida Digna no Brasil? Projeto Estima Salários Necessários para Cobrir Despesas em 79 Regiões",
"subtitle": "Pesquisa inédita do Cebrap e Anker Research Institute revela diferenças regionais no custo de vida, apontando valores de salário digno que superam o mínimo e evidenciam as desigualdades brasileiras.",
"content_html": "<p>Garantir um padrão de vida digno no Brasil varia drasticamente de uma região para outra. Em São Paulo, por exemplo, uma família de quatro pessoas precisaria de uma renda mensal líquida de R$ 6.155 em 2025, exigindo um salário de R$ 4.022 para um adulto trabalhando em tempo integral. Em contraste, na mediana de Fortaleza, o valor necessário seria de R$ 2.773. Essas estimativas são fruto de um projeto de pesquisa inovador que busca quantificar o custo de uma vida digna em diferentes macrorregiões brasileiras.</p>n<p>O estudo, sediado no Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap) em parceria com o Anker Research Institute, já calculou o salário digno para 79 macrorregiões estaduais, adaptando uma metodologia internacional para a realidade brasileira.</p>nn<h3>Salário Digno x Salário Mínimo: Entenda a Diferença</h3>n<p>É fundamental distinguir o conceito de salário digno do salário mínimo. Enquanto o salário mínimo é um valor único e obrigatório por lei em todo o País, o salário digno, conforme definido pelos pesquisadores, busca refletir as variações regionais e setoriais. Seu objetivo é servir como um indicador de referência para a valorização do trabalho, sem concorrer com a política de salário mínimo. “O salário digno não concorre com o salário mínimo. Pelo contrário, a gente parte do pressuposto que o governo tem uma política importante de valorização do salário mínimo, que ela reduz as desigualdades, mas acredita que uma economia que é capaz de aumentar a sua produtividade, passar por um processo de transformação produtiva, ela precisa de outros indicadores econômicos e sociais para ter um padrão de desenvolvimento ancorado na elevação da renda do trabalho”, explica o economista Alexandre de Freitas Barbosa, da USP, um dos pesquisadores.</p>n<p>Os resultados preliminares foram apresentados em um capítulo do livro “Salário Mínimo no Brasil: 90 anos de Histórias, Lutas e Transformações”, publicado pelo Dieese e pelo Ministério do Trabalho e Emprego, marcando o aniversário da criação do salário mínimo.</p>nn<h3>As Desigualdades Refletidas nos Números</h3>n<p>As estimativas do projeto "Salário Digno Brasil" escancaram as profundas desigualdades no custo de vida do País. Os valores são baseados em indicadores regionais, incluindo dados da Pesquisa de Orçamento Familiar (POF) do IBGE e informações sobre a participação feminina no mercado de trabalho.</p>n<p>A menor estimativa de salário digno foi calculada para o Sul de Roraima (R$ 1.904), enquanto a maior foi a de Porto Alegre (R$ 4.763). Um dado alarmante é que os valores de salários dignos em todas as regiões pesquisadas são superiores ao salário mínimo nacional, atualmente em R$ 1.621. “As estimativas mostram muito bem esse gap entre o salário digno, que a gente calcula, e o salário mínimo, e a sua variação regional”, afirma Luciano Mattar, um dos pesquisadores.</p>nn<h3>Metodologia Atualiza Estudos Históricos de Josué de Castro</h3>n<p>O projeto adota a metodologia Anker, que mensura o custo de um padrão de vida decente para uma família e, a partir daí, calcula o salário necessário para sustentá-lo, evitando situações de pobreza. Esta abordagem se diferencia por contextualizar indicadores econômicos regionalmente. Segundo Barbosa, a metodologia resgata e atualiza os estudos pioneiros de Josué de Castro nos anos 1930, que balizaram a criação do salário mínimo. “Essa metodologia de alguma maneira pretende atualizar o Josué de Castro, mas trazendo para além da alimentação de qualidade outros itens, e sempre ressalvando que o que está se falando aí são os mínimos para se viver de maneira decente, ou seja, de maneira básica num determinado território”, explica o docente.</p>n<p>Os pesquisadores utilizaram dados do IBGE, dividindo os estados em macrorregiões com características socioeconômicas semelhantes. O estado de São Paulo, por exemplo, foi segmentado em cinco regiões distintas para o estudo.</p>nn<h3>Do Custo de Vida ao Salário Digno: Como é Calculado?</h3>n<p>Para cada uma das 79 macrorregiões, foi calculada a renda digna de uma família de quatro pessoas, considerando custos de alimentação nutritiva, moradia adequada e despesas “não alimentação, não habitação” (transporte, educação, saúde, cultura, comunicação, entre outros), além de uma margem de poupança para imprevistos. Esta renda digna serve como um indicador amplo, aplicável tanto a trabalhadores assalariados quanto a agricultores familiares e pequenos empresários.</p>n<p>No passo seguinte, para obter o salário digno, a renda digna é dividida pelo número de trabalhadores em tempo integral por família, com a adição de impostos e deduções legais. O número de trabalhadores por família é um indicador que varia regionalmente, refletindo a dinâmica do mercado de trabalho local.</p>n<p>Os índices gerados pelo projeto permitem análises aprofundadas sobre a economia brasileira, como a participação feminina no mercado de trabalho e as desigualdades salariais. Eles também podem auxiliar na formulação de políticas públicas e na compreensão de fenômenos sociais e políticos, como a percepção da “affordability” (capacidade de compra) pela população. Ainda neste ano, o projeto lançará um painel interativo com estimativas detalhadas, permitindo comparações com a linha de pobreza do Banco Mundial e os salários médios do setor formal.</p>"
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Fonte: jornal.usp.br
