Um relatório recente da National Oceanic and Atmosphere Administration (NOAA), agência científica americana, aponta uma alta probabilidade de consolidação do fenômeno El Niño nos próximos meses, com 82% de chance de ocorrer entre maio e julho. Este evento climático, parte da variabilidade natural do sistema terrestre, corresponde à fase quente da Oscilação Sul (ENOS), caracterizada pelo aquecimento anômalo das águas superficiais do Pacífico Equatorial.
A fase oposta, La Niña, é marcada pelo resfriamento dessas águas. O El Niño tem o potencial de reorganizar a circulação atmosférica em escala planetária, influenciando ondas de calor, padrões de precipitação, secas, enchentes e outros eventos extremos em diversas partes do mundo, incluindo o Brasil.
Como o El Niño se Configura
Nádia Lima, professora do Departamento de Geografia da FFLCH da USP, explica que, em condições de neutralidade, os ventos alísios sopram de leste para oeste no Pacífico Tropical, acumulando águas mais quentes no Pacífico Oeste. Isso provoca a ascensão de águas frias e ricas em nutrientes (ressurgência) na costa oeste da América do Sul, próximo ao Peru e Equador, e organiza a circulação de Walker, que favorece chuvas no Pacífico Oeste e ar mais seco no Pacífico Leste.
O El Niño começa quando os ventos alísios enfraquecem, permitindo que a massa de água quente se desloque para o centro e leste do oceano. “Esse deslocamento provoca um aquecimento anômalo das águas superficiais no Pacífico Equatorial central e oriental, enquanto reduz a intensidade do processo de ressurgência das águas frias na costa da América do Sul. Esse aquecimento altera os gradientes de pressão atmosférica entre o Pacífico Oeste e Leste, enfraquece a Oscilação Sul e reorganiza toda a circulação tropical em larga escala”, detalha Nádia Lima. Centros de monitoramento, como a NOAA, identificam o El Niño quando a temperatura da superfície do mar na região Niño 3.4 (Pacífico Equatorial Central) apresenta anomalias iguais ou superiores a 0,5ºC por meses consecutivos.
Impactos Regionais no Brasil: Chuvas e Secas Desiguais
Os efeitos do El Niño no Brasil são expressivos e variam consideravelmente devido às dimensões continentais do país. Nádia Lima ressalta que o fenômeno não atua isoladamente, mas modifica a probabilidade de ocorrência de determinados padrões climáticos.
- Região Sul: Há uma tendência de aumento das chuvas, especialmente entre a primavera e o início do verão. Isso favorece a atuação de sistemas frontais e o transporte de umidade, elevando o risco de inundações e deslizamentos de terra.
- Regiões Norte e Nordeste: O fenômeno geralmente provoca redução das chuvas e elevação das temperaturas, especialmente na Amazônia e no semiárido nordestino. Isso pode levar a estiagens prolongadas, redução da disponibilidade hídrica, queda nos níveis de reservatórios e maior suscetibilidade a queimadas.
- Regiões Centro-Oeste e Sudeste: Os impactos tendem a ser mais variáveis, dependendo da intensidade do El Niño, da época de ocorrência e da interação com outros moduladores climáticos, como a temperatura da superfície do Oceano Atlântico e a Zona de Convergência do Atlântico Sul.
O El Niño e a Economia: Desafios para Agricultura e Energia
A variabilidade climática impacta diretamente setores estratégicos como a agricultura e o setor energético. A produtividade agrícola não depende apenas do volume total de chuvas, mas de sua distribuição ao longo do ciclo produtivo. Em áreas com excesso de precipitação, pode ocorrer encharcamento dos solos, atrasos no plantio e colheita, e aumento de doenças nas lavouras. Já em regiões com estiagens e altas temperaturas, culturas como soja, milho, feijão, café e pastagens podem sofrer redução de produtividade e maior demanda por irrigação.
Previsão e Preparação: A Importância da Antecipação
A tecnologia atual permite uma maior capacidade de prever fenômenos climáticos, o que é crucial para a preparação. Tercio Ambrizzi, professor do Departamento de Ciências Atmosféricas do IAG da USP, destaca que esse conhecimento antecipado é vital. “Em termos de agricultura, perdia-se muito, porque não tínhamos esse conhecimento tão grande. Hoje, quando já temos uma perspectiva de que haverá um El Niño, mesmo que não saibamos a intensidade, o conhecimento de sua região já permite se preparar para os efeitos do fenômeno”, afirma.
Essa previsibilidade ajuda agricultores a escolher o melhor momento para o plantio e a colheita, ou até mesmo a optar por culturas mais adaptadas. Para a Defesa Civil, significa preparar-se para possíveis inundações e deslizamentos, com ações preventivas como a remoção de pessoas de áreas de risco, evitando mortes.
Classificando a Força do Fenômeno: Além dos Rótulos de “Super” El Niño
A intensidade do El Niño está ligada ao grau e à persistência do aquecimento das águas superficiais do Pacífico Equatorial. O acoplamento entre oceano e atmosfera é um mecanismo de reforço que intensifica o fenômeno ao longo dos meses. Ambrizzi alerta contra o uso de rótulos como “Super” El Niño ou “El Niño Godzilla” pela mídia, pois podem levar à desinformação. A ciência classifica a intensidade com base em limiares de aquecimento do Índice Oceânico Niño (ONI) na região Niño 3.4:
- Fraco: Anomalias acima de 0,5ºC.
- Moderado: Entre 1ºC e 1,5ºC.
- Forte: Entre 1,5ºC e 2ºC.
- Muito Forte: Acima de 2ºC.
As projeções atuais indicam uma tendência a um El Niño de intensidade moderada para os próximos meses, embora mais simulações numéricas entre junho e julho de 2023 devem trazer uma clareza ainda maior sobre sua força.
Fonte: jornal.usp.br
