Mais de um terço da população em situação de rua de Ribeirão Preto nunca fez exame de vista, revela estudo da USP

Mais de um terço das pessoas em situação de rua na cidade de Ribeirão Preto nunca realizou um exame oftalmológico. Outra parcela significativa, de proporção semelhante, estava há mais de cinco anos sem qualquer avaliação da visão. Esses dados alarmantes emergem de um estudo pioneiro desenvolvido pela Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) da USP, que mergulhou na realidade da saúde ocular dessa população, desvendando barreiras que transcendem a mera oferta de serviços.

A pesquisa, batizada de Hopes (sigla para Homelessness in Ribeirão Preto Eye Study – Estudo da Saúde Ocular em Pessoas em Situação de Rua de Ribeirão Preto), destaca que a falta de documentos, a dificuldade de acesso aos serviços, o estigma social e as prioridades ligadas à própria sobrevivência são obstáculos maiores do que a ausência de infraestrutura. Segundo o professor João Marcello Furtado, principal autor do estudo, a motivação central foi preencher uma lacuna de conhecimento, já que pesquisas oftalmológicas tradicionais frequentemente excluem essa população por dependerem de domicílios e endereços fixos.

Metodologia adaptada para alcançar a população invisível

Para contornar a invisibilidade estatística, o Hopes adaptou métodos tradicionais. Em vez de coletas nas ruas, a equipe levou os exames oftalmológicos diretamente aos locais onde essa população já estava sendo atendida, como abrigos, centros de apoio municipais e instituições sociais parceiras. Voluntários com mais de 18 anos, em situação de rua em Ribeirão Preto, foram convidados a participar. Dos 518 convidados, 491 aceitaram e 461 concluíram todas as etapas dos exames, um índice de adesão considerado alto para estudos com grupos de difícil acesso.

Os pesquisadores utilizaram equipamentos portáteis para avaliação visual, refração, pressão intraocular, biomicroscopia e exames de fundo de olho, garantindo a qualidade técnica mesmo fora de ambientes clínicos tradicionais. Essa abordagem flexível foi crucial, pois a alta mobilidade, a ausência de endereço fixo e a dificuldade de documentação inviabilizam um modelo convencional de amostragem ou o comparecimento posterior a clínicas.

Vulnerabilidade social e barreiras de acesso

Os resultados do estudo pintam um quadro de profunda vulnerabilidade social e um grande déficit no acesso à saúde ocular. A amostra foi predominantemente masculina (84,8%), com a maior concentração entre 40 e 59 anos (51,0%). Quase metade dos participantes (47,5%) estava em situação de rua havia até um ano, e 55,7% possuíam até oito anos de escolaridade. As estatísticas mais preocupantes revelam que 33,8% nunca haviam feito um exame oftalmológico, e 33,2% relataram que seu último exame havia sido há mais de cinco anos.

Mesmo em uma cidade como Ribeirão Preto, com boa infraestrutura e serviços especializados do SUS, o acesso a cuidados oftalmológicos mostrou-se severamente limitado. O professor Furtado enfatiza que “a simples existência de serviços oftalmológicos na cidade não garante acesso real para quem vive em situação de extrema vulnerabilidade”. Ele acrescenta que a situação de rua não é estática, com muitos participantes vivenciando instabilidade e recorrência, e não apenas marginalização crônica.

A eficácia da entrega imediata de óculos

Um dos aprendizados práticos mais significativos da pesquisa foi a importância da entrega imediata de óculos. Essa estratégia se mostrou eficaz, especialmente para óculos de perto, devido à dificuldade de seguimento. Em contraste, óculos personalizados, mesmo com prazo de produção relativamente curto, apresentaram alta taxa de perda no seguimento: 41 pares não puderam ser entregues porque os participantes não foram localizados em visitas subsequentes. “A entrega imediata transforma uma oportunidade de cuidado em benefício concreto, enquanto modelos que exigem reencontro posterior tendem a falhar mais nessa população”, ressalta Furtado.

Além da entrega de óculos, os casos mais graves diagnosticados foram encaminhados para atendimento pelo Sistema Único de Saúde (SUS), buscando garantir a continuidade do tratamento.

Por um cuidado adaptado e inclusivo

Os achados do estudo Hopes reforçam que ampliar o acesso à saúde ocular exige mais do que a simples oferta de consultas ou exames. A vulnerabilidade social cria barreiras específicas e cumulativas ao cuidado, mesmo em sistemas de saúde universais e com especialistas disponíveis. Fatores como a falta de documentos, o estigma, a dificuldade de navegar no sistema de saúde e as necessidades urgentes de alimentação e segurança, combinados com a instabilidade habitacional, reduzem drasticamente as chances de prevenção, diagnóstico e tratamento oportunos.

Para o professor Furtado, a proximidade geográfica dos serviços não é sinônimo de acesso efetivo. O estudo sugere que, para reduzir desigualdades, é fundamental adaptar a organização do cuidado à realidade concreta da população em situação de rua, afastando-se do modelo tradicional. A pesquisa também abre caminho para futuras análises sobre a prevalência de deficiência visual, cegueira, fatores de risco e a qualidade de vida relacionada à visão nesse grupo, contribuindo para avaliar indicadores internacionais da Organização Mundial da Saúde (OMS) e desenvolver novas estratégias que melhorem o cuidado oftalmológico oferecido a essa população.

Fonte: jornal.usp.br

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *