Admirável Mundo Velho da IA: Como a Inteligência Artificial Amplifica o FOMO e Redefine o Futuro Profissional da Geração Z
Da ‘vida dos outros’ à ‘relevância profissional’: A inteligência artificial intensifica o medo de ficar para trás, revelando uma profunda desigualdade geracional no mercado de trabalho e o desafio de se adaptar em alta velocidade.
A sigla FOMO — Fear of Missing Out — surgiu para descrever a ansiedade gerada pela observação da suposta vida perfeita alheia nas redes sociais. Contudo, na era da Inteligência Artificial (IA), o conceito ganhou uma dimensão avassaladora, transformando-se no medo de perder não apenas um evento social, mas a própria relevância ou identidade profissional. Este novo cenário, delineado por Pedro de Alvarenga, colaborador do Programa Transtorno do Espectro Obsessivo-Compulsivo do Instituto de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da USP, e Rodrigo Maluf Barella, engenheiro civil e doutor pela Escola Politécnica da USP, aponta para uma preocupação crescente, especialmente entre os mais jovens, sobre o impacto da IA em suas carreiras.
O Impacto no Mercado de Trabalho Jovem
Uma pesquisa do Deutsche Bank, realizada em 2025 com dez mil trabalhadores em seis países, revelou que quase um quarto dos jovens entre 18 e 34 anos teme perder o emprego para a IA nos próximos dois anos. Curiosamente, essa apreensão diminui drasticamente nas faixas etárias mais elevadas. Os dados do mercado de trabalho corroboram essa ansiedade: análises da Randstad, citadas pelo Fórum Econômico Mundial, indicam uma queda de quase 30% na disponibilidade de vagas de nível inicial desde o início de 2024. No Reino Unido, 1,2 milhão de candidatos disputaram menos de 17 mil posições de entrada, enquanto nos Estados Unidos, o desemprego entre os jovens é mais que o dobro da taxa geral. A ironia é que a geração mais familiarizada com telas e IA é também a primeira a sentir a ameaça de ser substituída.
Ecos de um ‘Admirável Mundo Novo’
A situação atual remete à distopia de “Admirável Mundo Novo”, de Aldous Huxley, publicada em 1932. O autor previu a reprodução humana em laboratório, o prazer dissociado da reprodução e o declínio da família tradicional. Muitas de suas projeções se concretizaram: a fertilização in vitro (1978) e o diagnóstico genético pré-implantacional são realidades que permitem a seleção de embriões. Além disso, o número de lares com animais de estimação nos EUA superou o de lares com crianças, e o mercado pet brasileiro, o terceiro maior do mundo, “massacra” as redes de produtos para bebês. Huxley acertou ao prever a separação entre prazer e reprodução e o colapso da família tradicional. Contudo, errou ao imaginar que o Estado imporia esses comportamentos; foram as escolhas narcísicas e o altíssimo custo de vida que moldaram essas transformações.
A Desigualdade Geracional e as Competências Humanas
A desigualdade geracional diante da IA é um fenômeno estrutural. Profissionais com capital e experiência acumulados desfrutam de um “amortecedor” que os jovens não possuem. Um executivo sênior que incorpora ferramentas como ChatGPT ou Copilot vê sua produtividade multiplicada. Em contrapartida, o recém-formado, que esperava aprender um ofício em tarefas de menor complexidade, descobre que essas posições simplesmente desapareceram. Quando os degraus iniciais somem, a escada para o sucesso profissional não se torna mais íngreme; ela, literalmente, desaparece. A pergunta “O que estudar? Com o que trabalhar?” assombra estudantes e jovens profissionais.
A chave para a resposta reside em distinguir o que a IA faz bem do que ela ainda é “manca”. A IA é imbatível em tarefas simples e padronizadas, mas falha em julgamento contextual complexo, negociação interpessoal com alta carga emocional, liderança em crises sem precedentes e criação genuína. Um médico que interpreta um exame na presença de um paciente aflito e decide o tratamento, ou um engenheiro que identifica um desvio em uma obra que nenhum sensor capturou e redefine o cronograma — esses profissionais ainda não têm substitutos. O essencial é que ambos deverão dominar a IA como uma extensão do seu próprio julgamento, e não como uma ameaça territorial.
Adaptar-se ou Sucumbir: O Caminho para o Futuro
A história da tecnologia é repleta de “pânicos” que, invariavelmente, resultaram em adaptações e melhorias na qualidade de vida. Os ludistas destruíram teares em 1811, mas a Revolução Industrial gerou um número exponencialmente maior de empregos. Nos anos 1950, computadores causaram fobia corporativa, mas o número de empregos de escritório cresceu por décadas, dando origem a novas profissões. O padrão é claro: a tecnologia destrói tarefas, mas preserva funções. A diferença agora é a velocidade; a adaptação que antes levava uma geração inteira, hoje precisa acontecer em poucos anos.
Diante do “FOMO geracional/tecnológico”, a resposta não é a negação ou o pavor, mas a sutil “distinção de competências”. A habilidade mais duradoura é a capacidade de aprender continuamente — não o conteúdo de uma profissão específica, mas a competência de absorver novos contextos e tomar decisões sob ambiguidade e tensão. Para quem orienta jovens, o desafio é ajudá-los a desenvolver um “centro de gravidade” coeso, independente de validação algorítmica. Para as gerações que já acumularam conhecimento e renda, a responsabilidade é catalisar travessias, e não apenas apontar o caminho.
Huxley previu um controle social através do prazer e da tecnologia a serviço da estabilidade. Ele brilhou em suas previsões, mas sua distopia não considerou o núcleo irredutível do ser humano: a capacidade de escolher, em qualquer tempo e sob qualquer condição. Mesmo diante de um mundo que parece nos atropelar, temos a liberdade de decidir como agir neste exato momento. O desejo e o tempo são, talvez, os únicos ativos humanos que a IA jamais poderá substituir, não por compaixão, mas porque simplesmente não precisa deles.
Fonte: jornal.usp.br
