Paulo Santos, ex-Uakti, Desafia os Sentidos com ‘ÁraTekoha’: Álbum Duplo Instrumental que Convida à Autodescoberta e Transforma a Percepção do Tempo Presente

Paulo Santos, figura lendária da música instrumental brasileira e ex-integrante do aclamado grupo Uakti, presenteia o público com seu mais recente trabalho, o álbum duplo “ÁraTekoha”. A obra, que já está disponível, é descrita pelo professor Fernando Viotti, do Departamento de Teoria Literária e Literatura Comparada da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, como um chamado à libertação da repetição e do hábito, imergindo o ouvinte em fantasias e invenções sonoras que provocam uma profunda reflexão sobre a própria existência.

O Significado por Trás do Som

O título do álbum não foi escolhido ao acaso. “Ára”, na língua tupi-guarani, significa “tempo, dia ou época”, referindo-se à dimensão temporal que acompanha o modo de vida. Já “Tekoha” remete ao “lugar onde se vive o ‘teko’”, ou seja, o modo de ser. Essa combinação revela uma poderosa reflexão sobre a conjugação de ser e tempo, mostrando que o pensamento complexo sobre a existência não é exclusividade das culturas europeias, mas está intrinsecamente ligado à cosmovisão indígena brasileira. O álbum, assim, convida a uma experiência de escuta que transcende o mero entretenimento, buscando um engajamento com o “aqui e agora” existencial.

Uma Paisagem Sonora Sem Limites

Desde os primeiros acordes, a sonoridade do mundo natural salta aos ouvidos, mas “ÁraTekoha” está longe de ser uma simples coletânea de sons da natureza. Faixas como “Sementes Intergalácticas” e “Ar Ára” transportam o ouvinte para o coração da selva, de onde são catapultados para um presente mais intenso e vívido. A faixa “Ovo” ilustra a maestria de Santos: uma linha melódica inicial que germina harmonias cada vez mais rendilhadas, induzindo no ouvinte a aparição de um novo ser, atento a sensações até então latentes. A música evoca não apenas o encanto da floresta, mas também a experiência do caminhante na noite urbana, peças de teatro experimental, viagens pela memória e até a tensão de um thriller policial dos anos 1970, demonstrando a vasta tapeçaria cultural e imaginativa que o artista tece.

A Alquimia entre Reconhecimento e Descoberta

A potência da música instrumental de Paulo Santos é exacerbada por sua habilidade em articular o som “informativo” ao “redundante”. Mais do que uma dicotomia entre inovador e convencional, a obra de Santos propõe uma complementaridade entre reconhecimento e descoberta. O ouvinte reconhece sequências sonoras, mas a forma como elas se juntam abre caminhos absolutamente indeterminados para o pensamento. Essa dinâmica leva a um estado que se aproxima de uma alteração da consciência, aguçando a atenção tanto para o mundo interior quanto para a concretude do mundo exterior. A cada audição, a música guia o ouvinte por caminhos inesperados, gerando uma curiosidade que convida à repetição constante da experiência.

O Espírito Lúdico do Criador

Essa capacidade de produzir sentidos inesperados e de envolver o ouvinte em uma jornada tão particular deve muito ao espírito singular de Paulo Santos. Conhecido por seu jeito lúdico e brincalhão de viver a vida, o artista belorizontino transita do carnaval ao doutorado, encarnando com seriedade um viajante interestelar, um professor de sueco com amnésia ou um lutador de sumô. Essa vivacidade e imaginação se refletem diretamente em “ÁraTekoha”, impregnando a obra com uma liberdade criativa que permite ao ouvinte explorar as múltiplas trilhas sonoras da própria existência.

Em um mundo repleto de trilhas sonoras para cada momento da vida – da juventude aos amores, dos sonhos aos encontros – “ÁraTekoha” se estabelece como a trilha sonora definitiva para o existir, na plenitude do momento presente, um convite irrecusável à autodescoberta através do som.

Fonte: jornal.usp.br

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