John Graz: Exposição na USP Explora o Legado do ‘Intérprete do Moderno’ no Design de Interiores e a ‘Arte Total’ no Brasil

A arte não se restringe a museus e galerias, permeando vestuário, utensílios e todos os espaços sociais. Essa é a essência da ‘arte total’, defendida pelos movimentos vanguardistas do século 19, que pregava a indissociação entre arte e vida. No Brasil, o artista suíço John Graz (1891-1980) foi um dos pioneiros dessa concepção, especialmente no design de interiores. A exposição ‘John Graz: Intérprete do Moderno’, em cartaz no Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) da USP, oferece uma imersão nos projetos do artista, evidenciando sua visão de arte integrada ao cotidiano.

A ‘Arte Total’ e o Pioneirismo de John Graz

Conforme explica a professora Ana Paula Simioni, docente do IEB e curadora da mostra, a intenção é que a arte esteja presente no dia a dia das pessoas, não sendo exclusiva a instituições ou colecionadores. Uma das características da ‘arte total’ é a adaptação dos projetos à ‘linguagem’ do tempo presente. No Modernismo, essa linguagem era mais funcional e menos ornamental, e John Graz, ao lado de Gregori Warchavchik, foi um dos primeiros a introduzir esse modelo de modernização ampliada no Brasil.

Apesar de sua participação na Semana de Arte Moderna de 1922 como pintor, a pintura era secundária na fase inicial de sua produção brasileira. Graz formou-se como artista decorador, e sua atuação nessa área o destacou como um inovador. A curadoria, composta por Simioni e Vanessa Costa Ribeiro, que teve acesso minucioso à documentação do artista, optou por enfatizar o lado designer de Graz, por considerá-lo mais original e pioneiro nesse campo do que na pintura figurativa.

Reproduções Inovadoras e o Acervo do IEB

Em dezembro de 2024, o IEB recebeu uma significativa doação de cerca de 1.650 peças do artista, provenientes do Instituto John Graz, de São Paulo. Contudo, as obras expostas na mostra são reproduções fac-símiles. Essa medida foi adotada devido à instalação da exposição em uma sala provisória, com forte incidência de luz solar, que poderia danificar o acervo original enquanto o espaço expositivo do IEB passa por reformas.

As cópias foram elaboradas em diversos formatos, como impressões sobre tecido, a partir de guaches como ‘Altar da Capela do Menino Jesus’ (1938) e ‘Colheita de Café’ (1952). Também há adesivos foscos laminados, criados a partir de fotografias de trabalhos como ‘Jardim de Inverno – Residência Geremia Lunardelli’ (1952), e painéis que exibem desenhos de interiores, mobiliários e pinturas figurativas.

As Duas Faces do Design de Graz: Moderno e Estilo

John Graz organizava seus projetos de interiores em duas categorias: ‘moderno’ e ‘estilo’, ambas representadas na exposição. No grupo ‘estilo’, o mobiliário remete a períodos como barroco, rococó e romântico, com uma estética pastel e neoclássica, como visto no ‘Projeto para Quarto’ (década de 1940), que alude ao mobiliário Luís XV. Já no grupo ‘moderno’, Graz revela sua faceta mais inovadora, com projetos retilíneos, formas geométricas características do Art Déco e contrastes de cores vibrantes, dialogando com artistas dos anos 1950.

Ambas as categorias eram produzidas simultaneamente por Graz, atendendo à demanda estética da elite brasileira da época. O artista realizou projetos para famílias influentes como Matarazzo, Lunardelli e Jafet, sempre buscando o requinte, embora por abordagens distintas.

O Legado e as Mulheres do Modernismo: Regina Graz

O mobiliário desenhado por John Graz é um dos pontos altos da exposição, com destaque para as cadeiras. No painel dedicado a esses projetos, há uma cadeira desenhada em papel craft, em escala quase natural, que servia como guia para os artesãos. Esse método de produção artesanal, quase um móvel único, contrasta com a produção seriada industrial ainda incipiente no Brasil da época.

A mostra também faz uma importante menção a Regina Graz (1897-1973), primeira esposa de John Graz. Regina foi pintora, decoradora e tapeceira, considerada vanguardista das artes têxteis no Brasil, e trabalhou em parceria criativa com o marido. No entanto, como era comum no Modernismo, sua contribuição não era creditada nos projetos do artista, refletindo a divisão sexual do trabalho. Um estudo de tapeçaria de Regina, dos anos 1930, com sua estética abstrata e vanguardista, está presente na mostra. Nos anos 1940, os tapetes de Regina alcançaram sucesso independente, culminando na abertura de sua própria empresa, a Indústria de Tapetes Regina Ltda.

Para complementar a exposição, duas mesas-redondas estão programadas. A primeira, ‘A ‘Arte Total’ de John Graz’, ocorre em 11 de maio, e a segunda, ‘Colecionar, Arquivar e Expor John Graz’, em 28 de maio, ambas no Auditório 1 do IEB. A exposição ‘John Graz: Intérprete do Moderno’ pode ser visitada até 30 de junho, de segunda a sexta-feira, das 8h30 às 19h, no Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) da USP, com entrada gratuita.

Fonte: jornal.usp.br

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