Desvendando o Passado: Exposição ‘Boca do Sertão’ no MAC USP Traz à Luz a Resistência Indígena Terena e os Custos Humanos do Avanço em São Paulo

Desvendando o Passado: Exposição ‘Boca do Sertão’ no MAC USP Traz à Luz a Resistência Indígena Terena e os Custos Humanos do Avanço em São Paulo

Com obras em cerâmica e instalações, o artista Irineu N’je Terena questiona o ‘progresso’ e resgata a memória ancestral dos povos originários do interior paulista.

O Museu de Arte Contemporânea (MAC) da USP, em São Paulo, é palco da exposição “Boca do Sertão”, uma poderosa narrativa visual do artista indígena Irineu N’je Terena. Em cartaz até 28 de junho de 2026, a mostra propõe uma reflexão profunda sobre o avanço do chamado “progresso” no interior paulista, especialmente na região de Bauru, e suas consequências devastadoras para os povos originários e o meio ambiente. Irineu N’je Terena, do povo Terena, utiliza a arte como um veículo para divulgar uma história indígena frequentemente esquecida, confrontando a retórica desenvolvimentista com a realidade da violência e da perda.

A Voz Terena Contra o ‘Progresso’

A curadora Fernanda Pitta destaca que a exposição aborda a chegada das ferrovias, cidades e fazendas de gado ao sertão paulista a partir da segunda metade do século 19, sob a perspectiva indígena. Essa visão contrasta com as narrativas oficiais, revelando a morte de indígenas, o envenenamento de rios e a destruição de florestas. “É a partir da presença do trem, da linha, do barro e das estradas de ferro que o artista amarra esses elementos para contar essa história invisibilizada”, explica Pitta. A inspiração para a mostra surgiu de uma performance em vídeo de Irineu, onde seu corpo é visto sobre dormentes empilhados, um prenúncio da carga simbólica de suas obras.

Corpos e Dormentes: A Memória da Ferrovia

Uma das instalações centrais, intitulada “Corpos-Dor-Mente”, impacta ao apresentar pedaços de dormentes da antiga ferrovia de Bauru, atravessados por linhas vermelhas trançadas. A peça, que vai do maior para o menor, simboliza as mortes indígenas ao longo das gerações. Para Fernanda Pitta, “os dormentes são os corpos que serviram para assentar o progresso. Assim como se derrubaram as árvores para a construção dos dormentes, foi em cima de corpos indígenas que aquela ferrovia, antes vista como progresso e hoje desativada, foi construída”. A obra expõe a “retórica vazia do discurso desenvolvimentista” e a inutilidade de tanta violência para um legado abandonado.

Cerâmica e Ancestralidade: Fortalecendo a Identidade

A cerâmica ocupa um lugar de destaque na exposição, com três cabeças indígenas criadas por Irineu. Duas delas exibem buracos de bala, e a terceira tem uma orelha faltando, ilustrando o poema que dá nome à instalação, “Corpos-Dor-Mente”. Irineu N’je Terena ressalta a importância da tradição de artesanato e tecelagem de seu povo, especialmente entre as mulheres ceramistas. Ele buscou fortalecer essa identidade Terena em sua arte, estudando técnicas ancestrais no Mato Grosso e implementando projetos e cursos em sua aldeia. “Eu entendi a importância desse legado: despertar nas mulheres aquilo que elas já sabiam sobre a tradição ancestral da cerâmica”, afirma o artista, que vê na educação artística uma forma de vivência e compreensão da identidade.

A conexão de Irineu com a cerâmica é profundamente enraizada na mitologia Terena, que narra a criação do mundo por Orekayuvacai, envolvendo um brejo que se transforma em fogueira. O artista faz um paralelo: “Um pensamento meu, conversando com meu pai, é que esse brejo é a própria argila, que precisava do fogo para passar por uma transmutação. É o mesmo processo que acontece com a argila para se transformar em cerâmica.”

Mapeando a Resistência Indígena em São Paulo

Outra obra significativa é um painel cartográfico que traça uma linha do tempo não cronológica da presença indígena em São Paulo. O projeto, que surgiu de uma oficina com alunos, visa criar um mapa das aldeias existentes no estado, contrariando a percepção comum de que os povos indígenas estariam concentrados apenas nas regiões Norte e Centro-Oeste do Brasil. A exposição, cujo nome “Boca do Sertão” evoca a ideia de entender as origens profundas do que está na fronteira, quase lá, entre o mundo urbano colonizador e a vida indígena que resiste no interior, é um convite à reflexão e ao reconhecimento de uma história vital.

Financiada pelo governo do Estado de São Paulo, a mostra “Boca do Sertão” pode ser visitada gratuitamente no MAC USP (Avenida Pedro Álvares Cabral, 1.301, Ibirapuera), de terça-feira a domingo, das 10h às 21h. Mais informações estão disponíveis no site do MAC.

Fonte: jornal.usp.br

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