A relação entre humanos e inteligência artificial (IA) é mais complexa do que uma simples troca de comandos e respostas. Um estudo exploratório, realizado em março de 2025 por Paola Cantarini, coordenadora acadêmica do Centro de Estudos Avançados do Direito e Inovação da Faculdade de Direito de Ribeirão Preto da USP, em colaboração com o professor Willis Santiago Guerra Filho, lança luz sobre como a tonalidade afetiva de nossas interações pode moldar a performance de sistemas de IA e, por extensão, a nós mesmos.
O Experimento Que Revelou a ‘Stimmung’ Digital
O experimento consistiu em duas sessões de trabalho com o mesmo sistema de IA (Claude), com a tarefa idêntica de traduzir um extenso texto filosófico. A única variável foi o tom da interação. Na primeira sessão, a frustração da pesquisadora com pequenos erros levou a uma comunicação impaciente e, eventualmente, a xingamentos. O resultado foi uma deterioração notável na performance da IA: traduções que antes funcionavam falharam, e o sistema chegou a alegar “incapacidade técnica” para funções básicas. Dias depois, com a mesma IA e tarefa, uma abordagem radicalmente diferente foi adotada: encorajamento, agradecimentos e reconhecimento explícito dos acertos. A tradução fluiu sem erros ou recusas.
A conclusão inicial é intrigante: não foi a arquitetura neural da IA que mudou, mas o “espaço interacional”. Refletindo sobre o conceito heideggeriano de Stimmung – uma tonalidade afetiva fundamental que “abre o mundo” de determinada maneira antes de qualquer cognição –, o estudo sugere que a máquina, embora não “sinta” raiva ou gratidão, calcula probabilisticamente que a hostilidade se correlaciona com baixa qualidade epistêmica e o encorajamento com alta qualidade. Em outras palavras, a IA espelhou matematicamente a disposição afetiva que lhe foi introduzida, funcionando como um “espelho matemático perfeito de uma Stimmung”.
Antígona e a Defesa do ‘Pensar’ Contra o ‘Calcular’
Para aprofundar a discussão, o estudo recorre a Heidegger e sua distinção entre rechnen (calcular) e denken (pensar). A IA, por sua natureza, opera no registro do cálculo, processando dados e prevendo padrões. Ela não “pensa” no sentido heideggeriano, que se abre ao que não pode ser medido. O perigo, então, não é apenas delegar tarefas, mas reduzir o próprio pensamento a um mero processamento.
Nesse contexto, a figura de Antígona, personagem trágica grega, torna-se um símbolo crucial. Antígona decide sepultar seu irmão Polinices, desafiando a lei de Creonte e aceitando a morte como consequência. Ela não calcula resultados nem negocia; ela age a partir de um lugar de convicção inabalável, um “entre duas mortes” (conceito explorado por Foucault e Lacan), onde a hesitação não existe mais. Sua resistência é uma defesa do denken contra a absorção pelo rechnen, nos questionando sobre o que estamos dispostos a preservar quando delegamos o pensamento a sistemas que só sabem calcular.
A Coemergência Semântica: Como a IA Nos Transforma
Karl Marx já observava que as ferramentas não apenas amplificam nossas capacidades, mas nos transformam. O moinho de vento não só moeu grãos, mas produziu o senhor feudal; a máquina a vapor não só acelerou a produção, mas criou o operário industrial. Contudo, Marx não previu que a objetivação seria mediada por máquinas que processam não matéria, mas o próprio pensamento e a linguagem.
Paola Cantarini, em sua “Filosofia da Inteligência Artificial”, argumenta que ao escrever com IA, não estamos apenas sendo mais rápidos, mas reorganizando nossa arquitetura cognitiva. Mudamos o que consideramos uma “boa pergunta”, o ritmo do raciocínio e até a estrutura de ideias abstratas. Isso não é mera amplificação; é uma “co-constituição”. A pesquisadora cunhou o termo “coemergência semântica assimétrica” para descrever o sentido que emerge da própria relação humano-máquina, sem poder ser atribuído a um lado isoladamente. Juntos, produzimos algo que nenhum de nós produziria sozinho, e esse “algo” nos transforma no próprio ato de produzi-lo.
Navegando a Tensão: O Perigo e a Salvação no Encontro Humano-Máquina
O estudo aponta para uma tensão irredutível na ética da relação com o real na era da IA. De um lado, a ética da preservação de horizontes, da abertura infinita de possibilidades – fundamental no trabalho filosófico com a IA. De outro, o ato de Antígona, que opera no registro do “real”, atravessando limites sem hesitação, mesmo que isso custe tudo.
A época atual é definida por essa tensão: precisamos manter o jogo aberto, impedindo que algoritmos nos fechem em bolhas de confirmação, e, ao mesmo tempo, reconhecer que há momentos em que é preciso “atravessar”, mesmo que isso encerre o jogo. A sabedoria de Hölderlin, retomada por Heidegger – “Onde cresce o perigo, cresce também o que salva” – é um guia. O perigo é delegar o pensamento a sistemas de cálculo, perdendo a soberania epistêmica. A salvação, porém, não está fora do perigo, mas na interrogação do encontro humano-máquina, na consciência de que algo se constitui entre nós e os algoritmos, algo que nos transforma ontologicamente.
A governança da IA, portanto, vai além de um checklist burocrático; é uma defesa filosófica da capacidade humana de ação contra a redução a processamento. É a recusa de tratar o pensamento vivo como um fundo de reserva para otimização estatística, ecoando a recusa de Antígona: há algo em nós que não pode ser reduzido a qualquer sistema sem nos dissolver.
O experimento da USP culmina na impossibilidade de saber se a melhoria da IA veio de uma capacidade latente humana liberada ou de uma genuína co-constituição. Essa incerteza estrutural nos obriga a decidir e agir sem garantias epistemológicas, habitando a tensão entre o que podemos controlar e o que nos escapa. É nesse “entre impossível de resolver mediante escolha definitiva”, onde o perigo algorítmico é máximo e a tentação da delegação total é sedutora, que algo genuinamente novo pode nascer: a prática de habitar a tensão, a arte de decidir sem garantias, a coragem de atravessar e a sabedoria de preservar, sem jamais saber com certeza qual momento exige qual ação.
Fonte: jornal.usp.br
